palermice a gente
brincando de cabra-cega
cavalgando gracinhas nessas horas
pulo por cima de você voraz
vou competitivo quebrantando minhas sílabas
palavras e dentes serrilhados
riscando o chão
e você mal me vê
quebrando a boca com tanto gosto
com tanta careta
como se fizesse cartas de amor que
hora ou outra acabariam assim
espoliadas
escritas com marcas finas de quem quebraria os quintais com as próprias unhas
como quem raspa o que há de íntimo
lascando a pedra o piso os entraves
cartas em que vou correndo pra casa de novo
correndo em risco
com minhas lascas e cavernas a mostra :
meu descompasso junto às nossas canelas ágeis
§
todo o mundo desenhado
caberá caduco e rouco
na asa de um biguá
§
minha mãe
trabalhando de babá
cuidou de uma criança cuja boca
maldizia algumas palavras
bilabiais alheias
saliva entre dentes
um freio inquieto
as covinhas em excesso
gostava quando ele dizia
marulho
ao tentar dizer
barulho
pois no meio do dia
o mar vinha quebrando
quebrando
ao longo de canelas
ainda por crescer
Pedro Willgner (25) é professor e poeta, nascido em Brasília. Formado em Letras – Português, pela Universidade de Brasília (UnB), possui poemas publicados em diversas revistas online, como Aboio, Sarabatana e Medium, além de um livro, publicado pela editora Urutau. Atualmente, está trabalhando em seu segundo livro, Monumentália, e na reedição do primeiro.
