Laís Ararauna
Recife – PE
AS PEDRAS DA LUA
Todo oito de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, minha mãe sobe o morro, acende uma vela para a padroeira e nos traz fitinhas coloridas. Da última vez, trouxe uma que levo no braço direito. No esquerdo, desde agosto passado, eu tinha uma pulseira das pedras da lua. Compramos eu e Cela na praia de Antunes, de uma passante que vendia artesanato pela areia quente. Brilha na lua cheia, nos disse. Foi um agosto atroz. Havia levado para o hotel Shiki e Buson, que lia no café da manhã, antes de ir ao mar. E Franny e Zooey, que reli e não gostei como da primeira vez. O clubinho Salinger, pensei na ocasião, o clubinho dos cools e desajustados. Não posso entrar nesse clube, refleti. Só preciso sobreviver, pensava, entre a cama e as águas verdes e azuis. Entre a liberdade e a linguagem, tive que ficar na história. Abandonei os poemas e só lia romances.
Flaubert, em carta a Louise Colet, disse, o que quero escrever é um livro sobre nada. Um livro que se escrevesse sem a voz do autor, no mais puro estilo. Podemos ficar com uma voz ou um estilo sobre o nada. Ou mesmo nos deixar de fora e falar sobre as coisas mais diferentes precipitando-se sobre o poema, como Ashberry falou à Paris Review. Ou pensar que não estamos aqui, e sim uma polifonia interior. Mas é você mesmo quem os escreve, disse o analista de John. Agora não sei o que faço. Se conto uma anedota ou deixo que esta mão escreva sem regra, só no desvio. Este poema é um desvio. À noite Cela tomava mitarzapina e eu via o US Open com a tevê no mudo. Assim os dias sem trabalho levaram às noites. E sobre a noite se ergueu o dia.
Na semana passada fui ao tênis e esqueci a pulseira das pedras da lua em uma cadeira na quadra. Só lembrei no dia seguinte. Ontem mexendo nos meus bolsos encontrei um barbante verde escuro. Tinha servido a uma embalagem de biju com coco queimado e sem lixo por perto enfiei no meu short. Quando vi o barbante, amarrei-o no punho esquerdo. Não quero esquecer aquele agosto atroz, nem a passante, nem as pedras da lua, que terminaram sem nunca brilhar. Ou talvez tenham sempre brilhado em sua chama nua. Suficiente para a provisão dos meus dias. Provisões mínimas e nenhuma previsão, assim foi.
As coisas que perdemos são insubstituíveis. Mas até com isto nos acostumamos. A gente se acostuma com tudo, era o que repetia minha colega de quarto do cafofo na rua Evangelista, em Sevilha. Terminou que me entupi de remédios e lugares-comuns. Tudo passa. O mundo dá voltas. A gente se acostuma com tudo. Até com nossas perdas mais fundamentais.
§
O CORAÇÃO É UM ARQUEÓLOGO SOLITÁRIO
Eu estava perto do armário da sala quando li, vocês souberam que Dona Neide faleceu? Primeiro tive que pensar quem era Dona Neide. Painho parece bem, continuava a mensagem. Entendi que minha tia-avó havia morrido. Ela não gostava de que a chamássemos Dona Neide. Eu sou sua tia, ela disse uma vez. Meu pai também disse a mesma coisa. Eu saí de casa e caminhei com as mãos nas costas. Sobre mim o céu estava limpo e estrelado. Em pouco tempo a lua se ergueria sobre as nuvens no horizonte. A primeira lembrança que tive foi de umas férias na praia do Cupe. Ela e minha avó tinham ido passar a semana conosco. Tia Neide serrava as unhas perto do mar. Depois, quando voltei para casa, G. me recordou algo que havia esquecido. Aqueles acontecimentos de que Freud fala, tão dolorosos, que preferimos ou temos de esquecer.
Estávamos na porta da delegacia de Santo Amaro. Ricardo, sua voz tremia. Tia Neide, meu pai respondeu, você vai retirar a queixa porque seu sobrinho está preso no Cotel. Eu estava lá. Depois estive no fórum e no tribunal. Na ocasião, pensei, havia feito algo pela família do meu pai. Tinham se passado seis ou sete anos. A última vez que vi minha tia, a última vez que escutei a sua voz. Ricardo. Na época, meu primo morava com ela e ela parecia tão assustada. Agora tudo parecia um erro. Um erro não ter me interessado mais, não ter perguntado mais. Não ter ido ao seu pequeno apartamento naquele prédio-caixão em alguma rua da Madalena. Ou da Torre.
Quando minha avó morreu, não chorei. Fiquei tão assustada por não ter chorado. E agora tudo o que tinha feito, tudo o que eu poderia ter feito, retornava. O eterno retorno do reprimido, pensei. Mas tinha que resolver uma questão prática. Se prestaria minha última homenagem indo ao sepultamento. Você não pode reescrever a história, disse G. Se não estivesse na granja, iria com meu pai, respondi. À noite, nosso coração é um arqueólogo solitário. Tudo o que poderíamos ser, tudo o que poderíamos ter sido, é escavado. Tudo retorna eternamente. Milosz escreveu:
Um dia tão feliz
(…)
Não havia nada no mundo que eu quisesse ter.
(…)
Qualquer mal que eu tenha sofrido, esqueci.
Não tinha vergonha de pensar que já fui quem sou.
Mas agora eu me dizia, tudo o que eu tenha feito, tudo o que eu não tenha feito, não será esquecido. Esta vai ser a minha pedra. Esta vai ser a minha herança. Que vou empurrar infinitamente no vale esquecido da memória. Você não pode reescrever a história, disse G. Mas é isso que o nosso coração faz. Golpeia. Como um barco contra a corrente, como as ondas quebrando contra a praia. Ou alguém revolvendo as ruínas imaginárias de uma Atlântida para sempre perdida.
§
COMO APANHAR LAGOSTAS
Se você quer mesmo saber, volto uma década atrás. Eu tinha algumas certezas. Isso significava que era jovem o suficiente para me sentir bem e mal quase ao mesmo tempo e não me preocupar demais. A vida, percebi muito depois, são sombras e luzes trocando de lugar continuamente. Mas naquele tempo eu não sabia nada. Achava que tinha todo o tempo do mundo, que eu podia livrar meu coração de mergulhar no tempo, isto é, na mudança. Podia dizer, por exemplo, talvez seja fácil deixar-se adoecer nessa condição. Eu não me referia a mim claro. Palavras como fraqueza e vontade eram pronunciadas ordinariamente. No ano passado, A. me disse, você não é fraca, só está frágil. A insustentável fragilidade de ser, pensei na ocasião. Mas não falei nada. Eu não ia lá para falar nada. Mas aprendi a dizer compaixão e como eu poderia saber. Como eu poderia saber que dói tanto, era o que eu murmurava ali.
Quando chegamos em Japaratinga, era setembro, fazia nublado e chovia um pouco. Eu e Cela pensamos a mesma coisa vendo o mar. Aqui é meio lúgubre, não tem ninguém. Um pouco antes, Cela havia dito, vou escrever a sociologia das pousadas brasileiras. Mas agora estava vazio. Terminamos ficando por um desejo de nos distanciar de tudo. Como se deslocando-nos um pouco, saíssemos do presente em direção a um futuro menos sombrio. Ou mais radiante, não sei. Eu pensava naquele poema de Raymond Carver em que ele dirige bêbado com o irmão e alguma coisa deve acontecer. Acho que ele diz, faz seis meses e não escrevi nenhum poema. Já eu não havia rascunhado nenhum verso havia mais de um ano. Eu cantarolava aquela canção de Billy Joel. Tudo bem perder um dia ou dois. Mas eu me dizia, tudo bem perder um ano ou dois. Isso significa que eu não era mais jovem?, era o que me perguntava então.
Nesse começo de setembro era lua nova e a maré, ao meio-dia, ficava muito baixa. Dava para andar quilômetros dentro do mar. No banco de areia havia um barco chamado perdido. Subíamos nele, olhávamos o horizonte e os coqueiros e esperávamos a água retornar. À noite víamos duas ou três jangadas perto dos corais com uma lanterna no meio da escuridão. O facho de luz iluminava o fundo do mar e os olhos das lagostas, que eram capturadas com uma pequena rede ou mesmo com as mãos. Em Creta aos dezesseis anos, Werner Herzorg trabalhou algumas noites em um barco de pesca. Com uma lua artificial, no meio do oceano e do céu silencioso, capturava lulas e peixes cintilantes. Ele escreveu algo do tipo, abraçado por um cosmos magnífico, sem palavras, de repente me reencontrei a mim mesmo. Mas à noite eu só tinha compaixão pelas lagostas, pelos peixes e por tudo.
Demoraram muitos meses para que eu mesma me reencontrasse. Cela voltou ao Rio e no fim do ano retornou trazendo Tereza sem saber. Agora estou sozinha novamente e me preocupo com coisas diversas. Não como e onde quebrar o verso, com quantas coisas interessantes. Ao menos duas, disse Ashberry. Mas como deixar que na escuridão mais profunda da noite ou do nosso coração, porque nosso coração é muitas vezes uma presa dentro da noite, como deixar que um peixe cintile na frase sem ser apanhado. Como deixar que um peixe ou uma palavra, ambos livres, iluminem não a vastidão da noite. Mas ao menos um pouco do nosso caminho. Um pouco do nosso coração.
Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife (PE). É autora de Juventude (2018), livro ganhador do Prêmio Maraã de Poesia de 2017, e Nós só compreendemos muito depois (2021).