POESIA

Poemas de Augusto Hendricus

Imagem: Quebrando minha coluna, Daniella Domingues, 2015/2024. Foto: Dea Vieira.

No jogo das luzes e das sombras, uma mão vibrante
atravessa signos sobre uma imagem cega.

Maria Angélica Melendi.


Para Elisa e Maria

O lírio-da-paz da casa de minha avó germinou quando nasci, disse minha mãe. Imanência vegetal? A transfiguração de um corpo, uma permanência? Ao longo dos anos a planta se renova sem dar muita notícia da sua insistência pela vida. Entre mil auroras e outros mil crepúsculos, uma face se transforma pelo gesto enamorado de fazer bainhas de crochê em panos de prato e centros de mesa. Brota um coração aberto à comunhão de peles que se tocam na floração alva do jardim. 

§

Para Bruna

boca sem língua
a buceta de mil camadas
o segredo sem retorno.

velamos o gozo na fuligem 
no inchaço trêmulo
nuances do aroma.

emaranhados em liberdade
afirmarmos o mistério
a linguagem oca de cada flor. 

na expressão do amor
a amizade é banhada por uma luz 
que reafirma a presença do coração
como nascente e verbo. 

§

Para Albino,

lua sobre o relógio de sol. minhas mãos desdobram uma carta nunca lida, ainda a ser escrita. um desejo revelado como numa abertura para passagem de luz chegando aos nossos ouvidos num sussurro de mãos quentes. para cada dobra desfeita, vejo seu corpo se abrir à primavera, ao canto das pedras à beira mar. uma imagem da fantasia, um desejo do real turvam seus olhos. nos entrelaçamos ao sudário. corpo e palavra como uma entidade findável, falível e eterna. 

§

Para Dayane,

sete vidas crochetadas.

aprendo contigo
as palavras necessárias,
o momento oportuno para o repouso.

escrevi num papel qualquer
sem vocação para ser poema
— sempre forte, sempre valente.

um voto,
um pacto silencioso 
sela o laço da vida ordinária,
o nó extraordinário do invisível.

você faz uma cuia com as mãos
para me dar de beber.
um cuidado silencioso
como a fé de que a cada primavera
o espírito se renovará no aroma do jasmim.

§

Para Daniella,

que faz da matéria voluptuosa a impermanência do desejo.

com a certeza de uma cartomante 
você me diz sobre um sonho dourado
boca cheia de dentes reluzentes.

sua clarivisão cheira a karê
os dedos apontam firmemente para a geometria do mapa
— bestas do além-mar, o peso de Saturno sobre nós. 

o tempo em eldorado se dissipa
na fumaça dos cigarros que tragamos
entre escórias, látex como peles.

numa película P&B
sonhamos uma imagem vaga 
um vulcão excitado
a sorte da contemplação 
de um par de anjos 
sobre a casa da fortuna.

§

para Dolores,

que, semelhante em São Tomé, me ensinou a tocar no magma da vida.

uma cor habita você
como a fé encarnada nos monges,
o primeiro choro do recém nascido.

vejo a esperança na luz imóvel do meio-dia
a hora morta do verão.

Augusto Hendricus (1990, São Carlos – SP) vive e trabalha em Belo Horizonte. Graduado em Artes Visuais pela UFMG, é artista gráfico, escritor e costureiro. Se ocupa de temas que se entrelaçam, se contaminam: o erotismo, a morte, o amor, a melancolia, o sagrado. Isso se materializa na forma de imagem e palavra em dinâmicas de encontro, choque, contradição, justaposição, referência, fragmento, repetição. Mais precisamente, na escrita de poesia, na produção de imagens a partir da técnica de frottage do seu próprio corpo, do trabalho de uma escrita-desenho e na criação de superfícies gráficas sobre papel. Uma paisagem de materialidades diversas, sobrepostas umas sobre as outras, assim como os próprios temas se deitam uns sobre os outros. 

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