Retrato antigo
Eu vinha pela rua mundo nos calcanhares quase meio dia…
Uma solidão no estômago e as casas de janelas refesteladas e impiedosas
exalando cheiro de feijão.
Eu vinha pela rua os olhos nublados de chuva ácida…
Disfarçava reparando nos gatos pretos à margem do céu nos telhados.
Eu vinha pela rua feixes de músculos em agonia
Desalento e cansaço no esforço operário de andar.
Mas com um sorriso de adendo: era preciso um “chapéu”
para cumprimentar alguém que porventura me dissesse “olá”…
Eu vinha pela rua naquele trecho da vida cena de cinema mudo
Só não era a florista cega namorada de Carlitos
Mas entregava jornais em domicílios.
Copiava Danielzinho velho jornaleiro de minha terra
Eu já por encarnar a patética importância daquele mito popular.
Estranha compulsão eu tinha por aquelas circunstâncias
quase trágicas de sobrevivência.
Cumpri a sina de atravessar minha cidade
Dias meses anos
Irrecusável alça calejando o ombro.
§
Personagem
Hoje os números não bateram.
Não fiz superávit para sanear o rombo da felicidade relativa.
O que pulsou e fez inclinar o pêndulo foi uma dor superlativa.
O dia foi de contrabando e de ilusões levadas à penhora,
Mas, à noite, se não houver contratempo,
escancaro os olhos e sonho a céu aberto.
E no sonho, quem sabe viaje em excursão para o Nordeste,
a garganta afinada em toada sertaneja.
Ou saia do país e caminhe pelas ruas de Praga,
gótica como suas igrejas, andarilha ao som de violinos.
Noutra vida, noutra freguesia,
fica mais fácil carregar o peso morto, corpo ainda quente,
da poesia sobre os ombros.
Vira-se personagem.
§
Retratos
As saudades nem sempre cabem nos retratos.
Às vezes me fazem companhia em cadeiras preguiçosas na varanda.
E, nas horas mornas do dia, quando me ponho distraída,
compulsoriamente me embarcam em trens de lembranças.
Chego à cidade antiga a tempo da missa,
quando dobram os sinos da Matriz às seis da tarde
e embroma-se os fiéis com a reza do terço,
para que o Padre Basílio possa jantar em paz.
Na casa da minha infância o coração dispara,
o gato Olavinho continua subido na pia do lavabo.
Assiste absorto, pela milésima vez,
o filme da torneira pingando, sem desvendar qual o mistério.
A esta altura, o céu já pintou de entardecer tudo o que viu.
Meu pai e minha mãe, no vai-e-vem do balcão,
atendem os últimos fregueses de caderno,
antes de fechar o armazém.
Dia gasto, lastro para dedos de prosa com a vizinhança,
fôlego ainda para conceder amabilidades
que incluem alcançar cachos de uvas sobre os muros.
Na rua alguém passa correndo, suando em bicas.
No beco de trás, de chão batido,
as crianças suburbanas jogam bolitas,
ou brincam de caçar vaga-lumes.
Nos bares é a hora de risonhos e ensimesmados baterem o ponto.
Cedo ainda para quebrar garrafas e gritar impropérios contra o governo.
Depositar o olhar na ruazinha que eu morava
era a ousadia de espiar o mundo e avistar, do portão de casa, o futuro.
Depositar o olhar na ruazinha que eu morava, faço ainda hoje.
E piso em poças d’água… A minha vida já não cabe lá,
naquela felicidade provisória e singela.
§
Alma
Depois dos abalos sísmicos, teu nome apareceu furtivo, num fundo de galeria.
Naquela tarde de entulhos soou tão benigno como pesar plumas,
surreal como achar um naco de pão no meio de um salmo.
Antes andei a fazer confidências, em caixa dois, para a lua cheia.
Padeci de taquicardia, as minhas esperas mofavam com a umidade das horas,
vivia só por dever de ofício. Mas, afinal, por onde andavas,
tu, que me socorrias das asperezas?
Sozinha, sem tua assinatura, quase sucumbi na repartição.
Na rua, engolia o choro, mas igual me assaltavam.
Em casa, chegava, não me viam…
Eu, agora pretendo demover paredes
conforme possa um cantar delicado de passarinho.
Dependo somente do escândalo das tuas utopias.
Volte a me escoltar e traga sapatos de trapezista.
O que está faltando para irmos junto ao cinema?
§
Desamparo
A cidade parece viver
de virar às costas aos passantes.
Esbanja essa impressão ao olhar desamparado.
Nem é de se supor que os dnas de calor humano,
soterrados sob a musculatura de concreto,
alguma vez venham a furo, deságuem em pranto,
no dorso das ruas devoradas de solidão.
Há dias medonhos
entre os estacionamentos e as calçadas coloridas
por mercadorias de ambulantes…
O peito dói só
de ouvir as gaitas de foles dos esmoleiros.
§
Obsoletos
Há dias desprovidos de significado,
em que se acorda apenas para cumprir calendário.
Nada passa pela fresta da porta.
Nem o sal da lágrima. Nem o fio da aurora.
Manhãs, tardes, noites sem caridade,
em que urgências, retidas em contêineres
de navios sob embargos, são proteladas sine die.
Invalidam-se todas as esperas.
Não há carteiro, não há notícia.
Quem ousa sair à rua
não consegue abrir o guarda-chuva da esperança
para proteger a alma desolada.
Gasta-se em vão os sapatos e as horas.
Teresinha Motta nasceu em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Desde 1999, vive em Brasília. É jornalista aposentada, e trabalhou como assessora de imprensa do Ministério do Planejamento até 2020. Foi vencedora da primeira edição do Prêmio Sesc de Poesia (Distrito Federal) em 2002.
