POESIA

Quatro poemas de Maria Cecilia Brandi

Imagem: Histological scene, Robert Hartlieb (1923).

esqueleto
 
quando a poesia derreter
. já não acontece com frequência –
e contemplar o cadáver com a
mesma expressão com que se
olha a corrente de um rio
quem sabe o ácido ascórbico
restaura seu organismo
para que os dentes mordam
além de exibir sorrisos
mas ainda assim a gengiva
lavada com a escova da
mulher morta
sangre um pouco
para que os ossos das
letras serifadas
sobrevivam como os nossos
sobrevivem a nós

§

onde

Costumava fazer isso quando se sentia muito solitária. Propunha por whatsapp uma cerveja a três ou quatro colegas do curso, chamava o vizinho físico, enviava um sms à amiga que não tem whatsapp. Alguns topavam. De súbito saber que tinha companhia lhe bastava. Não precisavam se encontrar de fato. Há um lugar onde nunca nos abraçam.

§

corte

L. gosta quando respeita o ritmo de seu sentimento
 
Ainda que seja a tristeza – é capaz de ficar orgulhoso
de seu comportamento diante dela:
 
Quando não incha os olhos, não o faz fumar até ter dor de
cabeça, mas não fica escondida
 
Está lá, quando vai comprar ovos, berinjela e algo mais no supermercado:
          o carrinho ajudando a sustentar o corpo atrás
          das mãos firmes que o empurram
          a pressa ao pegar o queijo minas no freezer,
          não pode suportar o frio externo
          a indiferença à moça que fura a fila
          (tudo lento, hoje não importa)

A dor tentando acomodar-se dentro do corpo
o corpo tentando acomodar a dor, fazê-la dormir, e mexer-se

§

sapatos

Passar o dia com sapatos apertados, como se os pés fossem gêmeos no ventre por dez meses. Como se apertassem nervos, movimentos, e a boca de um mudo gritasse pelos pés desbocados.

Andar em desequilíbrio quando estão frouxos: poder ficar na mão, pisar em ovos – talvez contra o risco de cambalear.

Arrancar a sola, não pisar em falso. Da sola sem sola, escavar com estilete os restos de cola que grudam no chão e tiram o impulso. Buscar outra base. Cobertura. Fecho.

Maria Cecilia Brandi nasceu no Rio de Janeiro, em 1976. É autora dos livros de poesia Atacama (7 Letras, 2012) e A esponja dos ossos (7 Letras, 2018) e tradutora literária (inglês-português e espanhol-português). Entre os livros de poesia que traduziu estão As luzes, de Ben Lerner (Círculo de poemas, 2025); Não me deixe só, de Claudia Rankine (Todavia, 2024); e República surda, de Ilya Kaminsky (Companhia das letras, 2023). É doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Como compositora e intérprete, assinando Ciça Brandi, lançou o álbum Cores em 2024, disponível nas plataformas digitais (https://open.spotify.com/intl-pt/album/3onNj1vYyQFYsbTLH87wKM?si=DQPxcXcxTvaj5kBXpF26nw)

Os poemas “Esqueleto” e “Onde” foram publicados no livro A esponja dos ossos (7 Letras, 2018), e “sapatos” no Atacama (7 Letras, 2012). “Corte” integra a antologia Amar – verbo atemporal, org. Celina Portocarrero (Rocco, 2012).

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