Os contornos do dia se desmancham — e pesam
os olhos da mulher no espelho.
Onde ela esteve enquanto tudo ruía?
Desaparece a cidade sob os panos opacos
da chuva fina.
Finge que é moça, ensaia uma canção
e acende o fogo da lamparina azul — num rito
de passagem.
§
No eremitério em que habito
por livre e espontânea vontade do destino
acendo hoje
uma pequena lamparina
em honra
à virgem das candeias e seu menino.
§
E se me fosse dado o toque de Midas
(oh, Dionísio)
todo poema então seria
puro dourado.
Mas foi me dado o barro e não o sopro
a pedra — e as mãos vazias.
§
Cante-se a hora/instante que depois não existe.
O barulho dos carros na estrada que da janela ainda se vê.
Cante-se o pássaro pardo sobre o telhado oriental.
As maritacas enlouquecidas que partirão depois das chuvas.
Cante-se o vento sempre o vento
companheiro que o tempo não desertou.
Cante-se a voz aguda da mulher da casa em frente
com dedos amarelos de tragar a vida no vão dos dentes.
Ombros curvados de engolir mortes que a vida trás.
Cante-se o cão que nos acolhe na rua vira-latas somos nós.
E o que dizer do piolho de pombos no monitor?
Cante-se o pólen da flor de goiaba que fustiga os olhos
até o verão. Cante-se enfim o mormaço que não tem fim.
Cante-se o fim. O fim. Até recomeçar.
§
Todos os passos
que não dei
ficaram marcados
no chão
que não havia.
Nydia Bonetti, 1958, engenheira civil. Escrevo para não enlouquecer — mais. Livros publicados: SUMI-Ê (2013), Editora Patuá; De Barro e Pedra (2017), Editora Urutau; Antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos) Coleção Poesia Viva/CCSP; Minimus Cantus, Projeto Instante Estante/Castelinho Edições; Tem poemas publicados na Revista Zunái, Mallarmargens, Germina, Sepé e outras.