POESIA

Poemas de “Estupor”

Imagem: 7Letras/Reprodução.

a mesma paisagem
nos dentes arreganhados
da morte que espreita

§

arcanos do fogo
o sol descendo a montanha
nas cores da ravina

§

os cegos eles inventam
outras cores, outros mundos
não este que nos cega

§

mil anos na pedra
calcárea ventos oblívio
seu rosto desfeito

§

ato-em-si-de-ser
dessa-maneira-e-não-de-outra
sem-se-saber-poema

§

quais futuros vibram
esses escombros agora
na retina do anjo?

§

neste ponto cego
não há passado nem futuro
mas tropeço adiante

§

perigosamente
a cidade
por seus vãos impunes

§

os outros em cada morte
são avenida e sirene
no anverso do medo

§

uma comissura
se esgueira nos penhascos
do que era sorriso

§

resiste a palavra
em meio aos seus escombros
de avesso e descuido

§

perspectiva e risco
nas invenções do vermelho
que os futuros dizem

§

vermelho em silêncio
como cepa do futuro
da semente às folhas

Álvaro Miranda, paulistano, radicado no Rio de Janeiro desde 1983, é jornalista, poeta, mestre e doutor em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento pela UFRJ. É autor de Manual para aforismos insolentes (2021), Estranho país que teus olhos já não procuram mais (2019), Pra que serve a palavra nunca (2017), Diorama (2011), A casa toda nave cega voa (2008), todos publicados pela 7Letras, e de Tribunal de Contas no Brasil: a falsa cisão entre técnica e política (Editora UFRJ, 2020). Os poemas selecionados são do livro Estupor (2022).

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