POESIA

Poemas de Rose Angelina Baptista

Imagem: Mark Catesby, 1731.

ATENÇÃO UNIFICADA

Damos nome ao sofrimento,
e lhe oferecemos casa, comida,
e até carinho…
servimos a ele chá, ou café,
vemos ele envelhecer conosco.
Mas chega o dia
em que até essa dor tão familiar,
como um peso nas costas,
um aperto que tira o fôlego,
também precisa partir.
Meu bem,
que nós curvados não só pela idade,
mas pelo peso de respirar
a inquietação do que não somos…
alcancemos a quietude,
onde a atenção não segura nada,
e tudo abraça.
Onde a Graça, como um ouroboros
afetivo, se enrola com seus anéis
e arrocha o coração aflito,
e do ouroboros
sai, não uma luz,
mas uma lâmina de silêncio,
cortando
a última ferida imaginada.

§

UM AMOR DE JOÃO-DE-BARRO

No fim do inverno,
quando tudo parece inóspito
e a paineira já caducou as folhas,
eles vêm construir sua casa nos galhos
que já se livraram dos velhos espinhos.

Depois da chuva,
o casal de João-de-Barro
divide o fardo no eito,
voando raso sobre o laranjal,
pelas cercas de carcaças de cabeças de gado
fincadas nos mourões, estacas,
em meio ao pasto cravado de cupinzal.

Quem casa quer casa!
Os forneiros da terra fazem seu lar,
igual ao forno de barro de minha avó
assando pão no quintal da casa.

Iglu lamacento, o telhado em domo de cebola,
o portal, arco aberto pro nascente.

O sol da primavera faz o barro virar pedra.
Então, os altivos passarinhos erguem aos céus suas asas
e flamulam suas plumeiras. Seu trino alto ressoa como
o riso de outro mundo mais cheio de graça.

A lua crescente brota num ramo da paineira rosa,
um pingente ao meio, tece ao ninho um um halo
na tarde de veraneio. Seus corações aninhados
prosperando no seu melhor estado.

Sua casa um pisca-pisca de pirilampos no barro
Aglutinados. Há ecos de cantigas de risos e surpresas
que tu já adivinhastes.

§

MUNDO MARIANO E BRUMAS

Vivi num mundo Mariano, de tábuas retas de pinho
ao machado, cinza-prateado pelo sol e tempestade.
Coberto de telha vã, pé-direito alto, sem forro, rendilhado
de picumã. Guardado por paliçado de balaústres de pau picado,
portão tramelado. Alpendre chuleado de flor-de-cera
rosa pálido, quase sem fôlego, penduradas pelos talos.
Canteiros de caládios cheirando agridoce
esterco verde e quente, derramado da charrete
do leiteiro no ofício da manhã. Pintainhos trincando
quireras com seus ensolarados pios. O milharal
ruivo envolto num xaile brisa. Taturanas marrons
em pelos de fogo deixando hirtos os amantes de goiabas.

Na hora do angelus a viúva debruçava no rádio de madeira
seu copo d’água como se debruçasse o espírito
ilhéu. Para ganhar coragem de intimidar a tentação
de sucumbir.

§

PENA DE ESCREVER
À memória de meu Pai

Essa pena foi alentada
pelo sol, descortinando matas,
arando continentes apartados
em ilhas, em mundos de roçados
de algodão e cana encafezados.
Malhando dez alqueires
de feijão à mão por mês,
enleirando, enfardando
palhas e talos de milho sob um sol
que nunca favoreceu a sombra.
Essa pena nasceu da cimitarra
duma foice de colheita,
duma enxada rasgando a terra roxa
sob um clarão cerzindo o céu.
Essa pena foi moldada no facão
que meu pai ergueu para proteger
nossa casa de taipa, as paredes
sem gretas às picadas dos barbeiros.

Minha pena tem a voz
do teto duma casa
feito de folhas de palmeira,
que só fala quando o tempo é veraneio.

Rose Angelina Baptista é uma escritora luso-americana radicada na Flórida. Seus poemas foram publicados em várias revistas literárias: The Wallace Stevens Journal, Lit-Break, The Westchester Review, Gávea-Brown e outras antologias poéticas. Seu Chapbook de eco poemas inéditos “Rio D’Ais : Poems of the Indian River Lagoon” foi premiado com o gold Royal Palm Literary Award pela Florida Writers Association em 2003.

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