Traduzido por E. A. Meneghin
Alda Merini
Amei ternamente docíssimos amantes
sem que eles jamais soubessem de nada.
E teci sobre eles teias de aranha
e fui presa da minha própria matéria.
Em mim havia a alma da puta,
da santa, da sanguinária e da hipócrita.
Muitos deram ao meu modo de viver um nome
e fui somente uma histérica.
(do livro La Gazza Ladra, que não traduzo o título por se tratar de referência à ópera de Rossini)
§
[Sem título]
César amou Cleópatra,
eu amo o divino Pedro
que não lidera nenhuma guerra,
que é somente comandante da saudade,
mas meu leito pobre
jaz no solstício de verão
e é um ousado triclínio
quando ele, à noite, tomado de amor,
me diz palavras de patriotismo secreto.
(do livro Le satire della Ripa, que traduzo como As sátiras da margem)
§
[Sem título]
Escuta o passo breve das coisas
— bem mais breve que tuas janelas —
aquele sopro que sai do teu olhar
chama por um nome imediato: tua mulher.
É feita de sombras e ciclames,
pede o teu mistério
e tu não sabes dar.
Com as mãos
roças perfis de uma longa série de sinais
que se chamam rimas.
Abaixo, creia,
há presença real de folhas;
um caminho inacreditável
que se torna uma meta de coragem.
(do livro La volpe e il sipario, que traduzo como A raposa e a cortina)
Alda Merini
Amai teneramente dei dolcissimi amanti
senza che essi sapessero mai nulla.
E su questi intessei tele di ragno
e fui preda della mia stessa materia.
In me l’anima c’era della meretrice
della santa della sanguinaria e dell’ipocrita.
Molti diedero al mio modo di vivere un nome
e fui soltanto una isterica.
§
[Sem título]
Cesare amò Cleopatra,
io amo Pierri divino
che non conduce nessuna guerra,
che è solo condottiero di nostalgia,
ma il mio letto povero
giace nel solstizio d’estate
ed è un audace triclinio
quando lui a sera in vena d’amore
mi dice parole di patriottismo segreto.
§
[Sem título]
Ascolta il passo breve delle cose
-assai più breve delle tue finestre-
quel respiro che esce dal tuo sguardo
chiama un nome immediato: la tua donna.
È fatta di ombre e ciclamini,
ti chiede il tuo mistero
e tu non lo sai dare.
Con le mani
sfiori profili di una lunga serie di segni
che si chiamano rime.
Sotto, credi,
c’è presenza vera di foglie;
un incredibile cammino
che diventa una meta di coraggio.
Alda Giuseppina Angela Merini (1931-2009) foi uma escritora e poeta italiana. O poema “A outra verdade. Diário de um abandono” (L’altra verità. Diario de una diversa) é considerado por alguns como sua obra-prima, Scheiwiller, 1986. Em 1996, foi indicada pela Académie Française como candidata ao Prêmio Nobel de Literatura.