POESIA

Mortes variadas, haicais de Claudio Trasferetti

Imagem: Joris Hoefnagel e Georg Bocskay, 1596.

A terra abrigou
Um corpo que já foi gente:
Família enlutada.

§

Lua se escondeu.
No breu da noite de outono,
Meus mortos e eu.

§

Formou-se um tapete
Com flores mortas do ipê.
Um gari pragueja.

§

Rio canalizado
Apodrece sob a rua:
Leite derramado.

§

Chove na floresta
Que em breve será cortada:
Um porco na ceva.

§

Tragédia do bicho
Faz a festança do homem:
Sardinhas na brasa.

§

O mar decompõe
As criações dos moluscos:
Fim de um veraneio.

§

O medo da morte
E a mansidão das pastagens:
Olhar de um bovino.

§

O ipê centenário
Caiu no início do outono:
Pássaros em fuga.

§

Restos de um luau
Atraem ratos à praia.
Um gato os espreita.

Claudio Trasferetti é químico e leitor diletante.

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