POESIA

Poemas de Maria Lúcia Verdi

Imagem: Hector Giacomelli (1822-1904).

Hóstia negra
(de Matéria sem nome, 1986)

Mais imponente que Deus
Mais presente
O grande olho que nos acompanha
– o retorno
Entre ele e o pó, a sombra de Deus
redonda, branca
na boca
(e essa teia que envolve tudo encobre tudo e nos torna
pausa)

§

Outro
(de Este fruto outro, 1993)

O que fazer com este fruto outro
que é o amor?
Ele me abre, ele me fecha
sem ter ideias
sem ter ideias

§

O olhar do tempo
(de O caractere do sono – entre Oriente e Ocidente, 2005)

O que está aqui à minha volta
está, esteve, em outras partes
Nada é imóvel e tudo o é
profundamente
A dor que sinto, nada tem a ver
com o destino dos entes em torno
(se destino têm)
No Livro das Mutações, lê-se
É favorável seguir
Mas, e se seguir for permanecer?
As águas do rio degelaram
turvas, são o olhar do tempo

§

A noite vem
(de Em voz baixa, 2019)

A noite vem
e vem vagarosamente
o céu a engolir
o que parece um corpo
Sentada no chão
consciência da terra
esboços
dos entes em torno
No canto, há uma pedra
ou outra coisa do mundo
natural
que não sabemos bem
nomear
Poesia como diário
não escrito
dias assim em
tão poucas linhas
O novelo, o fio do corpo
da terra
no ouvido humano
– antigas vocalizações

§

Algo
(inédito, de Mulheres contam, 2025)

Algo de incompreensível nesta curva
de inesperado nesta neblina
No meio deste caminho, algo
que se compõe de fatos
Fatos são, foram, atos
e não há nada que os faça serem
neblina, opacidade
sonho

Maria Lúcia Verdi é Mestre em Literatura Brasileira (UnB), pós-graduada, em nível de Doutoramento, em Teoria literária. Poeta e cronista, com diversos cursos na área de literatura e psicanálise, em Brasília, Buenos Aires e Roma. Possui poemas musicados por compositores italianos. Publicou: “Personagem Possível” (1984), “Matéria sem nome” (1986), “Falas” (1988), “Este fruto outro” (1993), “O caractere do sono – entre Oriente e Ocidente” (2005) “Coito com o real” (2011), “em voz baixa” (2019), “Radiância” (2022). Criadora do projeto “Poesia do Mundo”, em Brasília.

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