Fernando Gerheim
Rio de Janeiro – RJ
Parado no sinal, Dibi olhava distraído através do para-brisas. Os raios do sol transpassavam as folhas da amendoeira, cuja copa larga batia no terceiro andar do prédio da esquina. Em sua memória, aquela luz diáfana e lavada após a tempestade da noite anterior lembrava a iconografia da aparição divina numa enciclopédia da infância. As raízes daquela amendoeira rachavam a calçada. Enquanto esperava o sinal verde, sua fantasia fundia à paisagem os contornos imaginários de uma mulher que conhecera no Tinder, com quem planejava um encontro. A imagem com que Dibi se esforçava para excitar seu corpo inerte sentado no banco do motorista convivia com a luz etérea entre os galhos que boiava à flor de sua consciência. Dibi lembrou do quinto item da lista de supermercado que anotara no papel que esquecera em casa: brócolis. Resignado, pegou o celular e abriu o WhatsApp. A foto de perfil de se seu futuro match mostrava o rosto de uma mulher branca, de cabelos ruivos e olhos castanhos claros. Dibi enviou-lhe uma mensagem:
“Quero encontrar vc hoje à tarde.”
Soou a buzina atrás dele. O condutor distraído engrenou a primeira e avançou pelas ruas arborizadas que coalhavam o asfalto com aquela luz mágica da manhã, avidamente profanada pela sua imaginação erótica. Alguns quarteirões adiante parou em outro sinal. Pegou o celular de novo e checou o aplicativo. Ela havia respondido:
“Não dá. Tenho um compromisso.”
Decepcionado, Dibi fitou impaciente a traseira do carro em frente. A luz matinal não lhe inspirava mais nenhuma hagiografia sublime. O sinal abriu. Ele acelerou, raivoso. Em sua cabeça repetia-se a frase: “Não dá. Tenho um compromisso.”
Guiou seu carrinho sem consolo entre as gôndolas do supermercado, recolhendo os itens previstos. Tentou passar algumas vezes o código de barras pelo leitor ótico do caixa de autoatendimento antes de soar o beep. Espiou furtivamente a mulher no caixa automático ao lado. De volta em casa, guardava as compras no armário de mantimentos quando Mia entrou na cozinha e disse para ele dar banho nas crianças que ela ia preparar o almoço. Dibi obedeceu. Depois de desembalar e temperar a comida, sempre vigiando as panelas, ela enviou uma mensagem com o mesmo teor que seu marido enviara antes:
“Oiiie. Vamos encontrar hoje?”
A resposta foi positiva:
“Sim!! Doido pra te ver!”
“Que horas?”
“16hs.”
Sentado no tampo da privada esperando o filho terminar o banho, Dibi deslizava o dedo pela tela passando rapidamente imagens de outras mulheres dentro da faixa etária previamente selecionada no Tinder, entre 25 e 35 anos. Ao contrário de Mia, que dava o match na cozinha, ele não conseguia arrumar nenhuma opção que considerasse atrativa o suficiente para substituir Patrícia. Além do mais, o que ele não sabia e pioraria muito sua situação era que o outro compromisso de Patrícia era com a mesma pessoa para quem sua mulher enviara mensagem. O diálogo que ambas haviam travado pelo chat era o mesmo e a resposta que havia aparecido nas telas das duas em tempo real era igual:
“Sim!! Doido pra te ver!”
“Que horas?”
“16hs.”
O fato de que elas encontrariam a mesma pessoa no mesmo horário significava que essa pessoa era um homem duplo? Ou mais ainda: uma pessoa onipresente?
Sim, a não ser que Patrícia e Mia tivessem marcado seus respectivos encontros no mesmo lugar – o que não acontecera -, a pessoa com quem elas encontrariam estaria em dois lugares ao mesmo tempo. Essa pessoa tinha, portanto, o dom da ubiquidade. O leitor perspicaz já deve ter adivinhado quem ele era.
O autor das mensagens idênticas marcando encontro no mesmo horário com mulheres diferentes era Jama7. O que permanece sem explicação é como ele poderia estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. A razão dessa proeza duvidosa não será revelada por enquanto. É o ponto cego dessa narrativa. Isso não precisa perturbar sua leitura, assim como parece ser – pelo menos até aqui – algo natural para as personagens dessa história.
Mia entrou na sala com uma alegria que surpreendeu Dibi. Tascou-lhe um beijo de passagem, pegou pela mão o filho que brincava com um dinossauro miniatura na mesa de centro, ergueu-o no colo e estalou um beijo em sua bochecha, rodopiando com ele pelo corredor.
“Por quê você está tão feliz, mãe?”
“Ah!” Ela deixou um suspiro escapar. Beijou Nô mais demoradamente antes de colocá-lo de volta no chão.
“Mamãe vai sair.”
“Com o papai?”
Ela pensou um segundo.
“Sim.” Sorriu, maliciosa.
Nô olhou para ela amuado. “Eu também quero ir.”
“A Dulce vem te dar o jantar e depois você pode brincar mais um pouquinho.”
A babá estava no quarto guardando uma pilha de roupa passada e dobrada no armário. Mia deixou o filho com ela, voltando para a sala.
Dibi rolava a tela do celular, sentado no sofá.
Ele ergueu os olhos do pequeno ecrã. “Aonde você vai?”
“Encontrar a Iolanda. Prometi pra ela uma… consultoria extra-profissional. Coisas de mulher.” Curvou-se e beijou o marido na boca, saindo pela porta da sala altiva como um alce. No hall, apertou ansiosa o botão do elevador. Atravessou a portaria e saiu do prédio leve e fagueira.
Mia vestia uma malha preta colada no corpo bem-feito, blusa de manga bufante, sandália baixa com tiras que subiam pelo tornozelo, e levava uma bolsa de couro de argolas douradas pendurada no ombro. Três homens de pé na porta de um botequim acompanharam ela passar com olhar de cobiça. Operários em andaimes pararam de trabalhar para admirá-la e um deles chegou a fazer um som vulgar de sucção. Mia era o tipo de mulher que os homens viravam o pescoço na rua para olhar e ficavam acompanhando magnetizados depois que ela passava, contabilizando os olhares e seguindo adiante. Dobrou a esquina e entrou numa loja de comida, fazendo sinal para a atendente, que pegava um salgadinho dentro da vitrine térmica para entregar a outro freguês. A moça entrou pela porta da cozinha e reapareceu instantes depois.
“Você quer um refrigerante, né?” Piscou o olho.
“É.”
Ela entregou junto com a latinha de Coca-Cola um pedaço de papel dobrado. Mia abriu a tampinha com o som característico, deu um gole no canudinho e saiu pela rua com a latinha na mão. Foi tomando a bebida enquanto caminhava. Aquele pequeno gesto aumentou sua sensação pueril de liberdade, antecipando a satisfação que a aguardava. Quando o refrigerante acabou, jogou a latinha vazia na primeira lata de lixo da rua. Fez sinal para um táxi. Entrou, sentando no banco de trás. As janelas fechadas e o ar-condicionado vedavam os sons da rua. Mia desdobrou o papel e leu:
Querida Mia,
te espero na estação de metrô C… saída A… com um saquinho de pipoca. De lá voaremos para os sonhos mais secretos, com o coração estourando como milho Yok.
Beijos,
Jama7
-x-
As pacientes almoçavam em mesas compridas no refeitório de teto baixo, depois de terem sido servidas por mulheres de touca, luvas de plástico e avental, que serviam a comida das panelas nos compartimentos das bandejas de alumínio. As internas comiam com o rosto afundado no alimento, sem conversarem entre elas. Aja cortava a carne com uma faca descartável de plástico, observando pensativa o talher que movia para frente e para trás, partindo o bife escuro e não muito macio.
No caminho de volta para o alojamento, fez um pequeno desvio, aproximando-se do galpão que servia de depósito de material de limpeza. Depois de uma rápida olhada para os lados para se certificar de que não estava sendo observada, empurrou furtivamente a porta entreaberta, enfiando o rosto pela fresta. Estava escuro lá dentro. Dois olhos brilharam no breu. Ela entrou e foi andando na direção deles. Agachou-se, estendeu o braço e sentiu a língua áspera como lixa na palma da mão. Acariciou o dorso do gato, que pressionou a cabeça contra o seu braço e ronronou. A luz se acendeu de repente. De um canto do galpão, uma mulher baixa e atarracada, de uniforme de faxina, olhava para ela segurando o cabo de vassoura.
“O que você está fazendo aqui?”
“Da minha Janela eu vi esse gatinho… achei ele tão bonitinho… entrei pra procurar ele…”
“Sou eu que dou comida pra ele.” Ela apontou para duas vasilhas num canto. “É só o que ele quer da gente: comida.”
“E o que ele gosta de comer?”
Os olhos da mulher viam sem que se visse dentro deles, de tão cerrados, parecendo duas rugas a mais no seu rosto encarquilhado. “Alta culinária. Os pratos
de carne branca são seus preferidos. Por quê está tão interessada? “
“Eu gosto muito de gatos.” Aja quis ser amigável. “Acho que você também.”
“Você não é aquela menina…” Sua boca, nariz e olhos miúdos se fundiam com as rugas e seu tom de voz, mesmo ela falando baixo, era ranheta. “Estou te reconhecendo. Você é a menina que veio da Ésse É, a que não quis ir com o Jama7.”
Seu cérebro sofreu uma súbita descarga elétrica, como se aquelas palavras conectassem fios soltos, liberando uma grande carga de energia represada e acelerando seu pensamento. Aja sentiu uma emoção que não conseguiu controlar. Tão surpresa quanto a faxineira, que olhava para ela imóvel, agachou-se no chão ao lado do gato, perto do tanque, entre baldes e detergentes, e, sem mais nem menos, começou a chorar convulsivamente.
“Pobre menina… Você está muito nervosa.”
Aja enxugou os olhos, tentando se conter e encarar o rosto amarfanhado da mulher.
A faxineira virou um dos baldes de cabeça para baixo e sentou nele, postando-se diante dela.
“Se você quiser eu te dou esse gato.”
A menina olhou-a interessada.
“Mas em troca quero que você me conte algumas coisas.”
“O quê?”
Pela primeira vez, Aja conseguiu entrever os olhos da faxineira.
“Como ele é? Me conte como ele é, me descreva tudo.”
O cérebro de Aja trabalhava febrilmente. Ela havia entendido bem. “E como eu vou poder levar o gato pro meu quarto?”
” Jaspe vai pra onde quer. Ele circula livremente pela Ésse É, mas gosta de ficar mais aqui ou no refeitório. Quem sabe agora que ele arrumou uma amiguinha não se interesse mais por outros aposentos?”
Aja respondeu com um ligeiro retardo. “Tomara.”
“Eu deixo você encontrar com o Jaspe aqui pra ele ir se acostumando com você.”
“Obrigado. Combinado então. Tenho que voltar pro alojamento. No próximo passeio eu venho aqui e te conto como foi meu encontro com o Jama7.”
A faxineira novamente arregalou os olhos.
Aja completou: “Você vai se sentir como se tivesse conhecido ele pessoalmente.”
A faxineira tirou do bolso um pequeno pedaço de papelão com uma linha enrolada, na qual estava presa uma agulha, e o entregou para Aja.
“Um presentinho. É um adiantamento.”
“Um mini-kit de costura!” Aja alegrou-se. “Obrigada!” Ergueu-se e saiu apressada do galpão, deixando a faxineira piscando todas as rugas de excitação.
Mia emergiu da boca do metrô numa calçada cruzada nos dois sentidos por pedestres apressados, sem conseguir enxergar muito além dos fluxos da multidão. Esticou o pescoço e avistou o pipoqueiro na calçada do outro lado da rua. Abriu caminho com dificuldade no meio da massa, recebendo trombadas, às vezes sendo desequilibrada por algum transeunte mais robusto, incapaz de traçar uma linha reta. “Com um saquinho de pipoca”, Jama7 havia dito. “Estourando como milho Yok.” Esgueirou-se pelo estreito espaço entre os para-choques traseiros e dianteiros dos carros engarrafados e alcançou o meio-fio.
Quando chegou ao lado da carrocinha, parou e ficou à procura. Havia um homem ao lado do pipoqueiro, de costas. Desconfiou que era ele. Tocou seu ombro. O homem se virou. Ao vê-la, ficou surpreso. Era apenas um freguês. Foi então que Mia se deu conta de que Jama7 era o próprio pipoqueiro. Olhou em sua direção, sendo correspondida. Só agora reconhecia o rosto familiar por trás daquele bonzinho. Sorriu, feliz. Num impulso, ele quis beijá-la, mas Mia recuou. “Aqui não.” Ela fez sinal para ele segui-la. Jama7 abandonou a carrocinha e foi atrás dela. Entraram por uma rua transversal menos movimentada. Um quarteirão adiante havia uma pracinha. Atravessaram os brinquedos, passando por trepa-trepa, balanços, gangorras e escorregas. Contornaram o bambuzal e pararam sob uma árvore com as raízes aparentes. Mia segurou o rosto de Jama7, apertou sua face nas mãos e beijou sua boca. Jama7 adorava quando uma amante traía paixão tomando a iniciativa daquela maneira. Ela fazia uma pressão gostosa com a língua.
“Um helicóptero está esperando a gente no teto daquele Centro Empresarial”, disse apontando um prédio de vidro que refletia o entorno.
Vista do alto, a cidade era um paliteiro ofuscante, com os raios de sol que trespassavam nuvens pudicas refletidos em fachadas de vidro. Eles sobrevoaram a urbe, que parecia uma inóspita erupção de espigas de vidro, até a paisagem ficar mais bucólica e enfim aterrissaram no centro de um alvo pintado no terraço de um prédio à beira-mar. Desceram para um quarto com janelas debruçadas sobre o liso lençol azul-turquesa do Atlântico, de onde podiam assistir a eterna batalha das ondas contra as rochas. Na cama travaram eles próprios sua guerra de prazer, como se uma onda gigante derramasse o mar dentro de seus corpos, sendo envolvidos pelo gozo como o rochedo recoberto pela massa aquática.
“Eu não tomo anticoncepcional.” Mia disse. “Meu marido usa camisinha.” Encarou-o preocupada.
Jama7 não soube o que dizer.
“Eu tô tensa e você nem aí.”
“Por quê se preocupar? Podemos ter outro filho.”
Ela olhou-o com raiva. “E se for menina? Eu não quero que minha filha faça parte disso.”
Ele desconversou: “E nosso filho, como está?”
Ela voltou a encará-lo zangada. “Eu não me conformo que você mal conhece ele.” Ficou agressiva. “E se eu contar pro meu marido? O que você vai fazer?”
“O problema é seu. Você será mais uma infiel no mundo. E uma amante a menos pra mim.”
“Canalha!” Ela tentou dar uma bofetada em seu rosto. Jama7 segurou seu punho, interceptando o golpe. Ela socou seu peito, mas ele até gostou de seus frágeis golpes. “Calhorda! Sórdido!” Gritou com a voz estridente: “Eu tenho nojo de você!”
“Chega!” Jama7 levantou-se, dando alguns passos até parar nu no meio do quarto. Olhou para ela, que o encarou de volta, desafiadora. Seu pênis estava flácido. Aos poucos, só com o olhar, Mia fez ele ficar duro de novo. Jama7 voltou para a cama. Eleita para ocupar um dos 7 andares do seu prédio à beira do oceano, Mia ficava excitada com seu poder sobre aquele que detinha o poder e o prazer do mundo.
Fernando Gerheim publicou o livro de poemas “Ínterim” (2024, 7Letras), o romance “Signofobia” (2021, 7Letras, 2a edição; 2012, Multifoco, 1a edição), o livro de contos “Infinitômetros” (2018, 7Letras) e o ensaio “Linguagens Inventadas – palavra imagem objeto: formas de contágio” (2008, Ed. Zahar/Cia das Letras). Realizou os filmes curta-metragens “Salomé” (2011) e “Urubucamelô” (2002). É professor da UFRJ – ECO e pesquisador vinculado aos programas de pós-graduação PPGAC – ECO e PPGAV – EBA.
Adorei o texto Fernando, vice é muito talentoso. Aguardo outros. Parabéns 👏
Obrigado, Monica! Fico feliz com a sua leitura. Sairá ainda um terceiro trecho inicial aqui no Especiaria.
Espero conseguir uma editora para publicar o livro na íntegra ainda esse ano.