POESIA

Planetário de bolso

Imagem: Cosmography, 12th Century.

Júpiter
Corpo lento em pesadelo, imenso e leve se move no espaço girando velozmente ao redor de si mesmo. A mania persecutória do escritor sabe que seus amigos não acreditam na sua escrita, que os outros poetas não acreditam na amizade ou se acreditam na escrita é por piedade amiga. O estranho paradoxo de um demônio inseguro. Giro ao redor de mim mesmo e me movo frontalmente, não saio do encalço de alguma coisa parecida com uma tempestade vermelha que dá o tom dos meus sonhos. O que se vê de mim tentando capturar o vazio, a fraqueza do soberano que se retira e parte para o exílio no oceano noturno.

Plutão
Exagero ao dizer que na humilhação encontro a minha verdade. Mas por que procuro algozes. E a cada vez que passo por rivais, perco um pedaço a dentadas. Esperam que não sobre nada e vomitam conceitos. Mas sempre tem um resto. A luz bate sobre mim meio inclinado e me justifico quase às escuras, um dia ainda me mato para provar. E eu escrevo por perdão, porque sou mera aporia. Mesmo o mais arrogante se apavora quando encontra o que não o leva a sério. Eu juro que foi tudo sem querer, não há propósito algum nos movimentos do universo – e muito menos em mim, e menos ainda no movimento que me leva a vocês.

Netuno
Uma fome nasce no mundo. A mais. Procuram domá-la impondo-lhe um nome. João, Pedro, Maria. Netuno. Ali onde havia uma equação. Onde cairia a maçã, se não houvesse um campo de forças à procura da maquinaria do universo, abstraindo. Sangue verde, onde haveria a matriz de um coração. Despertar para o sonho é como inspirar antes de um mergulho: os olhos ainda molhados, a luz azulada do dia. Para sempre ser intempestivo. Soprar verbos no horizonte demiurgo. Aqui começa a revolta: ventania contra as grades de um nome. Inútil procurar uma ordem entre essas frases. Um tridente, como toda invenção, antes foi objeto de sonho.

Marte
Toda vez que passo, uma mecha de cabelo de alguma mulher morta se gruda nas minhas costas. Ventosas: meu corpo cada vez mais anêmico, coberto de pelos vermelhos. Polvo bélico, cápsula de aço orgânico, tentáculos fisgando pesadelo. O meu rastro de partículas do meu corpo, mês desgasto e me renovo, sempre originário, traiçoeiro monstro triste, parasitaflor criada na sombra tatua gritos no papel. A cada vez que te assassino você se sente vítima de ódio, mas é a tristeza que me lança em agressões repentinas – destino me armou como quem monta uma armadilha.

Mercúrio
Só existo enquanto caricatura em teus olhos perspicazes, você inteiro em si mesmo. Existe um preconceito muito forte separando você de mim. Heráldicas como rastro, vestígio e sinal de que nunca estive ali: mão de ferro empunhando um dragão (de pano). Destino dos menores, riso invulnerável dos maiores, desperdício do tempo. Você íntegro, livre de máscara porque não há istmos entre seu juízo e o que vai entre seu juízo e o juízo final. Você, o monólito: euzinho aqui, caricatura do humano, animal de estimação, maldição exemplar – não é uma desgraça camuflada? O que seria do mundo se todos fossem verdadeiros e solares?

Terra
Quanto mais cavo, mais pesada é a terra e mais próxima da leveza etérea. Quanto mais fundo é o túmulo, mais leve é o fantasma. Quem sonha com saídas, sente os pés enraizados e é mais fácil romper os ossos que tocar as utopias que trago em meu ventre obscuro, incandescente. Morada mortal de poetas ainda mais mortais do que eu. Desistam, lancem mensagens ao mar (o mar é duro e transparente como pedra), desprezem a lama-vida, coisa viscosa que envolve suas palavras. Sua solidão é sem remédio.

Vênus
A luz filtrada pelas nuvens é ainda mais avessa aos olhos – édipo destronado, estrela da manhã, diamante de esperma adornando a lua – o segredo da espuma – mar verde cor de detergente, teu solo pegajoso onde se mergulha ao dissolver-se – crianças brincam na lava, bolhas de sabão, porra e limpol, no que seria apenas o choque natural entre sal e água – sangue coagulado – o fruto quer ser triturado e expelido como gozo do fauno abstrato que nos criou – escroques estupram Mnemosyne – Mnemosyne proclama lições de moral em frente ao éter.

Saturno
Leveza mais pesada que todos os outros pesos somados, água viscosa escura e quente, de um quente frio gelando a alma, assim como a verdade migra de boca em boca até ficar irreconhecível esse é o movimento do velho sábio ao descobrir que não devia ter começado, mas agora não há volta e prossegue, como se uma nova doença fosse necessária para curar a velha doença e assim por diante. Irmão siamês da Terra. Não o filho pródigo e sim o irmão invejoso do filho pródigo, o que sempre ficou. Desperdício de beleza vagando no espaço, este planeta é todo verde por dentro.

Urano
Presença incerta, algo como um calafrio. Olho o teto: pequeno cubo luminoso, semelhante a uma cigarreira com figuras de perfil: azul claro na escuridão. Digo: “não tenho medo e nem odeio”. Do cubo saem pequenos losangos coloridos. Quantas cores: azul, verde, vermelho: cada losango se abre e dele caem novos e menores losangos diferentes: lilás, cinza, branco. Tudo é tão lento. Tranquilidade: ou a presença se foi ou ela se dissolveu em meu rosto. Brilha suavemente na escuridão enquanto desapareço.

Daniel Faria é historiador poeta. Autor dos livros O Mito Modernista, publicado em 2006 pela Editora da Universidade Federal de Uberlândia e Livro de Orações, publicado pela Editora Lumme em 2012. Tenho poemas publicados na revista Zunai. Também publiquei o livro Matéria-Prima pelo projeto Dulcineia Catadora, em 2007. O poeta Marcelo Ariel me incluiu em sua antologia pessoal Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, que saiu pelo projeto Caiçaras.


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