Eduardo Guerreiro Losso
Rio de Janeiro – RJ
Se você fizer a seguinte pergunta: “existe um compositor erudito indígena?”, trata-se de uma pergunta estranha? É pedir demais para um indígena dominar um ofício tão “ocidental”? Se existe, é uma obra relevante, dentro de nossos critérios estéticos sempre muito suspeitos, mas, de qualquer forma, operantes?
Quando comecei a ouvir Louis Wayne Ballard (1931 – 2007), considerado o primeiro compositor erudito nativo dos EUA, esse tipo de questão me perturbava.
Sou um curioso nato e ouvir um compositor nativo erudito desperta minha busca auditiva. Mas não entrei nessa aventura com grandes expectativas. Afinal, se tal obra fosse realmente boa, provavelmente já teria conhecido antes e ouviria seu nome circular, assim eu ponderava.
Qual não foi meu espanto em me deparar com Devil’s Promenade (1973) e Fantasy Aborigine No. 3 “Kokopelli” (1977). A linguagem está próxima a de um de seus professores, Darius Milhaud, e também não muito distante de nosso Villa Lobos. Ele estudou a obra de Bartók mas não necessariamente vai na sua direção.
Impressiona a mobilização de seções complexas, a liberdade imaginativa de cores e matizes e, muito especialmente, a originalíssima força rítmica.
Ballard foi educado numa instituição especial para crianças indígenas de Oklahoma, a Seneca Indian Training School, que praticava uma espécie de lavagem cerebral. Mas ele era persistente em falar sua língua nativa Quapaw, bem como aprender e cultivar rituais e danças. Foi duramente reprimido, tendo de pagar com confinamentos e outras punições.
Quando se graduou em teoria musical na Northeastern Oklahoma A&M, em 1954 e, depois, obteve aulas com diferentes compositores renomados, procurou desenvolver um caminho que pudesse valorizar seu saber nativo dentro da composição modernista.
Por isso ele faz uso de percussões Quapaw em suas peças e todo seu tratamento rítmico as coloca em primeiro plano.
Se o leitor se perguntar onde se acha alguma gravação dessa obra, ela ficou parcialmente esquecida por muito tempo. Se não fosse pelo esforço da neta e por um concerto recente da Fort Smith Symphony, uma orquestra especializada em compositores americanos, provavelmente adormeceria no limbo.
Mas foi o sucesso de um concerto em abril de 2023 que deu impulso para o lançamento de um CD só com suas obras, disponível agora em novembro.
É simplesmente uma das peças mais originais que já escutei dentro de certo estilo neoromântico do século XX.
E a resposta para minhas questões acima não poderia ter sido a mais surpreendente possível: no país mais rico do planeta, o primeiro compositor erudito nativo seu produziu obras de grande qualidade, mas até 2023 não tinha sido gravado um CD só com peças suas com distribuição e divulgação razoável.
Nós temos Villa Lobos, Guerra Peixe, Edino Krieger e muitos outros, bem como uma tradição de MPB robusta. Mas possuímos compositores eruditos indígenas? Fico pensando que lição devemos tirar desse episódio.
Links para pesquisa:
https://en.wikipedia.org/wiki/Louis_W._Ballard
https://www.nwaonline.com/news/2023/apr/16/fort-smith-symphony-performs-records-music-of/
Eduardo Gurreiro B. Losso é escritor e professor de teoria literária do PPG em Ciência da Literatura da UFRJ e colunista da revista CULT. linktr.ee/EduardoLosso