POESIA

Poemas inéditos de Sidnei Olívio

Imagem: Gesina ter Borch, 1654.

Epílogo

A cidade refém do silêncio.
Noite alguma se dobra à manhã ansiosa: repentina fagulha de um sol hesitante entre horas exiladas.
Não me sinto só afinal – miro o céu e louvo a lua que carrega dragões e cavernas em sua rota de prata às fugas inesperadas para o velho refúgio da tristeza.
Um dia serei lágrimas apenas – resíduos do fogo preso num pote (a se quebrar pelo descaso do tempo ou por não mais ornar a estante.)
Por enquanto apuro a voz ao relevo da lua cheia. O canto é uivo
e venceu a melancolia da cidade.

§

O vazio enquanto coisa

Pelas ruas da cidade caminho sem direção. Não importa se o sol acenda raios ultravioletas, se nuvens camuflam o dia ou se a noite se posta eterna. Não me entrego à paisagem. Esse é meu destino.
Caminho à borda do abismo na permeável superfície flertando com o desastre. O vazio que percorro é a miragem do infinito, retrato ardil da desesperança. Minha solidão o habita.
Não importa a velocidade das horas, planos cultivados, anos exauridos. Esse não é mais meu destino, uma voz ecoa. A ousadia do silêncio grafado em suas linhas imaginárias.
Pelas ruas da cidade sigo sem direção. Não importam o clima, a cisma, a chave. O tempo não me recorda. Quem de fato sabe da minha existência?

§

Transito

I
Poucas direções a seguir na página aberta: trêmula mão costurando palavras traduzidas desta língua estrangeira, para uma rota sem rima. Ao redor da semântica embrulho a linguagem a vislumbrar o verbo, uma pintura de paisagem distante, hiato entre a forma e o acidente.

II
O quadro pregado na parede espera que alguém o contemple. A voz, apenas um lamento em busca da razão que desconheço: o vazio desta trilha estreita a lhe encontrar para que, enfim, se povoe.

§

Distâncias

I
Escura,
a sombra habitando o dia
escorre dentro da noite.
Oblíquos olhares mergulham
nos espelhos mortos
da juventude,
quebrados em pequenos
pedaços e que ainda refletem
o sorriso frio de um rosto.

II
O orvalho da madrugada
é o choro da lua, alheia
à dor de todas as tardes.

III
O teu perfume,
na impossibilidade da rosa,
quase me consola.

Ajusto o calendário fatídico
do mundo, perdido da simetria,
e celebro o tempo (à sua

retida lembrança.)

Sidnei Olívio, natural de São José do Rio Preto (SP), é biólogo de formação  e poeta por convicção. É autor dos livros  Zoopoesia, 1999 (em coautoria); PoesiaAnimal, 2000 (em coautoria); Mutações, 2002 (em coautoria); Concretos & Abstratos, 2003; O limite da razão,  2011; Uni-verso: a natureza da poesia e a poesia da natureza, 2012; A transgressão da palavra, 2013; As sete faces da cidade, 2014; O que desmanchamos em pedaços, 2017; A visão poética do abismo, 2018; Poesia Invertebral, 2019 (e-book bilingue em coautoria); Poesia é um lugar que não se revela,  2021; Tratado das Significações originais, 2022; Signos de passagem, 2023.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *