Thomaz Albornoz Neves
Sant’ Ana do Livramento – RS
As cartas ocultas é um livro de Floriano Martins que vem sendo preparado diretamente para as páginas virtuais da Especiaria. Em sua essência, o livro reúne sua correspondência, passiva e comentada, com inúmeros poetas hispano-americanos, a maioria que ele entrevistou para um outro livro, Escritura conquistada. Além desses poetas, As cartas ocultas inclui a fortuna epistolar com o brasileiro Ivan Junqueira, o espanhol Jorge Rodríguez Padrón e o francês André Coyné. A cada mês publicaremos um capítulo do referido livro, que se inicia com a presença de Per Johns (Rio de Janeiro, 1933-2017) – uma seleção mínima de cartas datadas de 1998-99.
Capítulo 1 – Per Johns, com a desculpa da espontaneidade
A minha amizade com Per Johns (1933-2017) foi uma dádiva que nos foi dada pelo amigo comum Ivan Junqueira. Após anos de diálogo epistolar, em 2008 tive a oportunidade de lhe dar um abraço quando o convidei para integrar a programação da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, da qual fui o curador. Contudo, a própria ousadia do evento – cuja pauta, sob o tema “A aventura cultural da mestiçagem”, incluía nada menos do que 140 escritores brasileiros e hispano-americanos – não nos permitiu ir além da troca de poucas palavras. Desde o princípio de nosso diálogo, Per teve a percepção de meu interesse pela literatura hispano-americana ou, quando menos, uma decisão por ir além do âmbito linguístico do que ouso aqui chamar de língua brasileira. Os livros mencionados de modo incompleto são: Cemitérios marinhos às vezes são festivos (1995) e Navegante de opereta (1998), dele, e Los tormentos miserables del lenguaje y las seducciones del infierno en los instantes trágicos del amor de Barbus & Lozna (1998), meu, escrito originalmente em espanhol e somente publicado, com prefácio de Ivan Junqueira, posteriormente ao envio dos originais, meses depois, a ele, que também menciona “Colunas circulares”, não um livro, mas sim capítulo de Tumultúmulos (1994). A nossa correspondência radica justamente no que ele próprio observou acerca do aspecto algo desalinhavado de suas observações sobre um livro meu: cuja única desculpa é a espontaneidade. Dentro do espírito da espontaneidade, através de nossas cartas pude aprender a ir revelando algo que trazia em meu íntimo sem a menor maneira de precisá-lo: a sensualidade espírita que iria ganhando vulto tanto em minha criação como na própria vida, no modo como saí (de mim?) em busca de outras geografias, de outras vozes.

Rio, 27/10/1998
Caro Floriano Martins
Fiquei muito feliz de receber por mio do Ivan Junqueira seu excelente “Escritura conquistada”. Sensibilizou-me a lembrança. Mas mais feliz ainda fiquei quando o li, pela dignidade intelectual dos enfoques e a inteligência e talento das perguntas dirigidas aos autores, muitos dos quais – por ignorância – eu sequer conhecia de nome. Isso para não mencionar a justeza sucinta – mas que contém o essencial – das introduções a cada poeta.
A sua menção a Stefan Zweig na entrevista de Donizete Galvão – sem que eu conhecesse seu texto ou você conhecesse o meu – tangencia medularmente a “Décima imagem” da segunda parte deste “Navegante de Opereta” que estou lhe enviando. O pior da guerra é que seus horrores são por assim dizer higienizados com a traição das palavras, justamente a ferramenta de trabalho de quem precisa se concentrar na poesia. O caminho do caos. Sabiam-no não só Stefan Zweig como Primo Levi, este duplamente traído, nos campos de concentração e nas palavras com que o acusaram de fraco. E o próprio William Styron relata que o início do plano inclinado de sua depressão se dá justamente numa dessas solenidades – a entregar do Prix Mundial Cino del Duca – em que o que vale não é a palavra, mas as palavras sem raiz e morada.
Mas resumindo, gostei muito da ideia de seu livro de tentar restaurar o valor das palavras. Você e seus entrevistados o conseguem com brilho e pertinência.
Abraço
[Per Johns]

Rio, 10/11/98
Caro Floriano Martins
Agradeço “Alma em chamas, Escrituras surrealistas” e os diversos artigos esparsos, inclusive sobre nosso saudoso José Paulo Paes, que tanta falta faz. Torço para um bom lançamento de “Alma em chamas” amanhã, 11/11, que lerei com a atenção que merece a julgar por uma primeira visada colhendo coisas aqui e ali. Acho interessantíssima sua habilidade na alternância de ritmos, inclusive na eficiente apropriação da prosa, aproximando-se da largueza de um Borges (explicitamente homenageado) ao configurar uma espécie de escritura total, e fazendo pensar numa questão que me tem assoberbado: essa demasiadamente nítida distinção que no Brasil se faz entre prosa e poesia, ao contrário da fusão que as palavras inglesa (fiction) e alemã (dichtung) pressupõem. Dichter (ou no escandinavo digter) é o artista da palavra latu sensu e não apenas o poeta. Em português falta a palavra. Borges é um dos melhores exemplos dessa fusão, validando o que você mesmo diz em artigo de “O Povo”: Borges converteu o poema, a ficção e o ensaio em um gênero único… Ainda outro dia, ao dizer a alguém – e não era um ninguém – que Frederico Gomes me havia pedido uma orelha ou prefácio para seu próximo livro, ouvi a resposta surpreendente: Mas ele é poeta e você, romancista. Zweig, que ambos mencionamos, vai um pouco além quando se desespera com o que chamei de traição das palavras ou banalização oportunista do discurso, ou seja, as palavras passam a significar o contrário do que dizem e adaptam-se aos ouvidos em vez de educá-los.
De qualquer forma fico muito feliz de saber que existe um dichter de sua envergadura em Fortaleza, uma cidade de que gosto muito e que sempre me faz lembrar um Rio de Janeiro que já não mais existe. Pena que as oportunidades de lá ir sejam tão poucas.
Abraço do
[Per Johns]

Rio, 25 de novembro de 1998
Caro Floriano,
Muito grato fiquei pelas suas agudíssimas observações sobre meu “Navegante” e acho que você acerta na mosca ao dizer que não se trata de um exercício de despersonalização, mas antes de uma viagem ao mais profundo de si mesmo. Achei curiosa sua menção a Qorpo Santo, que conheço apenas de referência. É uma dessas figuras fantasmais da literatura brasileira. Como você pediu, apresso-me a mandar-lhe (antes que você desista da ideia) os dois outros livros da trilogia. São diferentes do “Navegante”, um tanto mais maçudos, senão maçantes, na sua ânsia obsessiva de romper as paredes desse dilema do anfibismo cultural, expressão que o nosso saudoso José Paulo Paes teve a felicidade de cunhar.
Continuo degustando “Alma em chamas” encantado com sua alternância melódica. Para certos textos que me agradam sou um leitor lento, gostosamente lento. Têm hora e vez. O que vem a ser, parece-me, uma diferença básica de poesia para a prosa, ou antes para o prosaico, já que a prosa que canta (como a sua) é poesia da mais alta cepa. Nesse sentido, fiquei curioso com o seu em curso As sobras de Deus (belo título que eu gostaria de roubar), sobretudo porque, como você diz, trata-se de um diálogo de personas diferentes. Faz-me lembrar de algo que não me é estranho!
Semana passada nosso Ivan Junqueira lanço em concorrida noite de autógrafos “O fio de dédalo”, que inclui o ensaio sobre “Los tormentos del lenguaje”…, cuja tradução leio agora. Como foi que nasceu o original? E como foi traduzi-lo? Explico minha curiosidade: há tempos fiz um cotejo entre os originais ingleses de “Seven gothic tales” e a tradução dinamarquesa feita pela própria Karen Blixen (ou Isak Dinesen). Mas a tradução é um outro texto. Ou seja, a prosa dinamarquesa adquiriu uma amplitude e musicalidade que o original não tem. O original inglês apenas conta (não canta) uma história. A tradução foi capturada pelo espírito da língua, no sentido que lhe deu Wittgenstein: Os limites da minha língua são os limites da minha vida. Mas eis aí uma discussão que vai longe. No entretempo, receba o abraço amigo do seu
[Per Johns]

Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1999
Caro Floriano,
Custei um pouco a responder sua última carta com a versão impressa de “Sobras de Deus”, porque queria pelo menos ter tempo de uma segunda leitura, não uma leitura qualquer, mas a de seu texto, com seu própria ritmo e idiossincrasias (só para descobri-las já se leva um certo tempo).
Inicialmente, fico feliz por você manter o título que, como já disse, acho muito bom, mas não só muito bom, também especialmente sugestivo (comprovei-o com a leitura) do clima do relato com seu diabolismo de afirmar o que normalmente se nega, em nome de Deus, justamente.
Não é, entretanto, texto que se lei com um olho na trama e outro no fim. O que nele mais me agrada (e que o título espelha) é sua insistência em contar a história que se esconde nos desvãos da história oficial. Por trás do curriculum vitae de Pequeno Ansioso, Alfredo Aquilino e Mãe Dolores. Dos personagens, o único que vive na superfície – e depende de não sair dela sob pena de desembarcar numa fraude existencial – é Anselmo Calamares, o mais oficial e não por acaso o menos significativo. Agrada-me sobremaneira este entretecer-se do que importa e do que não importa (ou inconfessável), e que acaba, num segundo plano, tornando-se uma espécie de dialética entre ficcional e real, poético e fatual, em suma, entre o que falsifica e o que aprofunda a fibra do humano.
As sugestões em torno de Mãe Dolores são magníficas e fizeram-me lembrar uma observação de Milan Kundera em “La lenteur”, quando se refere – louvado em Apollinaire – a uma certa inesgotabilidade do feminino e que se sintetiza na expressão (ainda de Apollinaire) le trou du cul, o momento em que o corpo, finito, cede lugar a alguma coisa maior que apenas se vislumbra, real e imponderável a um tempo só, como se fosse a terra de Molly Bloom desembocando ou se evolando na imaterialidade fluvial de Anna Livia Plurabella. Intriga-me sobremaneira esta confluência do carnal no espiritual, Mãe Terra-e-Céu ou Mãe Inconsciente Coletivo, de onde fluem divindades spinozistas. Ou ainda, nas palavras do misterioso narrador de “Sobras: a Horrenda Múltipla Divina Negra Puta Devastadora Prolífera”. O outro lado, o mundo oficial, quer resgatá-la disciplinando-a ou anulando-a. E pois, que espécie de mundo é este, em que sou salva de mim mesmo por ser várias?
É uma leitura instigante, em que sinto inúmeros pontos tangenciais à minha própria literatura (ou obsessão). Curiosamente só me assenhoreei – se é lícito dizê-lo assim – de seu romance aberto (Eco) depois de uma segunda leitura. Na primeira, talvez pelas interrupções e pelas tensões do ambiente, ou pela hora do dia (vida cronobiológica), eu havia esbarrado numa parede opaca. Já na segunda, em momento mais propício, a parede (minha, naturalmente) abriu-se e pude fruir o texto, como quem sai da água para o vinho. Fenomenologia da leitura. De certo modo, é mais difícil aprender a ler do que escrever (de minha parte levei uma vida inteira, e não sei se já aprendi). Ocorreu-me a pergunta: ainda é possível ler num sentido vertical em tempos puramente horizontais, que abarcam cada vez mais (informação) e, no fundo, cada vez menos conhecimento que radica? A rapidez desconhece o metabolismo e estilhaçou a janela de vulnerabilidade da memória. Corre como a água na pena do pato, mas não fica. Ainda o outro dia ocorreu-me a estranha ideia de que se reduzisse minha biblioteca a dez por cento do total, ainda assim teria leitura e descoberta para os próximos cem anos. Cada releitura é uma nova leitura e uma nova descoberta. Os desvãos são inesgotáveis. Os livros nos elegem, não há dúvida. Um outro santuário esboçava-se a cada livro relido, disse-o você mesmo.
Intrigou-me em “Sobras” a epígrafe do mágico Harry Houdini e, mais, é quase como um tomar partido do lado dos não-loucos e defensores das platitudes que se provam, ou não são. Ao dizer pretenso mundo dos espíritos, Houdini tomou partido contra si mesmo. E Pequeno Ansioso quanto a Mãe Dolores? E o narrador? E você? Prova-se o improvável? Mede-se a distância da Terra ao Céu com uma fita métrica?
O mínimo que posso dizer de “Sobras de Deus” é que é um texto germinativo, propício a fartas pescarias poético-filosóficas, livro de um dichter (intraduzível em português). Mas devo desculpar-me pelo aspecto um tanto desalinhavado destas considerações, cuja única desculpa é a espontaneidade.
[Abraça-o o já velho amigo, Per]

Rio de Janeiro, 10 de março de 1999.
Meu caro Floriano,
A riqueza de tua carta me obrigou a relê-la e deixa-la fermentar um pouco antes de responder. Apesar do estado de fricção em que também ando sem saber bem para onde, tentarei fazê-lo com um mínimo de ordem. Dizes que o feriado serviu para intensificar um método de trabalho, um método de vida… Deixou-me curioso. Eis algo de que ando muito precisado.
Começo pela fragmentação. A organicidade a que me referi diz respeito à vivência, que sempre anda aos pedaços numa mistura inextrincável de monólogo consigo mesmo, diálogo com o outro e circunstância exterior, aquilo que tanto me fascina no “Ulisses”, de Joyce. É uma organicidade necessariamente esfacelada, onde cada caso é um caso, pessoal e intransferível ou apenas transferível por meio de uma tradução. Traduzimo-nos unas aos outros sob pena de sermos incomunicáveis. Ou então falsamente comunicantes. E afinal o que interessa é o outro lado do curriculum oficial, a mina de temores e tremores que agitam Pequeno Ansioso e Mãe olores no Pê Jota e João Fusco. Percebo a mesma coisa em tuja poesia, curiosamente montada em versos staccato que se entremeiam num todo significativo, mas que podem ser pescados como peixes que têm vida em si só. Vem daí minha plena compreensão do que disseste a respeito do Navegante e do diário de bordo dos outros livros. Acredito que eles se prestam sobretudo a pescarias e, por outro lado, o Navegante pode ser considera o peie do mar algo e revolto dos outros dois livros, o que sobrou, e pode ser encontrado em peixinhos menores (o espelho de novo) que nadam e aqui e ali at random. Certos peixes, aliás, são livros inteiros, como os encontro tanto na prosa (soi disant) das Sobras como na poesia (que não se limita) de “Alma em chamas”.
De fato, Kundera. O pensamento que não é dançante deixa de ser pensamento; torna-se arenga. A exemplo do que Kierkegaard via em Hegel – seu alvo preferido – e na pesada metafísica alemão. Zaratustra bebe nessa fonte. E faz com que Nietzsche tenha mais afinidades com Hölderlin o que com Kant. Há uma antologia de textos de Kierkegaard em que os autores (Henrik Stangerus e Roger Poole) fazem uma magnífica pescaria nas águas dançantes do pensamento de Kierkegaard. E não por acaso intitulam o livro: “O mestre da dança” (Dansemasteren).
Dizes: O etéreo não é sensual. É outra forma de fascínio. Aqui discordo. Comunicam-se e dependem um do outro. Só existe etéreo se radica, assim como só existe alma se houver corpo, como na definição de Allan Kardec: Alma é espírito encarnado. Se o etéreo não fosse também sensual, deixaria de ser perceptível a nós, que somos sentidos e corpo. O fascínio do etéreo deriva do fascínio do corpóreo, como na divisa dos alquimistas: O que está acima comunica-se com o que está abaixo. Torna-se uma coisa só. Horror e êxtase. O coito místico. O que nos leva a Houdini e de volta ao espiritismo e a essa estranheza crucial que indaga: sem sentido, como é possível sentir? Ou será o espírito uma nostalgia do corpo? Uma saudade? Tudo isso me vem a propósito de longa correspondência que tenho mantido com uma leitora minha, que é espírita, médium, e que me revelou coisas espantosas a meu próprio respeito. De quem sou reencarnação (ões)! E assim por diante. É uma experiência que em grande parte determinou a escrita de Fata Morgana (3ª parte do Navegante). Navega-se em pleno mistério, mas sem o barco do corpo não se é nada.
E por falar em gênese de trilogia e, aliás, de todos meus livros, acertas na mosca quando dizes que foi concebida como um aprendizado sobre cada escrito, a partir de. Cada livro é o aprendizado do anterior. Mas há um elemento adicional: a surpresa, o inesperado, a súbita iluminação de um capítulo a partir do anterior, por vezes com uma guinada de sentido e direção, a redescoberta de antigas notas e fragmentos (a magia das gavetas). “O Navegante”, em especial, a partir de “Um dilema” tomou um rumo inteiramente imprevisto, senão indesejado por mim. Eu havia enguiçado e comecei a escrever a série de retratos como coisa outra e autônoma, antes de descobrir que eles completavam, na diversidade, a própria face de “Dilo Dilemático”. Eram, por assim dizer, seu sentido. A epígrafe de Maxwell, um físico e matemático inglês, não é acidental.
Acabei falando demais de mim mesmo, com o risco de acabar não dizendo o mais importante: voltando ao primeiro parágrafo da carta, sobretudo no que tange ao método de trabalho, pergunto: onde arranjas tempo para fazer tudo o que fazer? As entrevistas monumentais, as conferências, Borges e Burroughs, César Moro, Rolando Toro, Américo Facó etc. Comigo ocorre o contrário: quanto mais tempo tenho, menos consigo fazer. Fale-me do milagre.
Sobre-me pouquíssimo tempo. Ainda agora ando às voltas com uma resenha que aceitei fazer sobre a “Poesia reunida” da Dora Ferreira da Silva, por sugestão, adivinha de quem?, isso mesmo, do nosso Junqueira. Deve-se a paralisia em parte à admiração que tenho por sua poesia, mas não só, também por sua arte tradutória e seu engenho ensaístico. Conheci-a pessoalmente por causa do Vicente, que não cheguei a conhecer, mas suja filosofia me marcou profundamente desde a época da revista “Diálogo”, de que Dora era cofundadora e colaboradora. Numa época de cansativa secura ideológica, descobri com Dora e Vicente a dimensão do sagrado, o outro lado do nosso legado do deserto, o título, justamente, de um ensaio do Vicente. Como disseste muito bem, a poesia de Dora é solitária e abnegada, como é a filosofia do Vicente. Mas confesso que me espantam os equívocos e a rejeição que cercam estas obras altíssimas, complementares uma à outra. Vicente e Dora foram mais do que marido e mulher.
Entretanto, creio que uma parte da resposta para esta unanimidade do silencia, que cerca Vicente e Dora, foi desvelada na excelente entrevista que concedeste ao Estadão. Possivelmente, são as mesmas as forças que entronizaram poetas como Cardenal e Neruda em detrimento de nomes como Cuadra, Cabrales ou Casanueva. Uma espécie de ditadura do gosto ou mau gosto, por motivos outros que não a poesia. Se houvesse um mínimo que fosse de suspension of disbelief… Mas não há. Julga-se antes de conhecer. Entre outras coisas, sintoma de preguiça.
Mas voltando ao tempo, ou falta de, fico imaginando o que seria se pudéssemos acrescentar ao que fazemos a riqueza do que não fazemos, vale dizer, aqueles instantes de fermentação em que aparentemente nada acontece, mas tudo aconteceu. O escritor dinamarquês Henrik Stangerup – he dead – costumava dizer que a parte mais importante de sua obra não tinha sido escrita, estava nos momentos em que fermentava, plenos de angústia e êxtase. Só uma pequeníssima parte desta riqueza transparecia na obra, mas tinha existido. É como a memória: que parcela é recuperável, resgatada do turmoil? É uma boa pergunta a ser feita aos Pequeno Ansioso.
O tumulto desta carta também é uma espécie de fermentação. Pesque o que prestar. O resto, jogue fora. Em tempo: agradeço tua indicação de meu nome para o centenário de Borges. E quanto ao JT, é uma ideia, por que não?
[Grande abraço, Per]

Rio, 8/4/99
Meu caro Floriano,
Talvez eu me tenha expressado de forma inadequada se dei a entender método de trabalho e não o que verdadeiramente é, capacidade de trabalho – capacidade de fazer muita coisa díspar ao mesmo tempo. De minha parte, sou exasperantemente lento, além de necessitar de uma ciumenta concentração para cada coisa que faço, uma de cada vez, e olhe lá. Geralmente trabalho muito sem fazer nada. Nos últimos dois meses consegui a muito custo fazer duas orelhas: uma para o Frederico Gomes e outra para uma tradução do americano gótico Ambrose Bierce, e una resenha de “Poesia reunida”, de Dora Ferreira da Silva, para O Globo, que ainda não saiu. Eventualmente trocaremos resenhas sobre a mesma Dora, que você também prepara. É uma poesia altíssima, mas pouco reconhecida, como você muito bem lembrou. E pois parei com minhas próprias escrevinhações, pois me falta o que quis dizer acima: capacidade de trabalho, seja com método ou não. Tudo me parece excessivo.
De Marco Lucchesi gosto muito, embora não o conheça pessoalmente. Li “Saudade do Paraíso”, um estilo raro no Brasil, sem desbordamentos, mas também sem pomares às avessas, ao modo Cabral. Há pouco tempo atrás tive a surpresa de saber que ele era meu leitor. Mandou-me uma carta muito generosa com referência à trilogia.
Você me pergunta sobre esta nova eclosão de prosadores, e mais: sobre como leria o engodo entre prosa e verso? A rigor, devo responder que tenho acompanhado mal o que se escreve e edita por aí. Gosto de Raduan Nassar e Cristóvão Tezza, mas não me entusiasmam. Não gosto de João Gilberto Noll. Mas repito, conheço pouco, quase nada e talvez porque me sobre pouco tempo depois da leitura de Borges, Sábato e o nosso Rosa, andei relendo “O lobo da estepe”. Demoraria cem ou mil anos para reler tudo o que preciso. E diria, sem medo de errar, que “Sobras de Deus” não é um engodo. Tem stamina.
No momento, preparo as malas, depois de una cruciante indecisão que durou meses. No próximo domingo, dia 11, viajo para a Dinamarca, onde fico até o fim de junho. Acompanharei o bota fora de Cemitérios marinhos. E fui convidado pelo ICBRA para apresentar meus livros em Berlim. Espantosamente surgiram-me alguns leitores em Berlim. E claro, visitarei minha filha e a neta recém-nascida.
Escreverei de 1á. Se, no meio tempo, aceitarem a sugestão sua de convidar-me para o seminário Borges em São Paulo, peço-lhe que aceite em meu nome. Quando menos, seria uma oportunidade de nos encontrarmos e tomarmos umas e outras, embora eu já não seja o que fui em tempos idos, um bebedor de quilate. Em comparação, hoje beberico, tantas são as reclamações do fígado, rim (o único) e outras fisiologias. A alma quer, mas o corpo não deixa; se aburguesou. Mas nada que impeça um papo caloroso.
E a ABL? Ainda o outro dia eu me perguntava o que faria o poeta Ivan Junqueira na companhia de diplomatas, médicos, burocratas e fazendeiros? De letras, quais?
Esta carta vai em staccato, premida por inúmeras e urgentes preocupações, reais algumas, a maioria, imaginária, É como se de repente me faltassem os sentidos, ou, por outra, como se caminhasse sobre trapos de sentidos, para citar aqui o meu excelente Floriano Martins. Espero readquirir na Dinamarca certa tranquilidade de espírito, que me permita pelo menos pensar.
Se houver alguma coisa que eu possa fazer por você 1á por aquelas bandas, não se acanhe, peça, quem sabe as “Obras Completas” de Søren Kierkegaard, no original? Poderei ser encontrado no seguinte endereço:
XXX
Copenhague, Dinamarca.
No entretempo receba o meu melhor abraço,
[Per Johns]
P.S.: Ia esquecendo de dizer que a Record aceitou reeditar a tradução que fiz de “Lagoa Santa”, escrito por meu amigo, morto recentemente, Henrik Stangerup. Não sei se você já ouviu falar. É sobre o Lund (1800-1880), o homem dos esqueletos de Minas Gerais, uma reencarnação do espírito nórdico, hamletiano, no coração do Brasil. Tem tudo a ver com nosso país de anfíbios culturais (Paes), mas não teve ainda leitores.
Floriano Martins (1957) é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, editor. Criador e diretor da Agulha Revista de Cultura. Contato: floriano.agulha@gmail.com.
Per Johns (Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1933 – Teresópolis, 5 de abril de 2017) foi um escritor e tradutor brasileiro de origem dinamarquesa. Publicou sete romances e um livro de ensaios (Dionisio Crucificado, 2005, pela editora Topbooks), além de diversas publicações no exterior, em dinamarquês, italiano e norueguês e escreveu diversos prefácios e posfácios. Traduziu diversos contos de Hans Christian Andersen para a Editora Kuarup, Isak Dinesen de Karen Blixen e diversos textos e obras de Henrik Stangerup e Ingmar Bergman. Algumas das suas obras foram publicadas na Dinamarca, como As aves de Cassandra e Sonâmbulos, Amotinados, Predadores.
