POESIA

Poemas de Danilo Giroldo

Imagem: Ohara Koson (detail), 1920.

Perspectiva

A jovem palmeira enverga com o vento nordeste
um bando de maçaricos
busca o que resta no campo já quase seco

logo não haverá nada
maçaricos
palmeira
campo
vento
olhos
pensamento

quanto mais vão durar os poemas?

§

Nova cor

Eu vi quando você caiu
depois as manchas amarelas
o marrom nas extremidades
as primeiras rachaduras
antes tão viva e delicada
agora pó na minha mão

O céu que eu vejo hoje
não é o mesmo que conheci
o peso sobre nossas cabeças
esses tons de rosa e laranja
o azul mais sério é um sinal
ele cai e não seremos mais

Os seus olhos castanhos
sei que eles também veem
a nova cor no espectro visível
nem todos conseguem notar
talvez um elemento suspenso
refletindo um tom impossível

Os livros não são meus
busquei no registro geológico
nas catástrofes ancestrais
na história escrita e oral
nas entrelinhas da filosofia
nas constantes universais

O pior é essa fenda
no céu e na terra
a ilusão das pessoas
queria crer que é passageiro
mesmo que o aço não vingue
o amor não pode se extinguir.

§

Voz

Caminha
se te sentes pequeno
caminha apenas
parado te sentirás ainda menor
se o andar estiver pesado
segue com o vagar necessário
mas segue
muda de rumo se te apeteces
toma um lado na encruzilhada
anda com ouvidos atentos
confia neles
são órgãos sábios e profundos
os olhos são mais afoitos
traiçoeiras as saboneteiras
curvam-se sempre com o peso
contrastam com as pernas
laboriosas costumam seguir
ainda que se deseje parar
se elas pararem
preocupa-te de fato
as coisas e os outros
restarão maiores
gigantes
e tu menor
cada vez menor
até sumir
ou acreditar que sumiu
ou aceitar que sumiu
e pode nada mais haver
depois.

§

Ferida

As feridas guardam o silêncio
e quando essas nuvens violetas
empurram furiosas o ar sobre nossas cabeças
o grito ecoa surdo e imperceptível

nenhuma ferida é igual a outra
são também diversos os silêncios

mas a ausência de som
é condição implícita ao mundo das feridas

assim como o sangue
a deterioração
a inflamação
a febre

uma certa esperança
de cicatrização

impressiona que tantas feridas
sejam assim indolores e inaudíveis.

Danilo Giroldo, 50 anos, é autor de “Vala” (2019), “O canteiro das flores de metal e o jardim de areia” (2020), “Contos de morte” (2023) e “Rosa infinito” (2025), todos pela Editora Patuá. Publicou também “Plexo Solar” pela Editora Penalux, finalista do prêmio AGES de literatura em 2024. Tem publicações em diversas revistas literárias, como WebTV, LiteraLivre, Ruído Manifesto, Literatura&Fechadura e Mallarmargens, é paulista e professor na Universidade Federal do Rio Grande – FURG, cedido atualmente para a Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Os poemas desta seleção integram o livro “Rosa infinito” (Patuá, 2025).


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *