POESIA

Poemas de Cavito

Imagem: Darkened the Chain of Islands With Its Shadow, Jean de Bosschère, 1923.

O CHAMADO

Me chamam ao solo,
o equilíbrio febril da fertilidade,
da vida sustando a rocha bruta
acolhendo seres plantas grutas.

Me chamam ao ar,
ao não lugar entre aves e gases
dissipam-se cheiros no vão impudente,
corpo ausente em território presente.

Me chamam ao laço,
a compressão entre seres, dubitável espaço
tensionado aos desejos de Pã dos bosques
que sela presentes ao deus Sou Homem.

Me chamam ao corte,
a essência ríspida da fatalidade,
o cessar do eterno pincela na vida
o movimento primeiro do eterno cessar.

Entre o solo e o ar, caminho.
Entre o laço e o corte, estimo.

§

ARQUIPÉLAGO

Uma ilha é vulcão,
em meio a águas e peixes,
o romper de fogo, enxofre e cristalização.

Outra ilha é pedra,
fragmentos de ossos e ovos,
que o vento leva num movimento indócil.

Outra ilha é flor,
apenas pólen deixa que levem.
No belo corpo da ilha, a suspensão levita.

Outra ilha é só rastros,
vestígios se agitam faustos,
construindo as formas do amanhã.

Braços d’água
evacuam os destroços das ilhas
enquanto compõem delicadas

a fertilidade das margens.

O estável sumo da terra pelo inevitável fluxo das águas.

As ilhas são um arquipélago,
eis uma ideia oportuna:
ao mesmo tempo plural e una.

§

CORPO

Encarnado? Qual o quê dentro,
se o fora todo é muito?

Antes, carne pensante.
Antes, ossos de pele.

Cesse corpo de criar ideias
fora dos corpos.
Cesse mente de criar corpos
fora dos ossos.

Cessem fissuras.

Que eu seja corpo antes do romper da lâmina: nem que a tenha de tê-la dentro, encarcerada, produzindo o sangue que aqueça minha pele na sua.

§

ENTRE NÓS

Mas sempre esteve lá
entre você e eu
uma poeira
frequência
gota
átomo
lei
[ ]
e entrelaça-nos

e se fosse um
cítrico
a distância
entre o ar que expiro e sua fronteira
qual sua natureza?

e se fosse
aço
entre meu corpo e o seu
qual o cansaço?

e se fosse
riso
o perímetro
qual o prejuízo?

Não há nome
que resuma seu possível,

com mãos soltas e atentas
observo entre nós atuar o infinito:

a paisagem se abre
para nunca mais fechar.

§

O RUÍDO E O RESTO

O ato que falha, a ordem que escapa:
translúcido real que rasga teias,
céu negro, sem vestígios de lua guia.

É o som que não é meu andar.
Nem carros, nem quaisquer máquinas.
E mesmo assim, ondas – que movem.

Ocultas da ordem, e se movem.
O ruído atravessa o composto, a alma do mundo.
Afirma a feição, sublima os contornos.

Algo diferente é o resto, este é silêncio:
translúcido real de ausentes teias,
soma densa e igualitária das cores.

§

HÁBITO

I

É uma pedra presente em mim
entre frisa escarpada pontiaguda
sobretudo pré-ocupa o interno.
E meus orgãos mantêm atenção
ao coordenar vitais expansões.
Se resignam a medir cada esforço,
mal compensado nas contrações.

Para com o mineral aqui dentro –
ser intempérie, causar fragmento.
Sua presença é puro processo
do qual eu sou o seu tempo.

II

A pedra agora é pequeno continente.
Se desfaz em solo e se diversifica:
é assim que se faz vida da vida?

Caio Vitor Bonvenuto, conhecido como Cavito, é natural de São Paulo e radicado em Botucatu, já atuou em projetos musicais, teatrais e audiovisuais, além de ter lecionado Geografia na educação básica. Seu livro de estreia foi finalista do Prêmio Jabuti. Os poemas desta seleção integram o livro Pequeno Continente (Laranja Original, 2025).

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