Só isto aqui é o tempo
E a eternidade.
E olhamos pela primeira vez
encerado e impressionante
o nariz de um cadáver
que nos é abrupto
sempre malcolado com a realidade
enquanto as lágrimas, incompreensíveis para crianças,
contudo alguém explica,
a mãe, o pai, a avó, o tio,
que há uma coisa a meio, uma coisa que parece triste
carente de nome
triste e mórbida e pesada
alastro
âncora
ancorastro
asaça
arrastro
azaraço
agacho
balaço
balastro
alabastro
couraço
couração
gancho
esta coisa que parece tão além do acalanto do alento
mata um pouco sentir,
profundo e denso e machucado e rasgado
a tensão entre dentro e fora da bolha
alguém me olha no olho, olholha,
é meu filho, somos nós?
— O que é isto?
Era eu diante de minha avó morta
mareado e marejado,
não era mais ela
e eu carecia dela e não sabia…
Não,
sou eu agora que – Orpheu, Apollon, Sybilla –
sou eu já explicando a meu filho:
— Isso cá é a morte,
já isto aqui, o amor.
Seus olhos dizem tudo, piscamos,
nos abraçamos.
Somos despreparados e estamos tristes
ao falarmos disto
a m o r t e
Danilo da Costa-Cobra Leite, 42 anos, nasceu na porção ocidental da cidade de S. Paulo do Rio Tamanduateí, é servidor público, doutor em Letras e escritor. Irene ou da tensilidade (Kafka, 2025) é seu sétimo livro. Publicou outros seis livros: Paralithomaquia (Patuá, 2015), Nhe’enga a more quixotesco (Kotter, 2019), Nenhuma chuva em vão: quebra-cabeça (Caravana, 2021), Epyka (Mentes Abertas, 2021), 24 horas-haiku (Mentes Abertas, 2021), e Caminho das aves (Kotter, 2025).
