POESIA

Três poemas de Maria Emanuelle Cardoso

Imagem: Nauta/Reprodução.

respiração de bicho forte
faz ferida nas paisagens

alguns arqueólogos acreditam
que a idade das pedras lascadas
trata-se na verdade da idade das
pedras estilhaçadas a mudança se
dá porque acreditam que os primatas
não lascavam com atrito de lagarta
pedra por pedra e sim com os estilhaços
da queda faziam suas lanças.
lançaram o artigo com o título: fazer armas
com os estilhaços
que nos caem

§

namazu

os peixes-remo medem aproximadamente seis
metros. quando aparecem, dizem aos japoneses
que é tempo de terremotos. a gramática diz:
sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto
causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo
sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis.
as relações da causa e consequência do influxo
e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não
são totalmente conhecidas. há quem diga
que todo humano é prelúdio de incêndio.
há quem acredite que toda carbonização
é prelúdio de humano. não se sabe se houve
guerra por que existem humanos ou existem
humanos porque houve guerra.
aos humanos quando os vemos
resta contar a lenda de um primata que corre como
planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi
e sabe como provocar terremotos

§

da possibilidade de encontrar
um psitacídeo intergaláctico

os grandes mamíferos das águas que são pescetarianos
não tomam coca, querem mergulhar
reduzir o consumo de coca ainda é produzir coca
tomar coca light ainda é produzir coca
reutilizar o vidro de coca ainda é produzir coca
reciclar o vidro de coca ainda é produzir coca
a pele do capitalismo adora esse tipo de cócegas
tomar nenhuma coca ainda é produzir coca
queimar queimar
a fábrica de cocas
algas vermelhas
na primeira vez que entrei no rio
fechei os olhos e mergulhei profundamente
fiquei com gosto de areia e sangue na pele
passei então
a mergulhar como quem para a noite se despe
não completamente, apenas o suficiente
sabendo que tanto na noite quanto no rio
a Areia sempre vem

Maria Emanuelle Cardoso nasceu em 2000, em Montes Claros, Minas Gerais. Seu primeiro livro, intitulado Amarelo mostarda, saiu pela Editora Nauta (2024). Anterior ao livro, sua obra vem sendo publicada em antologias e revistas (Há quarenta e seis pés, Totem&Pagu, Cassandra, Aboio, Ruído Manifesto, Casa Inventada, Oficina Literário da Revista Cult, Cupim). Ganhou o segundo prêmio do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 (Trevo) e participou do Clipe Poesia 2023 na Casa das Rosas. Os poemas aqui apresentados são do livro Amarelo mostarda.

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