POESIA

Diário de um naturalista

Imagem: Geographicus Rare Antique Maps

21 de maio, 1908

Manhã com névoa espessa. Na montanha
já neva (não que o inverno esteja longe
deste lado do planeta). Tamanhas
viagens fazem-me sentir-me um monge,

um eremita em busca de um deserto
polar no qual quem sabe tome parte da
vida que o gelo deixa a descoberto.
Os anos na península da Antártida

não passaram em branco, por exemplo.
Agora estou aqui. É quinta-feira.
Paira um condor nas nuvens, o contemplo.
Para onde olhamos vê-se a cordilheira.

§

27 de maio, 1908

Desperta-nos o apito do navio.
Percorro o porto oculto sob a bruma
que desde a madrugada o encobriu.
Sinto-me nulo, como se nenhuma

certeza me bastasse. Ou, cito Darwin,
“como uma crosta sobre um fluido”. Nada
explica como neste lugar vim
parar – e, no limite, não há nada

que explique, senão a posteriori,
as causas geradoras de um efeito.
Faz frio, mas acredito que melhore.
À noite durmo logo assim que deito.

§

30 de maio, 1908

A bordo da corveta Baquedano
pouco acontece. E pouco me contenta
mais do que o mar. As águas do Oceano
Pacífico são menos que cinzentas.

O sol, se se levanta sobre a linha
embaciada do horizonte, entalha
a superfície de granito, e minhas
noções hesitam, a inteligência falha.

Em torno aos mastros ronda uma gaivota.
O céu, ao meio-dia, é como um limbo
que tudo torna branco, tudo embota.
Sento na proa. Fumo meu cachimbo.

§

15 de junho, 1908

Na ilha não são raras as crateras
em bom estado de preservação.
Os leitos de basalto, como à espera
de um mínimo ruído do vulcão

extinto, afloram ocasionalmente
em cones (ou pedreiras de chapéus)
onde, por um momento, um acidente,
as nuvens aterrissam feito um véu.

Recolho alguns vestígios geológicos
e tomo notas com pouco rigor.
Se chego a conclusões, julgo-as ilógicas
ou sem qualquer beleza, o que é pior.

§

16 de junho, 1908

O que dizer, caríssimo diário?
O junco que em barrancos se amontoa,
um descendente do Scirpus riparius,
circunda todo o entorno da lagoa

cuja profundidade não pudemos
medir e que sem dúvida, segundo
alguns ilhéus de mente pelo menos
prolífica, não chega a ter um fundo.

A mim não me parece, não obstante,
que o infinito sirva de medida.
Limito-me ao milímetro, ao instante.
Um dia pode resumir a vida.

§

18 de junho, 1908

Um dia nem de chuva nem de sol.
As caminhadas pela costa norte,
por força do capim nas pedras, ou
são desagradáveis ou têm com sorte

qualquer coisa de vago, como se,
de um lado, a vida fosse o que ela é
e, de outro, fosse fútil estar aqui.
Tudo somado, o resultado é zer-

o, embora a esta altura já não creia
que caiba computar perdas e danos.
As ondas precipitam-se na areia.
Completarei em breve trinta anos.

§

21 de junho, 1908

É o último exemplar. Temos certeza.
E é provável que sejamos os últimos
a vê-lo. Nenhum homem menospreza
este momento que suponho íntimo.

Fitamo-lo. Tem três metros de altura.
O tronco é firme, como não houvesse
despido-se das folhas verde-escuras.
Não é uma pessoa, é uma espécie

que está morrendo. Arranco-lhe um pedaço
da madeira, demoro-me um segundo
e me despeço. Andando, conto os passos.
Voltamos amanhã ao velho mundo.

Zeno Queiroz nasceu em 1999 em Fortaleza e desde 2020 vive em São Paulo. É doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Autor de “Viagem à ilha” (7Letras, 2024).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *