ENSAIO

O tempo do corpo: a poética surrealista de Leila Ferraz ao longo do tempo

Imagem: Onésipe Aguado, 1862.


Elys Regina Zils
Florianópolis – SC

Quando lemos atentamente a poesia de Leila Ferraz, poeta e artista surrealista brasileira, desde o primeiro livro, Cometas (1977), até produções mais recentes reunidas também em O dia dos cinco orgasmos (MamaQuilla, 2024), observamos uma transformação significativa da escrita, tanto em seus procedimentos formais quanto no tratamento de temas recorrentes, sem que o surrealismo deixe de constituir o eixo estruturante da poética.

Nos poemas de Cometas, o surrealismo surge como gesto inaugural de ruptura e como forma de conhecimento poético. A escrita organiza-se a partir do choque entre imagens, da justaposição abrupta de planos sensoriais e da recusa da linearidade discursiva. Os textos operam por associação livre e erotismo convulsivo. O sujeito poético aparece fragmentado, atravessado por forças cósmicas, corporais e simbólicas que desestabilizam qualquer unidade identitária.

Esconder as meninas verdes
dos meus olhos é transformar:
abri todas as janelas de minha casa.

Nesse primeiro momento, o feminino afirma-se como potência erótica em estado de transgressão. O corpo feminino configura-se como território ritual, erótico e sacrificial. Trata-se de um surrealismo marcado pelo embate direto com a norma cultural, no qual o poema avança como delírio e profanação. O feminino associa-se à desrazão e ao êxtase como resposta radical a uma tradição que historicamente lhe restringiu a linguagem.

Em Cometas, a extensão dos poemas decorre do impacto imagético. Mesmo quando longos, os textos avançam por colagens abruptas, cortes sintáticos e explosões simbólicas. A linguagem se move por urgência, e o poema assume a forma de um transe contínuo, com pouca mediação temporal ou biográfica. O surrealismo atua como ataque frontal à racionalidade discursiva.

Nos poemas mais recentes, a ampliação formal ocorre de modo distinto. A extensão já não se funda apenas imagens surrealistas, mas na acumulação reflexiva. O poema se alonga porque hesita, rememora, explicita parcialmente seus impasses, sem jamais se resolver por completo. Textos como “Poema”, “Lágrimas insuspeitas”, “Escadarias entreabertas” e “Ossuário de fontes” constroem uma duração poética marcada pela consciência do tempo, da idade, da memória e da história pessoal. O surrealismo permanece, mas passa a conviver com uma dicção mais narrativa e reflexiva.

Esse deslocamento indica uma transformação significativa do surrealismo na obra de Leila Ferraz. A vertigem imagética inicial cede espaço a um uso mais elaborado da imagem como instrumento de elaboração subjetiva. O excesso permanece, mas passa a se organizar em torno de eixos recorrentes, como envelhecimento, erotismo persistente, perda, criação e legado. O surrealismo se depura e se complexifica.

Essa transformação repercute diretamente na configuração do feminino. Se em Cometas o feminino se apresenta sobretudo como força erótica e simbólica, nos poemas posteriores ele se configura como corpo em duração, atravessado por marcas, memória e luto, sem abdicar do desejo. Ele aparece como corpo que envelhece, que carrega história e que sofre a expropriação do tempo.

Tomemos por exemplo o poema “Lágrimas insuspeitas”. O verso inicial, “Algumas mulheres de minha geração sofreram muito / com a usurpação do tempo que devia ser delas”, desloca a dor do plano individual para uma experiência histórica compartilhada. O tempo se torna uma vivência incorporada e ferida. A voz poética se percebe enraizada “em uma terra devoluta”, imagem que traduz um tempo que pesa.

LÁGRIMAS INSUSPEITAS

Algumas mulheres de minha geração sofreram muito
com a usurpação do tempo que devia ser delas.
Não há ouvidos para meus apelos.
É como se eu tivesse enraizado meus pés em uma terra devoluta
e meus braços se agitassem unicamente com a força dos ventos em fúria.
Doem-me as feridas de um tempo que passa levando consigo
meu corpo e flagelos da alma para a cova rasa do esquecimento.
Mais do que nunca hoje eu fui embora.
Para bem longe, onde a liberdade me escolta presa à arquitetura da satisfação solitária.
Sou uma civilização perdida e isolada do mundo.
Presa em um retângulo de sacrifícios.
Meu desgosto é trágico como uma ópera de cavernas.
Só me resta pouco tempo neste corpo cativeiro de almas.

Essa concepção dialoga diretamente com a noção bergsoniana de duração. Para Henri Bergson, “a duração é o progresso contínuo do passado que rói o porvir e incha à medida que avança” (Bergson, 2006, p. 47). No poema, o passado não se encerra, mas avança sobre o presente, espessando o corpo que fala. A extensão formal do texto responde a essa lógica temporal. A consciência se aprofunda e o poema cresce por insistência, não por progressão narrativa.

Essa dinâmica também encontra ressonância na formulação de Julia Kristeva sobre o sujeito em processo. Em Revolução da linguagem poética, a autora concebe o sujeito como um campo de forças em permanente negociação entre o simbólico e o semiótico, entre a linguagem estruturada e as pulsões que resistem à estabilização do sentido. Em “Lágrimas insuspeitas”, o eu lírico se apresenta como fragmento histórico atravessado por perdas não simbolizadas. A imagem do corpo como “cativeiro de almas” traduz esse impasse, no qual a linguagem tenta dar forma ao que permanece irredutível.

Kristeva observa que, na melancolia, o tempo se espessa e isso se inscreve na estrutura do poema. Cada imagem acrescenta densidade ao corpo que fala, aprofundando a experiência de um tempo que insiste. O surrealismo, nesse contexto, opera como estratégia de enunciação de uma subjetividade ferida, mantendo aberto o campo do sentido.

Apesar das transformações formais e temáticas, há uma linha de continuidade nítida em toda a obra. O surrealismo permanece como recusa da linguagem utilitária e da subjetividade pacificada. Desejo, sonho, corpo e cosmos seguem entrelaçados, e o feminino nunca se acomoda à representação estabilizada. O que se observa é uma internalização do surrealismo. Em Cometas, ele se manifesta como explosão contra a superfície da linguagem. Nos poemas mais recentes, pulsa de modo subterrâneo, articulado à experiência do tempo e da memória.

A produção mais recente de Leila Ferraz aprofunda a poética ao incorporar o envelhecimento como experiência estética. A linguagem tende à prosa poética, e o erotismo se amplia, deixando de se restringir à fruição imediata para se articular à memória, à perda e à busca de sentido. O corpo feminino se torna espaço de travessia entre o sagrado e o profano, o desejo e a reflexão, a história pessoal e a dimensão cósmica.

Nesse sentido, a leitura de Gauthier (1976) ilumina a obra de Leila Ferraz ao afirmar que o erotismo constitui uma das forças centrais do surrealismo, articulando desejo e rebelião simbólica. Nos poemas analisados, essa tensão é reelaborada em chave feminina, fundindo erotismo e crítica cultural de modo singular. Ao longo de sua trajetória, a poeta constrói uma escrita que atravessa o tempo sem abdicar do risco, da vertigem e da indocilidade, consolidando uma das vozes mais consistentes do surrealismo brasileiro em perspectiva feminina.


Referências

BERGSON, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Tradução de João da Silva Gama. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FERRAZ, Leila. Leila Ferraz. O dia dos cinco orgasmos. Indaial: MamaQuilla, 2024.

GAUTHIER, Xavière. Surrealismo y sexualidad. Buenos Aires: Corregidor, 1976.

KRISTEVA, Julia. Revolução da linguagem poética. Tradução de Lúcia Helena. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

Elys Regina Zils. Poeta, artista visual, tradutora. Doutoranda e Mestre em Estudos da Tradução pela PGET/Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Letras-Língua Espanhola e Literaturas e Letras-Português também pela Universidade Federal de Santa Catarina/Florianópolis, Brasil. Se dedica à Literatura Latino-americana, pesquisando principalmente Vanguardas Literárias e Artísticas com ênfase em Literatura Surrealista Latino-americana. 

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