Lucio Carvalho
Bagé – RS
Publicado postumamente, em 1960, para a Editions Abin Michel, a editora 100/cabeças trouxe em 2023 para o Brasil, em tradução de Alexandre Barbosa de Souza, a “Antologia de mitos, lendas e contos populares da América”, que Benjamin Péret coletou e produziu durante a após os períodos nos quais viveu no México (1942-1947) e no Brasil (1929-1931 e 1955-1956).
Péret, um surrealista da primeira hora, fiel ao preceito de revelação do maravilhoso nos relatos arcaicos, trabalhou longamente em documentação, literatura e principalmente em contatos pessoais que teve com as populações ameríndias. Esteve com os Karajá da ilha do Bananal, visitou os Xavante na região Centro-Oeste e foi à Amazônia conviver com os Mehinako e Kamaiurá do alto Xingu, na companhia do indigenista Orlando Villas-Bôas. Ao passo que travava conhecimento com a realidade presente, Perét compilou lendas e relatos num ampo registro bibliográfico. A um tempo só servindo de testemunha e repórter, o trabalho de Perét fez com que dialogassem o modernismo e a etnografia contemporânea, refletindo sobre suas experiências com os povos indígenas e introduzindo o conceito de “etnopoesia”.
Expulso do Brasil em 1931 ao ser considerado “elemento nocivo à tranquilidade pública e à ordem social”, não por isso Perét rompeu sua relação com o país. Casado com a soprano brasileira Elsie Houston, teve longa relação com os modernistas brasileiros. Com Elsie, teve um filho nascido no Brasil.
Traduzido por Alexandre Barbosa de Souza e apresentado por Michael Löwy, a edição é ricamente ilustrada e traz a apresentação do original em francês, na qual ele expõe o projeto e as crenças que orientam o livro. Para quem “o maravilhoso está em toda a parte, em todos os tempos, a todo instante”, Perét coligiu desde epopeia a pequenas lendas tradicionais. A seguir, selecionamos um relato anônimo proveniente do Peru e que relata o impacto do encontro dos colonizadores espanhóis e a população nativa. O livro pode ser obtido por meio do link de acesso disponíveis na seção de “livros” da Especiaria.
Foi preciso muito
pouco tempo para os indígenas do Peru julgarem pelo
justo valor os invasores cristãos, e um pouco mais para
que a hostilidade dos indígenas se traduzisse em lenda: |
Benjamin Péret (1899-1959) foi um poeta surrealista francês, conhecido por sua militância política e por ter sido expulso do Brasil pelo governo Vargas, onde viveu entre 1929 e 1931. Ele coeditou a revista surrealista La Révolution surréaliste, lutou na Guerra Civil Espanhola e viveu em exílio no México, retornando à França após a Segunda Guerra Mundial. Péret é considerado um dos mais importantes poetas do surrealismo e um exemplo de artista engajado com o marxismo revolucionário.
