Nu frontal
para
Zulmira Ribeiro Tavares
os olhos não param de brilhar
dela que é linda do alto aéreo
da longevidade
avoadamente perdida em lapsos:
8o anos, embora os números
contem mais — ou se descontem
um dia após o outro é que se vive
fazer o quê? — sempre dizia
no meio de um meio sorriso
assim, à medida exata
que eu preferia morrer
ela me reenviava à vida
hoje, face a face na mesa posta
transita a fala célere — nunca acelerada
entre nossas xícaras e muitos livros
3D e Tempo Real não a tornam
menos aurático objeto de veneração
— a qual desdenha de pés juntos
com uma única frase
arranca minha máscara
de pseudonoviço, arquineófito
mas é ela quem anda nua
aprumadamente desalinhada
nos aclives das palavras
sabe — pois o é — que quando
se veste uma musa
desvestem-se muitas
no mesmo dia do mesmo mês
chegamos às placas tectônicas
— de quais eras? — que se tocam agora
agora que a gente se encontra
e se cumpre o oráculo de abraçar
— forte — alguém que sempre se amara
Fonte
no
centro
o
olho-d’água
no mural de azulejos
dessa fonte antiga
trabalham três escravos
às costas
o feitor
segura o chicote
bem
no centro
a
água brota
o passado parece um lugar
qualquer
para onde se olha
em diferentes direções
bem
no centro mesmo
brota
a água translúcida
a sinhazinha de cabelos longos
à margem do riacho
nua e branca se enxuga pela mucama
de olhos baixos
pura
e puro
a
água brota do olho
ecoando
profundezas
de
tempos incertos
de toda a cena só vai sobrar
na moderna reforma do mural
o cão que descansa à sombra
olhinhos arregalados para frente
como se interrogassem o futuro
a
nós que agora provamos
pouco
sedentos de história
da
água borburejante
nós
que insipidamente
bebemos
da mesma fonte
Lira sem cordas
extrai-se do ar
o cantar
povoem ecos
o baldio da vida
delícias são
sempre
quase silenciosas
Gostar de dizer
[1]
de um poema
nada se diz
— diz-se
[2]
mas eu queria esquecer
esse dito
e explicar que o que
o poema
quer dizer
é o quanto gosto
de você
[3]
um quanto tanto
que não dá
para só dizer
— por isso o poema
[4]
mas o que eu queria mesmo
era desdizê-lo
mandar o poema às favas
só trazer à baila o gostar
[5]
mas se só o gostar
não se diz
contradigo-me
pois é dele
que nasce
o dizer
[6]
o dizer
do gostar
de dizer
: o poema
Luis Alberto Brandão é escritor, professor da UFMG e pesquisador do CNPq e da Fapemig. Publicou os livros de ficção Manhã do Brasil [Scipione; finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Portugal Telecom de Literatura], Chuva de letras [Scipione; vencedor do Prêmio Nacional de Literatura João-de-Barro; finalista do Prêmio Jabuti; integrante do Programa Nacional Biblioteca da Escola], Tablados: livro de livros [7Letras] e Saber de pedra: o livro das estátuas [Autêntica; vencedor da Bolsa Vitae de Artes]. É autor dos livros de ensaio Teorias do espaço literário [Perspectiva; finalista do Prêmio Jabuti], Canção de amor para João Gilberto Noll [Relicário], Grafias da identidade: literatura contemporânea e imaginário nacional [Lamparina; finalista do Prêmio Jabuti], Rituais do discurso crítico [Memorial da América Latina] e Um olho de vidro: a narrativa de Sérgio Sant’Anna [Fale/UFMG; vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte]. Os poemas desta seleção podem ser encontrados no livro Princípios de cartografia e outros poemas.
