No jogo das luzes e das sombras, uma mão vibrante
atravessa signos sobre uma imagem cega.
Maria Angélica Melendi.
Para Elisa e Maria
O lírio-da-paz da casa de minha avó germinou quando nasci, disse minha mãe. Imanência vegetal? A transfiguração de um corpo, uma permanência? Ao longo dos anos a planta se renova sem dar muita notícia da sua insistência pela vida. Entre mil auroras e outros mil crepúsculos, uma face se transforma pelo gesto enamorado de fazer bainhas de crochê em panos de prato e centros de mesa. Brota um coração aberto à comunhão de peles que se tocam na floração alva do jardim.
§
Para Bruna
boca sem língua
a buceta de mil camadas
o segredo sem retorno.
velamos o gozo na fuligem
no inchaço trêmulo
nuances do aroma.
emaranhados em liberdade
afirmarmos o mistério
a linguagem oca de cada flor.
na expressão do amor
a amizade é banhada por uma luz
que reafirma a presença do coração
como nascente e verbo.
§
Para Albino,
lua sobre o relógio de sol. minhas mãos desdobram uma carta nunca lida, ainda a ser escrita. um desejo revelado como numa abertura para passagem de luz chegando aos nossos ouvidos num sussurro de mãos quentes. para cada dobra desfeita, vejo seu corpo se abrir à primavera, ao canto das pedras à beira mar. uma imagem da fantasia, um desejo do real turvam seus olhos. nos entrelaçamos ao sudário. corpo e palavra como uma entidade findável, falível e eterna.
§
Para Dayane,
sete vidas crochetadas.
aprendo contigo
as palavras necessárias,
o momento oportuno para o repouso.
escrevi num papel qualquer
sem vocação para ser poema
— sempre forte, sempre valente.
um voto,
um pacto silencioso
sela o laço da vida ordinária,
o nó extraordinário do invisível.
você faz uma cuia com as mãos
para me dar de beber.
um cuidado silencioso
como a fé de que a cada primavera
o espírito se renovará no aroma do jasmim.
§
Para Daniella,
que faz da matéria voluptuosa a impermanência do desejo.
com a certeza de uma cartomante
você me diz sobre um sonho dourado
boca cheia de dentes reluzentes.
sua clarivisão cheira a karê
os dedos apontam firmemente para a geometria do mapa
— bestas do além-mar, o peso de Saturno sobre nós.
o tempo em eldorado se dissipa
na fumaça dos cigarros que tragamos
entre escórias, látex como peles.
numa película P&B
sonhamos uma imagem vaga
um vulcão excitado
a sorte da contemplação
de um par de anjos
sobre a casa da fortuna.
§
para Dolores,
que, semelhante em São Tomé, me ensinou a tocar no magma da vida.
uma cor habita você
como a fé encarnada nos monges,
o primeiro choro do recém nascido.
vejo a esperança na luz imóvel do meio-dia
a hora morta do verão.
Augusto Hendricus (1990, São Carlos – SP) vive e trabalha em Belo Horizonte. Graduado em Artes Visuais pela UFMG, é artista gráfico, escritor e costureiro. Se ocupa de temas que se entrelaçam, se contaminam: o erotismo, a morte, o amor, a melancolia, o sagrado. Isso se materializa na forma de imagem e palavra em dinâmicas de encontro, choque, contradição, justaposição, referência, fragmento, repetição. Mais precisamente, na escrita de poesia, na produção de imagens a partir da técnica de frottage do seu próprio corpo, do trabalho de uma escrita-desenho e na criação de superfícies gráficas sobre papel. Uma paisagem de materialidades diversas, sobrepostas umas sobre as outras, assim como os próprios temas se deitam uns sobre os outros.
