ENSAIO

Viajando com o último dos copistas

Imagem: Bibliothèque Nationale de France

Cláudio Trasferetti
Indaiatuba – SP

Passei boa parte da infância e da adolescência esperando a passagem do carteiro. Por meio de uma instituição com sede na Finlândia chamada de IYS (International Youth Service), arranjei correspondentes em vários cantos do mundo. Chegavam cartas da ex-Iuguslávia, da Nova Zelândia, do Quênia. Além disso, esperava por cartas de familiares que foram morar no exterior e cartões-postais de amigos que saíam de férias. Às vezes, recebia até telegramas terminados com os inesquecíveis “pt saudações”. O carteiro era uma espécie de janela para o mundo, com o perdão do clichê, e foi irremediavelmente associado a notícias de parentes, conversas com amigos, aprendizados de idiomas estrangeiros e selos postais comemorativos, cuja coleção tenho até hoje.

É com um triste desconcerto que olho esses objetos a cada limpeza de armário. À coleção de selos, às cartas e aos álbuns de fotografia, junto os vinis e os cds que teimo em guardar mesmo sem ter toca-discos ou toca-cds. Não é uma questão meramente saudosista, mas as quebras de continuidade trazidas pelo “progresso” têm uma faceta que pode constranger nosso lado mais afetivo. O coração fica apertado quando olho para a capa do vinil “Passarim” do Tom Jobim, cuja aquisição foi um dos maiores orgulhos que tive na vida, ou para a indescritível caligrafia da carta que minha sensei me enviou do Japão. Logo chegará o dia em que livros impressos também integrarão esse grupo. O que meus filhos farão com esse meu pequeno museu pessoal?

Essa pergunta não abandonou minha mente enquanto li “O Último dos Copistas”, livro que o Marcílio França Castro escreveu. É que o livro fala sobre extinções, transitoriedades, obsolescências e fantasmas a partir de um ensaio sobre Angelo Vergécio, uma personagem histórica que produzia livros manuscritos num tempo em que já se podia imprimir um texto. Esse ensaio, que abre o livro, nos dá conta de uma exposição fictícia de manuscritos do grego Vergécio, cuja caligrafia teria sido a base para a criação dos famosos tipos Garamond. A leitura desse texto, publicado numa revista, engendra no revisor Eduardo Penna e na ilustradora Lygia Delgado uma comprida lista de reflexões sobre a palavra escrita, a internet, as tecnologias, as bibliotecas, a vida. Após o ensaio, o livro segue com um relato feito pelo revisor, intercalado com textos escritos em cartões-postais enviados a ele por uma Lygia obcecada em entender a vida de uma suposta filha de Vergécio que teria atuado como ilustradora de suas cópias. Importa mencionar que o relato escrito por Eduardo tem como narratário o autor do ensaio, cujas iniciais são F. C. Seria França Castro se colocando como personagem do próprio livro?

A certa altura do relato, Eduardo diz achar que o bom texto é aquele que impele o leitor para outros lugares: o bom livro não segura, solta. “O Último dos copistas” me prendeu e me soltou ao mesmo tempo. É muito bem escrito e estruturado, apresentando uma multiplicidade de caminhos de reflexões, ideias e novas leituras. França Castro gosta de duplos: o copista/o revisor (profissionais em extinção), as ilustradoras separadas por séculos, situações paralelas do passado e do presente. Por meio dessas duplicidades, o livro lança fachos de luz ao nosso tempo, um tempo de celulares, mensagens instantâneas, fotografias e livros digitais, Google, YouTube, Microsoft Office, Facebook. Tempo de múltiplas possibilidades de conexão que muitas vezes redundam em profunda solidão.


Ilustração: “O Último dos Copistas” me fez querer olhar, por vias digitais, os manuscritos de Vergécio. Isso é possível por meio do site da “Bibliothèque Nationale de France”. Achei um livro sobre caça copiado por ele e citado por França Castro. Dele tirei essa ilustração. A caligrafia do grego é incrível. As ilustrações mais ainda.

Claudio Trasferetti é químico e leitor diletante.

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