às moscas
eles nos encalçam
empunham raquetes
elétricas faiscantes
preparam armadilhas
mosquiteiros de nylon
borrifam sobre a gente
inseticidas de icaridina
e se já não conseguem
nos espantar
escudam-se atrás
de santos fiadores
cauções poupanças
boletos impagáveis
agendamentos logo
cancelados telefones
que nunca atendem
até ficarmos sem saída
três quatro cinco da manhã
em filas indianas
sob chuva
fina
como porcos feito gado
nossos ossos erodidos
toró pingando pela pele
dentes com reumatismo
documentos apostilados
tim-tim por tim-tim
carimbos ferretes
chicotes correntes
encharcados
de garoa
eles acham que nos enxotam
quando secos nos insultam e
galhofam que a gente transa
melhor
sim
mas
articulamos a língua muito
pior
eles creem que nos expulsam
ao troçar do nosso cheiro
sendo que o rastro
de bosta lixo sangue
foi vazado há séculos
de um transatlântico
esgoto open bar
então
senhores
nem sonhem
não vamos sumir
nós
pousaremos
sobre suas caras
milhões de patas
bilhões de olhos
antenas e asas
e não adianta
coçar
tremer
ferir
arranhar
espernear
na ilusão de
nos esmagar
pois já teremos
invadido seus
poros possuído
as suas narinas
voaremos dentro
de suas cabeças
dançaremos
zuniremos
zoaremos
maracatu
kuduro
coco
forró
exu
e
não
não há nada
absolutamente nada
nada que possam fazer
§
ementa
cozido
de pele
e carne
preta
só nove
e noventa
§
reparação
não
não queremos
só
sacos de ouro
nem punhados de
madeira e desculpa
mas
saber quanto custa
a palavra
caçula
e o preço exato de ter
cafuné
preso num dicionário
feito um jacaré
cachimbo tanga
tipoia carimbo
sim
só
voltaremos pra nossa terra
quando mercados precificarem
o nome
tomate
abacaxi manga banana
maracujá pipoca abacate
senão
nada feito
ficaremos bem
aqui
ó
e sempre que se ajoelharem
numa igreja barroca joanina
rezando amém pra
santa bárbara
as preces banharão também
iansã
e jaci
sim
e sempre que fizerem selfies
no castelo de
são jorge
flashes iluminarão também
ogum
e tupã
é
e sempre que festejarem
o dia de
santo antônio
danças sacudirão também
exu
e o axé
e toda rua será
encruzilhada
e toda sardinha
mesmo que assada
irá se converter
em milho e dendê
laroyê
exu
laroyê
Bruno Molinero é jornalista. Os poemas fazem parte de Bafo do Mondego, livro de crônicas lançado em 2025 pela editora Urutau. Com textos escritos durante o mestrado em escrita criativa na Universidade de Coimbra, a obra transita entre a prosa e a poesia para investigar os limites da crônica e os significados do que é ser imigrante em Portugal hoje. Além de Bafo do Mondego, é autor também dos livros de poesia Alarido (2015) e Férias na Disney (2020) e de títulos para o público infantojuvenil.
