Luiz André Nepomuceno
Patos de Minas – MG
[Florêncio Pacheco, diário. 11 de abril de 1872]
Saturnino mostrou-se particularmente impressionado com a primeira fotografia que fizemos do casarão. Era o quinhão inicial do meu trabalho. Bem, impressionado talvez seja pouco. A comoção tomou-lhe a alma, ele ficou efusivo, queria que o universo participasse de seu engrandecimento heroico, a ampliação estampada de um poder tão imenso quanto mísero e bairrista. Parecia um ritual solene: ficaram todos à porta da casa, preparei a chapa, corri aos fundos da câmara escura, a deixar de prontidão a placa de vidro utilizada, cobri-a com o colódio, mergulhando-a na solução de nitrato de prata, espalhando bem o líquido, conforme eu mesmo explicara a eles outro dia. Mas ninguém tinha prestado atenção. Foram segundos de exposição, corri de volta ao casebre dos fundos, e por lá fiquei, durante minutos que foram intermináveis aos curiosos que me aguardavam.
A agitação, então, foi plena. Um alvoroço, o que vi. Seu Flordualdo, o estouvado de sempre, a decrepitude tomando-lhe a razão, sustentou a personagem tragicômica e burlesca dos dias anteriores, gritando que eu era bruxo, e Sá Violeta, não bastasse a vozearia do cunhado, achou que tinha de oferecer o seu tanto de alarido, tirou para fora do vestido, ali mesmo, na frente de todos nós, um peito gordo e sem viço, arremessando injúrias a Saturnino que, diferentemente dos bufos e decrépitos, era todo uma facúndia épica: “Por esse peito em que você mamou, menino, será que não basta o desgosto e a morte do seu pai?”. Não soube a razão de tudo isso até entender, D. Maria Joaquina me explicou depois sem que eu perguntasse, que Sá Violeta e D. Firmina Botelho, ainda jovens, tinham ficado grávidas à mesma época, a primeira abortou, a segunda perdeu o leite, que secou. O resto se adivinha.
Saturnino, fotografia em mãos, bochechas afogueadas, bigodes altivos, alheio à peitaria de Sá Violeta, subiu ao cavalo, à porta do casarão, os cachorros correndo-lhe ao encalço, e parece ter tomado a pose que Jacques-Louis David pensou para o retrato equestre de Napoleão no passo de São Bernardo: com essa imagem, atravessou a rua do Ávila, encharcada de lama, rumo ao largo da Jaqueira, gritando à força de pulmões: “Viva os tempos modernos! Viva o poder do ouro!”. A cidade parou para o espetáculo. Depois disso, entendi, com efeito, que meu lugar era mesmo no casebre dos fundos, o cozinheiro de Alexandre Magno assistindo ao desenrolar das batalhas sabendo a miudeza do papel que lhe cabe.
O regozijo durou pouco. Para mim, pelo menos. À tarde, quando estive no casebre que me servia de oficina e câmara escura, a senzala dos primeiros dias, precisei dar queixa do que via, estarrecido: meus vidros de negativo, dispostos na prateleira improvisada, estavam todos quebrados, propositadamente quebrados, tenho certeza. Quer dizer, não todos, porque muitos eu vinha guardando em caixotes que não ficaram à mostra. O velho, veio-me à cabeça. Sim, o velho. Parecia uma verdade incontestável. Os vidros, espalhados pela prateleira, quebrados um a um, como se uma mão nociva tivesse estraçalhado, com um objeto qualquer, cada uma das chapas, com a intenção consciente do que fazia. Comuniquei a Saturnino, que, mesmo tendo adivinhado a arte evidente do pai (ele confessou isso no primeiro ímpeto), preferiu culpar os escravos. Nana, em particular. Mas eu sabia que não era ela. Protestei, em vão. Saluco foi levado à fazenda, disseram-lhe que havia serviço por lá. Só voltou no dia seguinte. Protestei de novo, insisti. “O casquilho abolicionista nunca deve ter tido um escravo na vida”, Saturnino me disse. “Não sabe o que é trabalho, e não sabe o que é essa gente. Invejam de nós até mesmo os fios do bigode. A credulidade pode lhe cair bem, meu caro, mas não a mim”.
Arrependi-me da queixa, mas ao mesmo tempo, já não dispunha mais do número de vidros de negativo que o trabalho posterior demandava, sem dizer que nem de longe podia imaginar os desdobramentos da história. D. Maria Joaquina buscou a conciliação, sabia a cena desnecessária de injustiça que estaria por vir. Saturnino, enérgico, de poucas palavras, garantiu que reparava meus prejuízos, mandava buscar material novo em Ouro Preto ou Diamantina. Isso queria dizer que meus dias naquela casa se alargavam. Mas não era apenas uma questão de prejuízo, era o tempo, matéria de todos os ganhos.
Nana foi surpreendida enquanto descascava batatas no fim da tarde e amarrada a um tronco de mangueira, na mesma árvore de onde se dependurava o balanço que eu retratara pela manhã. Não protestou, não entendeu os fatos, negou que tivesse feito aquilo tudo de que a acusavam, e não teve um defensor a quem recorresse. De minha parte, juro que eu mesmo não esbocei a proteção, sem recursos que me coubessem naquela terra. Olímpio, que soube da história, foi quem legitimou e propôs o suplício. Pode ser que ele tenha tido lá um motivo prévio que lhe validasse a decisão, pois cá comigo sei que as razões profundas não eram essas. A negrinha foi grudada à mangueira pela noite toda, nua em pelo, braços e pernas amarrados, o corpo magro, a expressão trêmula no rosto, os peitinhos miúdos que se lhe brotavam à mocidade, o frio da madrugada de abril entrando-lhe à carne. Não apanhou. Mas levou coisa pior. Pensando bem, acho que sei por que Olímpio tão prontamente prestou-se a juiz da causa. Pelas tantas da noite, todo mundo dormindo, ele possuiu a menina amarrada no tronco, Estêvão relatou-me depois. Decerto vinha tencionando a melhor ocasião de fazer isso. E achou.
Nana ficou de cama por cinco dias, ou mais, entisicou, encovou os olhos, tossiu muito, restabeleceu-se depois. Quem protestou dessa vez foi Saturnino, achando que a sevícia fora descabida, desnecessária, e mais ainda o estrago que se fizera à menina, porque, afinal (agora ele dizia isso), ninguém sabia quem era o autor dos meus prejuízos. Ouvi quando ele gritou ao filho: “Você faça o que quiser, mas não vá me estragar essa negrinha, que é boa de dentes e tem canela fina. Não sabe quanto custa um escravo aqui no Paracatu, seu moleque”.
Achei que, a mim, cumpria-me esperar pelo material que vinha de Ouro Preto ou Diamantina, e nada mais. Vidros novos. Afinal, eu sempre tenho papel menor nos espetáculos da casa, trágicos ou cômicos. Passei a noite irrequieto, movido a sonhos estranhos, vindo-me à lembrança a imagem horrenda que Goya pintou de Saturno devorando um de seus filhos, as fauces abertas ao horror canibal, os olhos esbugalhados, o corpo alongado e gigante, envelhecido pela cabeleira branca, o outro corpo miúdo do filho qual massa disforme e ensanguentada. Acordei fabulando um levante contra o patrão, julgando que devia ser indenizado pelo tempo perdido. Desisti da rebeldia. Daria muito trabalho. Por fim, aceitei que me impusessem o papel que me cabe: a classe dos homens livres, entre os maus-tratos da gentalha e a volúpia dos eleitos, acomoda-se à cadeira do espetáculo e lava as mãos.

[Florêncio Pacheco a Matteo Colucci. 26 de abril de 1872]
Meu caro, suponho que alguma carta tua, de uns quinze dias antes, não me tenha chegado às mãos, pois que nesta última, argumentas sobre matéria de que não dei notícia. Haveremos de tratar disso depois. Terás por aqui a espantosa notícia de uma verdadeira Salpêtrière no meio do sertão de Minas e ficarás tocado. Tenho bastante a dizer-te. Muito embora estivesse inclinado a fazer o retrato apenas do anão que todos os dias vai ao chafariz a lavar seus tigres imundos, um plano maior inundou-me a alma, tão logo esboçou-se à consciência.
Tive de recorrer a Estêvão, que me prometeu cooperar. Mas sexta-feira não é um dia fácil para passeios e saídas sem explicações. Ele não foi à fazenda, deve ter inventado algum artifício ao pai, que, caso soubesse de nossas intenções, ou pelo menos de minha intenção, teria enfaticamente proibido nosso plano. A casa de Saturnino tem muitos olhos, tive de aproveitar a hora certa, as mulheres à rua, os homens trabalhando, as tias amalucadas ao quintal, sem dar notícia do que fazíamos. Precisei colocar a tenda num carro que consegui com Emanuel Francisco, parceiro de minhas extravagâncias, depois a câmera, depois as chapas, os agentes químicos. Cobri tudo com uma lona.
E então, juntos, Estêvão e eu, tomamos o caminho, cúmplices, atravessando ruas, a cidade ficando atrás, as casas apoucando-se, até chegarmos ao arraial d’Angola, no caminho para o matadouro, à beira de uma das praias do Córrego Rico, e depois de tudo, enfim, o Paracatuzinho, do outro lado do córrego. Eu não sabia que seria este o percurso, fui levado pela condução de meu companheiro, que apenas acorria, com obediência, a meu pedido. Eu queria a povoação mais mísera da cidade, a gente mais humilde que há. Até que chegamos: a pobreza estampada aos olhos, uns semblantes indigentes e curiosos a nos acompanhar, umas mulheres às portas das casas, pretas, mulatas, brancas, vestindo-se aos farrapos, homens ociosos, crianças brincando às ruas, cachorros dormitando ou coçando-se à beira das calçadas de terra.
Estêvão manteve-se em silêncio, como, de resto, sempre fica. Olhava-me inquisitivo, querendo estar certo de que era lá mesmo aonde eu queria chegar. Eu não sabia, confesso, mas vinha fortemente desconfiado de que era esse lugar mesmo que eu queria visitar, embora nada soubesse sobre ele.
Descemos do carro, eu não sabia como abordar as gentes, como chegar a uma afinidade com elas, como dizer de meus propósitos. Eram diferentes dos miseráveis do Rio de Janeiro, ainda que eu não soubesse em que medida. No entanto, sabíamos, de ambos os lados, que havia um fosso entre nós, como vala imensa que separa os homens por sua cor, por sua linhagem, por sua história. Pedi que Estêvão me ajudasse com o material, tiramos a lona, uns homens se aproximaram, perguntando se éramos gente do doutor Josias. Eu disse que não, queríamos apenas fazer uns retratos, sem incomodar ninguém, levava comigo umas amostras, como sempre faço em lugares estranhos, com gente que jamais viu um retrato na vida.
Não foram hostis. Foram dóceis, até. Ajudaram com o equipamento, sem saber que coisa era aquela, o que faziam, por que o faziam, apenas porque alguém determinou que o fizessem. Perguntei por um quarto escuro, ofereceram-me os fundos de uma casinha, lugar propício, julguei, o que me poupou a montagem da tenda. Um serviço a menos. Conversávamos, à medida que o trabalho andava. Preparei a maquinaria, os agentes químicos, busquei intimidade com as pessoas, a confiança nascendo do sorriso de estranhos. Tive a impressão de que uma coisa qualquer que eu ali determinasse, por absurda que fosse, por certo o fariam, a julgar por aquilo que eu era, o sinhô-moço branco e bem vestido, o desenho político do que dita ordens, do que reconhece, do que classifica, discrimina e delimita.
Fizemos os primeiros retratos, bastantes, belas imagens que já tenho comigo, Têvinho ajudando em tudo, pois que agora sabe manipular agentes, já é prático no ofício. Achava-me, por fim, satisfeito com o resultado, já quase guardava o maquinário, quando perguntei quem era o doutor Josias. “É o que prende a mulherada lá dentro do galpão”, alguém me respondeu. “Lá dentro, mulheres?”. Tinha certeza de que nada daquilo era da minha conta, mas, ao mesmo tempo, achei que deveria conhecer as mulheres do doutor Josias. Mandaram chamar um certo Valente, sujeito miúdo, que chegou com uma penca de chaves, depois olhou-me nos olhos, querendo saber por que eu queria entrar no galpão, se eu fazia parte das gentes do estado, se eu era homem da polícia. Eu disse que não queria entrar, mas podia entrar, se ele permitisse, já tinha as chaves na mão. Simulei indiferença, cheguei a fingir alheamento. “O senhor não vai levar nenhuma delas?”. “É claro que não, só uma olhada mesmo”.
Não havia me dado conta de um galpão muito grande construído ao fundo das casas, edificação tosca, mal-acabada. Valente não disse nem desdisse, deu-me as costas, depois voltou o olhar, balançou a cabeça sugerindo que o acompanhasse. Fomos, então, eu e Estêvão, ele receoso, jogando-me olhares, a insinuar que eu já tinha em mãos meus retratos, não era sensato que agora, à saída, provocasse discórdia. Fiz que não entendia suas súplicas. Caminhamos atrás de Valente, um ou outro nos acompanhando, outros ainda, a maioria, ficando para trás. E chegamos ao galpão.
O portão abriu-se a outro mundo. E vi: mulheres, muitas, dezenas talvez, jogadas à sorte e à sua morte, algumas presas em correntes, outras desprendidas, mas aprisionadas da mesma forma, algumas pretas e mulatas, outras brancas, muitas delas, quase todas, nuas por inteiro, outras de roupas minguadas, aos farrapos, todas muito magras e notoriamente enfermas, o cheiro nauseabundo que fez Estêvão retroceder. Quivi sospiri, pianti e alti guai risonavan per l’aere sanza stelle, per ch’io al cominciar ne lagrimai, eu agora recito o trágico Dante, mas não àquela hora sombria, o coração não compreendendo o que viam os olhos. Eram mulheres, meu Deus, por certo indigentes ou recolhidas à rua, não sei, talvez antigas ébrias e prostitutas, com patologias as mais distintas, algumas loucas conversando e gritando sozinhas, outras retraídas ao próprio corpo, caladas, olhando-nos com olhos inquisidores, querendo saber quem éramos, por que lá estávamos. Faziam suas necessidades aos cantos, alguma gente recolhia aquilo ao fim do dia, ou por vezes não recolhia. “Pegue a câmera, que eu busco as chapas”, eu disse a Estêvão. “Não está pensando que vai…”. “Vou sim, Têvinho, ainda bem que trouxe mais chapas”.
O que tenho aqui, meu caro Matteo, poderia ombrear-se com a Revue Photographique des Hôpitaux de Paris. As deformidades e monstruosidades que andam à solta aos olhos curiosos e modernos da Europa. Não são tantos retratos, que não tive tempo de fazer muitos, mas o bastante para o espetáculo da nossa penúria. Aqui do meu quarto, com a alma serenada, ponho-me a pensar nos critérios do doutor Josias, a quem não conheço, mas que a essa hora deve pensar, com honestidade, sobre o curso da ciência e da medicina e sobre a limpeza das nossas ruas, senão mesmo sobre a limpeza do sangue de nossa raça. Nosso tempo ainda fará bem mais do que isso.
Tenho comigo, e devo mostrar-te depois, quando aí estiver, a imagem das muitas patologias anatômicas ou emocionais que recolhi ao acaso: são mulheres a serviço de uma causa, sem que o saibam, uma delas com fenda nos lábios, outra sem braços, outra com queimadura imensa na face, uma criança com três pernas, duas crianças gêmeas ligadas uma ao corpo da outra, outras mulheres, muitas, doentes mentais, com olhares e corpos contorcidos, as mais agressivas delas acorrentadas, a quem Pinel certamente teria libertado, como fez em Bicêtre. Sim, meu caro, o teatro do sofrimento humano é indigesto. Diante dele, confesso humildemente a minha falta de vigor, a fragilidade fácil, cúmplice e decente que se acomoda uma vez mais à cadeira do espetáculo e pede convenientemente que as luzes se apaguem para o intervalo.
Luís André Nepomuceno nasceu em Patos de Minas, em 1968. É ficcionista e ensaísta. Publicou Antipalavra (contos, 2004), A lanterna mágica de Jeremias (romance, 2005) e Os anões (novela, 2009). Foi vencedor do Prêmio Guimarães Rosa, da Radio France Internationale (1998) e do Prêmio Luiz Vilela, da Fundação Cultural de Ituiutaba (1998). Professor do Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM), também é autor de A musa desnuda e o poeta tímido: o petrarquismo na Arcádia Brasileira (2002) e Petrarca e o Humanismo (2008). Os trechos selecionados pertencem ao romance Relicário de todas as coisas.