CONTO, PROSA

A Primeira Ceia e Tristessa, dois contos de Daniel Françoli Yago

Imagem: Surprise, de E. Tapissier, revista Le nu au salon, Paris, 1901, 3me série, 1º volume.

A primeira ceia

Era meio-dia nos arredores do Jardim do Éden. O sol a pino fazia o corpo de Adão não projetar sombra, pois, nessa hora, Adão e sua Sombra eram unos.

O rapaz descansava debaixo de uma macieira, da qual se fartava de tempos em tempos. Os raios de sol começavam a macular sua pele. A pança cheia de conhecimento demorava a converter-se em sabedoria. Eva, entre chama e resplendor, o observava em meio a troncos, identificando no silvo ominoso dos galhos um grito não exprimido. Um flagelo de terror lhe brotava das entranhas quando, no zênite do dia, Adão postergava o entendimento de que, no relógio simbólico da condição humana, o raiar e o pôr-do-sol são eixos primordiais de orientação.

Não havia mais Deus para ditar o passo.

À medida que as pálpebras pesavam, o sono contaminava o corpo de Adão. Sua boca se abria lentamente. Sentia os dedos de sua Sombra brincando com a baba pegajosa, roçando-lhe a língua alumiada de tarde. De súbito, sente vontade de matá-lo, e seu indicador obscuro adentra a garganta de Adão, que acordava em sobressalto. Pensava-se engasgado pela força da gravidade sobre a barriga e virava-se de lado para continuar sua hibernação, enquanto sua Sombra disfarçava seu desejo assassino.

Cada vez mais, Eva se enfastiava com a sexualidade morosa do homem. Sua língua funcionava melhor do que o falo, pois era sua Palavra que dava sentido às coisas do mundo. Construía um império de nomes para suplantar o fato de que sua semente não falava por si. Adoecido de prosperidade, Adão não conseguia reconhecer o rumor das folhas, a voz dos animais, o som da luz. Julgava que sua Palavra era a única como um dia fora a do Pai.

Tendo feito tudo em conformidade com o desígnio supremo, Adão não aceitava a expulsão subsequente à curiosidade do outro lado do Reino. Por vingança, tinha erigido um jardim de delícias terrenas às margens do Éden para edulcorar o peso da ingenuidade. Ademais, um gosto adquirido por rebeldia fez com que ansiasse pelo retorno de Lilith, que, relegada, restava inscrita na categoria de excremento.

O meio-dia torna-se meia-noite com um pesar de pálpebras. Eva planeja sua partida, exílio derradeiro, desde o segundo seguinte à primeira expulsão. Dessa vez, sairia por vontade própria do império do homem direto para a terra dos demônios, o reino da lua nova, junto a Lilith. Nas noites de lua cheia, quando Adão e sua luz eram unos, ele estava protegido. No entanto, sob a lua negra, as deidades usurpadas se comunicavam com os dissidentes do Éden. Era quando Eva tomava lições das trevas. Pacientemente, iniciava-se nos mistérios do crepúsculo, aprendendo a cocção de venenos velozes, impingindo pequenas mortes, não registradas no cânone bíblico, aos seres ínfimos da Criação.

Em sua vigência, Lilith aproveitava a ocasião para se aproximar de Adão adormecido, experiente que era nas artes ladinas da marginalidade. Tramava com Eva, telepaticamente, um império por vir, aliança claroescura de duas égides, qualidades distintas de fertilidade e monstruosidade. De início, deixava-lhe pistas de sua presença, como roedores decapitados à soleira, ao amanhecer. Eventualmente, deitava teratomas pela vagina, que anunciavam as formas futuras dos prodígios apocalípticos. Na madrugada anterior à desforra, imprimiu a palma de sua mão na cara de Adão em sangue de cordeiro que, inebriado de maçãs, sequer acordou.

Tendo conhecido um mundo perigoso e abundante, Lilith não se condoía pela figura patética do antigo consorte. E Eva, astuta como coruja, nada dizia sobre a autoria das marcas. Tampouco delatavam os animais, ofendidos pelos hediondos nomes que ganharam do Homem.

Chegado o dia do exílio, Eva tira as folhas que lhe cobriam os seios e a púbis e recebe a mãe dos demônios como uma irmã. Aponta, com o indicador, onde Adão dorme. Lilith se aproxima e espiona com seu olho interior os sonhos que Oneiros transmite ao rapaz. São sonhos nostálgicos de um passado perdido, passado do nosso passado. Então toca-lhe a testa, fecha os olhos e lhe transmite o futuro que doravante reescreveria com sangue de cordeiro em seus dedos.

Começa com o Jardim do Pai em chamas.

Depois o incêndio se alastra para o Jardim do Filho.

Então, tudo que tem alma efervesce e explode em enxofre e desvario.

Os contornos se desestabilizam e se degradam em poças de estrume.

A vida mutaciona para formas vertiginosas de absolutamente nada.

Tudo que é grande cai pelo efeito de seu próprio peso.

Adão está desesperado, preso em si, vendo mil versões do ocaso de sua progênie. Sem poder interferir, grita por socorro, grita por clemência, mas ninguém atende a súplica. Quando acorda de seu pesadelo, lentamente abre os olhos e encontra Lilith junto de Eva, despudoradas e libertas, unidas. Ambas lhes confirmam as imagens como premonitórias com um aceno de cabeça, e riem junto com as araras de sua miséria. A própria Sombra de Adão também o deixa e se junta às mulheres — a nova Santíssima Trindade.

Adão agride Lilith, terrificado. Mas, ainda assim, ela é mais forte e responde a sua agressão com um sorriso de hiena enlevada.

Adão grita como criança. Naquele momento, Lilith, Eva e a Sombra de Adão souberam que tinham vencido. Haveriam de testemunhar o fim da Criação adâmica. Eva desfere um golpe de cajado na nuca de Adão, que desmaia. Rapidamente, o engasgam com uma maçã. Naquela noite, elas o assaram numa pira como um leitão. Os animais do Reino testemunharam a morte do consorte estúpido, boa nova que espalhariam em novos mitos e cantos.

Eva se serve da costela, enquanto demônios banqueteiam as vísceras. Lilith exige o pênis. Com o couro de seu prepúcio, demasiado e fino, confecciona uma linda carteira. Presenteia sua amiga Eva com ela, selando a aliança.

A primeira ceia estava posta.

Tristessa

Na última noite que passei em Londres, levei uma garota qualquer ao cinema, e por intermédio dela prestei um pequeno tributo em forma de esperma a Angela Carter. Meu orgasmo não tinha relação com desejo carnal, mas com o prazer de identificar meu nome como autora do texto erótico que se escrevia ao toque da pena da garota em minha tábula rasa. O sêmen dela primeiro hidratou minha pele com os humores que faltavam, e depois a enrubesceu pelo efeito de uma irritação cutânea inesperada, que me recordava da existência do meu próprio sangue. Não fazia ideia de qual era o seu nome. Chamei-a de Tristessa, a madonna melancólica de Angela, pela conveniência de encaixar a experiência no contexto de minha doentia admiração pelo que ela representava. Os meus primeiros e sorrateiros atos de canibalização do feminino, de divas mitômanas e histéricas freudianas, em torno das quais eu escolhi moldar minha personalidade.

Assim que gozamos, nos despedimos na porta do cinemão e seguimos cada uma o seu rumo. Sem ela notar, furtei seu batom, seus trejeitos e sua forma de ajeitar o sutiã. Em mim, há tempos queimava a chama de me tornar diferente de mim mesma. Algo eternamente maior. Minha aproximação do universo feminino não era calculada; partia de um desejo de acabar com meus contornos como quem sopra sobre linhas de pó de um cocainômano. Em Angela, nos seus romances e ensaios, descobri a alegria das metamorfoses e o primeiro passo da longa alquimia de tornar merda em ouro, eu em outro, corpo em éter, quintessência. Não me importava a pecha de mulher imperfeita que os inimigos me atribuíam, porque eles jamais entenderiam que meu sexo é espiritual. Contanto que pudesse devanear minha existência mais verdadeira numa utopia por vir, eu seguiria adiante, inundada pelo prazer de saber que, para a maioria, eu não seria traduzível. E a mim, até lá, caberia o destino de reescrever a cartilha do futuro com minha própria semente.

A Tristessa de Angela Carter havia sido a única mulher no mundo que fizera as desviantes sentimentais nomearem com perfeição certa dor que existia tanto ou mais nelas do que em qualquer outro espécime. Uma dor cuja natureza Angela não sabia precisar, embora fosse a essência mesma da magia que praticava: um lampejo da claridade que, de pois de cegar, revelava os novos contornos da carne em sua reflexão esquecida. O que Evelyn via em Tristessa, sua psicopompo das terras avessas, reversão do concreto, agora se aplicava ao que Angela Carter significava para mim: a transmissão do nome-da-mãe.

À medida que o território do globo se confundia com o mapa da América, a água do mundo se multiplicava pelo milagre do pranto, engolindo cidades litorâneas com sua inundação. Já eu, me multiplicava pela ingestão de doses obscenas de camp e Perlutan, com cenas e personagens que, aos olhos do populacho sensível, suscitariam apenas triste constrangimento. A gente tacanha partia de uma literalidade da qual eu jamais seria capaz, porque nunca havia aprendido outra forma de ser que não envolvesse algum grau de paródia, mais ou menos ostensivo, do cânone julgado fundamental. Começou como uma troça, a princípio sob o controle de minha prestidigitação. Uma piada no bar, um gracejo voltado a quem eu queria impressionar, uma pequena mentira contada a mim mesma. Agora eu me somava à própria deterioração da prata do espelho, que deformava minha face numa beleza convulsa e indescritível.

Em algum lugar do caminho, a graça me engoliu e virou meu único pilar. Era Angela também o meu passado e o meu futuro, meu berço e meu túmulo. No mapa-múndi de minha vida, era seu corpo que envelopava a geografia conhecida do meu corpo, juntamente aos prodígios oceânicos e criaturas limítrofes, como sereias, dragões e serpentes. Era minha deusa particular da escuridão que, a cada noite de delírio, embalada pela sublime dosagem do zolpidem, vinha cobrar sacrifícios em seu nome. Tostei minhas digitais no fogão, troquei meus dentes por porcelana, cumpri minha paixão com ordálias de ferro. Santifiquei-me usando uma pera da angústia para cavar orifícios. Inseminei-me de mim mesma, injetando doses seminais nesses mesmos canais. Por fim, me engravidei.

Quando a própria Angela, numa madrugada quente, me ditou ao pé do ouvido A Paixão da Nova Eva em sua absoluta integralidade, entrei em êxtase e compreendi: havia finalmente sido aceita em sua sororidade. Comungávamos finalmente da mesma palavra, pois o primeiro parágrafo começava assim: “na última noite que passei em Londres, levei uma garota qualquer ao cinema, e por intermédio dela prestei a ti um pequeno tributo em forma de esperma, Tristessa”. A primeira de muitas cartas de amor, escritas todas na minha carne prateada. A elegia para todas as mulheres que foram faróis ao meu desejo de colidir contra encostas rochosas. O resgate da prisão que era minha origem adâmica para me tornar a novíssima Eva. O livro era mais forte que eu. Angela me obrigava a fazer coisas inomináveis. Na altura da página 134, o pé cortado com caco de vidro de Tristessa já pulava da página e deixava pegadas de sangue em meus corredores, ao que sua autora respondia com um sorriso atrevido, presumido por baixo do látex. Ela me desafiava a desejá-la para sempre, não importasse meu grau de alcoolismo. Até mesmo quando minha cabeça estivesse populada por mil outras vozes, a voz de Angela ainda se imporia, me instando ao absurdo e à submissão. Meu Deus, como eu a amava! Quando publiquei seu livro, substituindo o nome de Angela pelo meu próprio, sem qualquer acréscimo de vírgula ou sinônimo, senti-me finalmente completa. Meu corpo se sobrepunha ao dela no mesmo tempo-espaço, desafiando a física vulgar. Seu canto de sereia não me atormentaria mais porque coincidiria precisamente com a minha voz.

No lançamento do livro, fiz o maior lipsync de minha carreira. Declamei Angela com brilho do ouro de tolo. Fulgurei palavras e gestos histriônicos em cascatas de luzes tão intensas que suas ondas humilharam os holofotes e ultrapassaram o espectro visível. Como numa incorporação, minha voz se afetou, meus braços se contorceram em vinhas espinhentas. Um peso jamais sentido enquanto homem de repente se materializou em minhas pernas. Rapidamente meu novo câncer de pulmão pediu um cigarro, uma rosa, uma taça de espumante. Quem me via a distância supunha encontrar em meus cabelos os matizes de cinza que Angela ostentava semanas antes de sua morte. Minha metamorfose estava pronta, e eu continuaria seu ofício de delirar mundos. Agora meu nome era Mariângela das Sete Tristezas.

Quando fui descoberta pela crítica, já era tarde demais: meu profundo ato de amor havia sido confundido com uma performance de desconstrução da autoria, que já estava sendo aplaudida por todos os setores da arte como o futuro da autoficção. Confundiam o nascimento tardio da minha singularidade com a morte de minha autoria, e isso certa mente falava mais deles do que de mim. Havia enganado direitinho esse bando de simplórios! Nem sequer a dignidade da queixa-crime me seria concedida pelos consecutivos roubos e plágios. Quisera eu celebrar, com um sorriso atrevido, a maior fraude artística dos últimos anos, mas tudo o que me restava era o anseio de me tornar tudo o que eu sempre invejara em Angela. Desejava a decadência paradoxal de quem nunca experimentou o ápice. Eu precisava de mais, mesmo não sabendo exatamente do que mais precisava.

Choviam flores gloriosas por onde eu passava. Animais silvestres me cortejavam. A queda dos satélites mutilava o céu e produzia uma iluminação natural que valorizava meus seios. Era minha golden hour alquímica. Meu cheiro natural estacionou nos aldeídos talcados do Chanel Nº5, depois de recender a tuberosa fragrante e almíscar de civeta. Certa vez, em posse de minha nova identidade — como atriz do cinema mudo em plena era do noise —, desfilei nua num cemitério para despertar a inveja da carne aos fantasmas que lá viviam. Usava somente salto alto e casaco de pele. Eu sempre quis ser um piano de cauda exposto num país de pianistas de mãos amputadas. Num túmulo pálido, adornado com uma estátua de anjo terrível, encontrei uma rosa branca. Quando a colhi — porque certamente era minha — piquei meu dedo. Enquanto a rosa degustava minha gota de sangue, a voz sedutora de Angela, vinda do além, me provocou:

— Cuidado, ela morde!

Daniel Françoli Yago é psicólogo clínico, tradutor e escritor. É mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Foi professor do curso de Psicologia da USCS. Publicou diversos ensaios em livros e revistas especializadas, como “O complexo de Orlando” e “A imaginação dos sexos”. Lançou seu primeiro livro de contos, “A Ascensão do Titanic” (Urutau), em 2024. Seu próximo livro, “O abraço da Quimera: ensaios sobre imaginação, diferença e mundos em queda”, está no prelo pela ed. Sattva.

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