POESIA

Poemas de Lisa Alves

Imagem: Patuá / Reprodução.

espelho de três faces

a criança que deixei para trás
surge carregada de memórias:
a mãe cantarolando Atrás da Porta
a avó benzendo os cobreiros alheios
e a tia ajeitando as bonecas russas na escuridão

a criança que deixei para trás
se escondeu em minhas trouxas
e como uma bússola interior
me lança em qualquer caminho

a criança que deixei para trás
não teme mudanças
e desenha nossas mulheres mortas
como lagartas no casulo:

Um dia voltarão com asas

a criança que deixei para trás
aponta as três mulheres ecoando meu nome:
Elis, Eli, Li!
são só pensamentos soltos
ou imaginações brotadas
de minhas mulheres mortas

a avó derruba as panelas
a mãe me afaga
e a tia ainda golpeia os joelhos nos móveis
até ouvi a avó resmungando:

Continuou cega, mesmo depois de morta.

três vozes íntimas visitam a casa
três vozes ecoam dentro da criança
e voltam para mim como um espelho de três faces
que um dia também deixei para trás.

§

herança

tocar no tempo
sentir o cheiro das cartas antigas
descobrir desenhos secretos de 1930
ser perfurada pelas agulhas de costura da mãe
rever a família nos vídeos caseiros e sem enquadramento
olhar nos olhos da menina que fui e ler palavras de adeus

tudo se vai
tudo caminha
mesmo sem pernas ou rodas

só algumas coisas ficam como
os desenhos de piolhos da avó
os filmes no sótão
e as cartas que a mãe
escrevia para ninguém:

Chorei, gritei e ele sumiu por três anos.

também aqui fico
de olho no jardim
coberto de pó e cimento
e sinto tudo se transformar
em alguma coisa
em qualquer coisa
ou em um tanto de nada.

§

um inseto monstruoso

há um lugar que poderia ser
Tel Aviv ou Berlim
mas não é
é bem por aqui
entre três estados
da minha memória
onde moscas frequentavam
padarias e velórios
e depois lançavam bernes
nas cabeças das crianças

é apenas uma memória ou uma mentira
que me ajuda a entender como eu reagia à dor
e a toda aquela experiência de perder tão cedo

Não há guerra sem moscas.

eu não sei se passei no teste
de ser gente ou alguma coisa
queria mesmo é ser a Mosca
dos filmes do Cronenberg
ou o inseto monstruoso do Kafka
que um dia não saiu mais
um dia me tranquei no quarto
um dia me tranquei na vida
e não fui mais
simplesmente não fui
e nem tentei encontrar
respostas ou motivo

Não há nada depois dessas coisas.

§

uma mulher que amava abacaxis

falamos da guerra
de heróis e inimigos
falamos de lados
narramos sobre resistências
sobre quem vestiu ou não a farda

mostramos no cinema mulheres que choravam
enquanto homens eram despedaçados no front
mostramos as belas enfermeiras da Cruz Vermelha
(o sonho de vida da minha avó)

mas nunca falamos realmente sobre elas
nunca narramos sobre portas arrombadas
sobre roupas puxadas do corpo
sobre a humilhação e apagamento de suas existências

nunca falamos das trevas e do silêncio depois do estupro
nunca falamos dos bebês que nasceram com a cara do inimigo
nunca falamos sobre essas coisas
nunca falamos

até aqui nesse jardim
eu também nunca falei de uma mulher:

uma mulher que foi esquecida
uma mulher que pariu treze filhos
uma mulher que foi esquecida em outro jardim
um corpo esquecido e perfurado em uma plantação
uma mulher que amava abacaxis
uma mulher que se jogou nos abacaxis
uma mulher e um corpo todo perfurado
todo perfurado por coroas de abacaxis

eu soube dela no velório do meu pai
eu ri de nervoso
rimos

ninguém se mata assim.

§

perdoável

ela sumiu por seis meses
mas antes enviou aquele livro
sobre a menina de cinco anos
que sangrava galinhas com
a espingarda de chumbinho

Era ela? Era eu?

a menina do livro atirava
bem nos olhos das galinhas
ela não queria ser julgada
e aprendeu muito cedo com a bisavó
que sob o manto das trevas
tudo é perdoável

depois de atirar
torcia cada pescoço
ouvia cada gemido
compreendia cada silêncio
e por fim levava para a mãe
alimentar a casa.

Lisa Alves (Araxá, 1981) é escritora e videoartista. É coeditora do portal cultural espanhol Liberoamerica e resenha livros para a revista portuguesa Incomunidade. Tem textos publicados em diversas antologias, revistas, jornais e páginas literárias no Brasil e no exterior. Autora dos livros Arame Farpado (Nyx/Coletivo Púcaro, 2015) e Quando Tudo for Possível (Mirada, 2022), sua obra transita entre a literatura, o cinema e a performance, dialogando com diferentes formas narrativas e estéticas.

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