Iko Flores
Brasília – DF
Quando meu criador abre a gaveta onde moro confortavelmente há anos, já sei que é para continuar acrescentando alguma coisa às minhas páginas, modificar algo, podar-me, enfeitar-me. Com um carinho especial, dedica horas ao meu trato e à minha criação. Devo tudo a ele! Do meu criador, sou criado.
Mas como sofro… Nesta gaveta, divido o espaço com outras figuras que nutrem tanto desprezo por mim quanto eu por elas. Essas cartas de amor escondidas, por exemplo, tão vulgares! Coquetes, mal disfarçam na sua timidez a vontade lasciva e carnal de encontrarem com outras cartas e realizarem seus desejos. E o que dizer dessas lembrancinhas infantis? Fotos amareladas, brinquedos quebrados, ingressos de cinema pré-históricos e inúteis: todos colocados ao meu lado nesta gaveta, apenas para infernizar minha vida. Sentem-se as estrelas da história do meu querido criador. Nutrem um ciúme terrível do tempo que ele me dedica.
Raramente essas lembrancinhas são acariciadas como eu, que detenho, sem dúvida nenhuma, a primazia: são meus os passeios mais elegantes pela casa, o direito de frequentar a cozinha, a sala, a cama! E de sair para fora de casa, sendo carregado em pastas galantes, como um tesouro. Nos cafés, todos ao redor percebem, na atenção que meu criador me dedica, a presença de um artista realizando sua obra. Por obra, entenda-se, evidentemente, eu: o manuscrito.
É por isso – por inveja! – que ninguém nesta gaveta me tolera. Os piores aqui são os documentos. A carteira de identidade tem um complexo de superioridade enorme, por se sentir minha dona, como se fosse meu criador! Quer mandar em mim, e eu não aceito. O documento de reservista, com sua postura militar, é um verdadeiro general, mas coitado: meu amo mal presta atenção nele. Graças aos céus, a carteira de motorista está sempre viajando e nunca para aqui. Essa é a pior de todas, acreditem, se sente indispensável. Coitada!
A verdade é que ninguém suporta essa minha postura de artista, de que gozo com total exclusividade nesta gaveta. Sentem inveja, sim.
Daqui não saio! Arrepio-me todo quando lembro de quando meu amo me tirou daqui e me entregou a uma mulher, pedindo-a que me lesse, que me escrutinasse (assim, com essas palavras), que me folheasse e deflorasse! Senti-me usado, mas aguentei a humilhação, o melhor que pude. Quando retornei à gaveta, vi como me sinto em casa, e percebi que não quero sair daqui nunca, em toda minha existência. Sei que meu amo deseja que eu viaje, que me multiplique, e passe a viver nas mãos de outras milhares de pessoas! Aí não serei mais só dele, e é isso o que mais temo, pois tenho uma vida confortável nesta gaveta, apesar das más companhias. Quem precisa delas, se os momentos preciosos que passo com meu amo compensam tudo? Exibo com orgulho cada uma das manchas de café que tenho em minhas páginas, como medalhas! Cada umas das rasuras são diplomas assinados por ele, cada uma das emendas, uma honraria de Estado.
Tenho medo, mais do que tudo no mundo – mais do que do fogo, de roubos, do esquecimento – que um dia meu amo faça desaparecer o teto que tenho nesta gaveta, abrindo-a para sempre, jogando-me no mundo! Não estou preparado para isso, sinto que não vou resistir a todas as críticas, a todas as censuras, ao perfeccionismo dos editores.
Não! Aqui nesta gaveta sou feliz, não quero virar livro. Quero estar com meu amo para sempre, sendo eternamente do jeito que gosto de ser: apenas um manuscrito.
Iko Flores é professor, escritor e doutor em Literatura Brasileira pela UnB. Em 2012, ganhou Menção Honrosa no Prêmio SESC Nacional de Literatura, com as primeiras versões dos contos que depois iriam compor seu primeiro livro: “A idade das perguntas” (Urutau, 2023). Em 2025 lançará “Na tela das pálpebras”, seu primeiro romance.