Mário Alex Rosa
Belo Horizonte – MG
Há muitas razões para que um poeta com uma produção considerável possa querer publicar uma antologia de sua obra até então escrita. Uma delas é a quantidade de livros no decorrer de um tempo largo, a outra é a qualidade da poesia produzida em seus diversos livros. Poderia ainda dizer que no decorrer do tempo alguns livros podem estar esgotados, daí a natureza da antologia trazer uma seleção do que produziu. Sem dúvida haveria outros motivos, dos quais podemos deixar a cargo do leitor ou mesmo do poeta.
A propósito disso, acaba de sair a antologia Fora do alcance da memória, do poeta mineiro Fabrício Marques. Dos 85 poemas selecionados pelo autor, 15 são inéditos, enquanto alguns outros recebem agora uma nova versão. Na verdade, o livro pode ser encarado como uma “quase antologia”, pois pode ser definido também como um “novo livro”. Ele é dividido em seis seções com os seguintes subtítulos: Em torno do fogo da vida, In furore iutissimae irae (em tradução significa na fúria da mais justa ira), Imposturas, Associação brasileira de versos circunstantes, Brincando nos campos do real e Sob um sol difícil. Nessa divisão, apenas a segunda e a terceira parte não fazem referência direta a um verso ou um poema do livro.
Agindo assim, Marques porta-se como Carlos Drummond de Andrade quando nomeou sua antologia, em 1962, criando divisões das quais o próprio poeta na época escreveu que alguns poemas caberiam talvez em outra seção que não a escolhida, ou em mais de uma. A de Fabrício Marques se pode dizer também que um ou outro poema poderia estar em outra seção. No entanto, as antologias quando feitas pelas mãos do próprio poeta é de se respeitar e acreditar que ali estão de alguma forma seus melhores poemas ou os que podem representar parte de sua trajetória. Mas isso não impede que os leitores possam sentir falta daquele mais político ou mais lírico ou mesmo aquele de gosto pessoal. O fato é que toda antologia implica de alguma maneira escolha e toda escolha é uma seleção de alguma coisa que ficou de fora. Vamos dizer que alguma coisa ficou Fora do alcance da memória, como está no título da antologia. Aliás, é um verso do poema Na estação, do livro A fera incompletude, 2011 – justamente um daqueles que aparecem diferentes da versão original.
Com esse conjunto de poemas, fica claro o quanto as questões do cotidiano sobressaem em diversos momentos e em todas as seções. Mesmo nos textos mais metalinguísticos, o olhar do poeta é de quem observa as coisas mais externas, o rés do chão, à fala dos outros, diria mesmo os problemas mais comuns da humanidade, que são de todos. O poema Minha humanidade é um dos pontos altos dessa angustiante observação. A ironia se impõe já no título, pois, afinal, o que falta é justamente humanidade. Há um modo de um sentimento do mundo que se funde com a do sujeito que não só observa, mas que está também inserido nesse movimento. Nota-se que o uso do pronome possessivo (Minha) no título corrobora com essa ambiguidade do particular ao geral.
Haja – belíssimo poema que abre o livro e a seção Em torno do fogo da vida – coloca-se tanto na existência da vida, da criação quanto na forma do querer agir. Revendo esse conjunto é notável o quanto a poesia de Fabrício Marques se impõe por questões sociais sem ficar restrita a um engajamento raso tanto na forma quanto no conteúdo como se tem visto atualmente em certos segmentos da poesia contemporânea brasileira, onde sobra mais discurso do que propriamente forma poética. Na antologia de Fabrício, o leitor poderá conferir alguns poemas como Mais-valia, Êxodos, Rude país, O leilão, Na encruzilhada, e tantos outros que alcançam com rara beleza composições singulares na perícia e no cuidado com a linguagem expressada.
Esse é um poeta que, por uma natureza discreta, aprendeu a falar mais do outro, mas que ao falar do que está aparentemente distante acaba por aproximar-se também de si mesmo. A equação seria mais ou menos essa: o outro que se anuncia nos seus muitos poemas exprime em diapasão a fragmentação do eu lírico e por extensão a sua constante observação do cotidiano. A sua poesia parece funcionar como um ímã. Veja, por exemplo, Como eles morrem. Numa narrativa poética, vamos lendo a história real ou imaginária de diversos poetas e que aos poucos passamos a nos sentir íntimos de cada um deles abraçados com sensibilidade pelo poeta.
Parece ser recorrente na sua poética a presença de um sujeito fragmentado e que se revolta contra as mazelas da vida, da falta de oportunidade dos outros, das descrenças num mundo desigual. Resta a ironia como subterfúgio para suportar as tantas diferenças, como se lê em Mais-valia, um dos poemas que se destaca na antologia e nos alerta para as coisas aparentemente importantes. Aliás, a presença da ironia, muito mais que o humor, sobressai em diversos poemas da antologia como um procedimento crítico de se posicionar diante dos fatos do mundo contemporâneo. Mas a ironia parece se sustentar na poesia quando ultrapassa o seu tempo histórico e não se perde apenas num exercício de linguagem rarefeita. Dois exemplos de poemas extremamente irônicos e que se sustentam pelo que se propõem a dizer e não meros exercícios metalinguísticos: Crença na criação, Minilitania de política editorial.
De fato, a poesia de Marques procura dialogar com os outros como tentativa da compreensão humana, mas é a temática amorosa, ainda que em menor quantidade, que se destaca nessa antologia por abordar um tema tradicional na poesia lírica, mas que nessa reunião sobressai por trazer o lirismo amoroso numa condição ao mesmo tempo sublime e no rastro do cotidiano, desmitificando qualquer idealismo. No belo poema Enquanto dormes, com sua estrutura em quinze quartetos, acompanhamos quadra a quadra o olhar do sujeito lírico que se expande em um olhar demorado pelo corpo feminino nas suas formas externa e interna como se quisesse amalgamar a totalidade do amor físico e sublime. No seu oposto formal Casal visto de lado, composto em versos livres, após uma caminhada (o que falaram um para o outro?) vem um corte na noite e no amor ou foi somente na sutileza de uma palavra partida em duas: “amor / teceu”. Talvez porque naquele casal faltaram as três palavras “mágicas” do delicado metapoema Apenas 3.
A Editora Martelo, cujo nome é uma homenagem ao impactante poema O martelo, de Manuel Bandeira, reproduz na última página/colofão de suas edições os seguintes versos: “Sei que amanhã quando acordar / ouvirei o martelo do ferreiro / bater corajoso o seu cântico de certezas”. Assim como o ferreiro, poderemos continuar a ouvir o canto certeiro da poesia de Fabrício Marques, que é um dos poetas contemporâneos de enorme perícia na forma e no sentido.
Mário Alex Rosa, mora em Belo Horizonte – É autor dos livros: Ouro Preto – poemas, Ed. Scriptum, 2012, Via Férrea, Ed. Cosac Naify, 2013, Casa, Impressões de Minas, 2020, Cartas ao mar, Ed. Scriptum, 2023, ABC futebol clube (infantil), Ed. Aletria, 2015, Cosmonauta (infantil), Ed. Aletria, 2022, Formigas (infantil), Ed. Impressões de Minas, 2024 e Flor(ainda)esta, edição especial, 2026.
