ENTREVISTA

Dirce Waltrick do Amarante e o espaço da crítica

Imagem: acervo pessoal.

Por Lucio Carvalho,
para a Especiaria.

Entrevistamos Dirce Waltrick do Amarante, ensaísta, tradutora e escritora. Professora do Curso de Artes Cênicas e do Curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina, Dirce acaba de lançar pela editora Iluminuras o livro Interferências: censura, apagamento e outros temas contemporâneos. O livro é composto por ensaios breves que problematizam temas contemporâneos de interesse ao mundo cultural e dedica-se tanto a refletir a respeito das mazelas presentes quanto realiza suas próprias provocações. O livro é oportunidade de uma leitura sistemática das inquietações que a autora registra regularmente na mídia nacional, além de inéditos preparados especialmente para a edição.

Especiaria Na nota preliminar de “Interferências”, você comenta que o livro é composto por uma reunião de textos em sua maioria publicados em jornais e revistas de circulação nacional, além de alguns inéditos presentes apenas no livro. Seria um abuso nosso pedir para que você reconstituísse a sua trajetória como crítica? Como começou isso?

Dirce Waltrick do Amarante – Comecei a escrever ensaios críticos sobre literatura e cultura de um modo geral no início dos anos 2000. Naquela época, em Santa Catarina, onde eu vivo, o jornal de maior circulação local havia criado um caderno especial dedicado à cultura. Meu marido, Sérgio Medeiros, e eu fomos convidados para colaborar no suplemento. Em seguida, outro jornal do estado também dedicou um espaço para cultura e passei a colaborar nele também. Com a ascensão da extrema-direita, lá por volta de 2015, os cadernos culturais foram aos poucos sendo extintos. Nessa data, eu já colaborava em jornais fora de Santa Catarina, como “O Estado de São Paulo” e “Folha” (“Folhinha”), etc.

Especiaria Diria que experimentou dificuldades ou isso aconteceu numa época mais favorável, distante da crise midiática que vem sacrificando, recentemente, os espaços de crítica e divulgação?

Dirce Waltrick do Amarante – A dificuldade que eu senti e sinto é, por vezes, não conseguir espaço para falar de um grande livro, assinado por um escritor a respeito de quem não interessa destacar por inúmeras razões: seja pelo fato de o escritor não estar nas mídias, seja por não fazer parte de um grupo etc.

Autor morto, dependendo de quem for e do interesse do mercado nele, parece que atualmente tem merecido cada vez menos espaço, já que, por razões óbvias, ele não pode fazer lançamentos, participar de podcasts, dar entrevistas, estar em feiras de livros…

Do início dos anos 2000 até agora,  tenho a impressão de que essa dificuldade de encontrar um lugar para destacar uma boa obra de um artista independente, ou seja, sem ligação com grupos de influência, cresceu consideravelmente. Ou talvez hoje eu esteja mais atenta a isso do que quando comecei a atuar como crítica.

Diria que o mercado do livro está mais agressivo e, como acontece quando se trata de mercado, sua meta é a venda de mercadoria. Com isso, os críticos e os leitores, ante a onda incessante de lançamento de livros sem maiores lastros estéticos,não há tempo para reflexão. Parece que tudo tende ao consumo imediato, sem maiores questionamentos.

Claro que não sou contra o mercado do livro, que gera empregos etc. Além disso, vivemos num regime capitalista, onde a novidade é valorizada acima de tudo. Sou contra, porém, o crítico ficar refém desse mercado, já que esse não é o papel do crítico, pelo menos na minha opinião.

Especiaria – E, além disso, você diria que a crítica espontânea (denomino por espontânea aquela não feita por encomenda ou por colunistas) ainda tem recepção nos veículos regulares?

Dirce Waltrick do Amarante – Sim, com certeza! Eu posso falar por mim: não trabalho para nenhum jornal específico, também não tenho compromisso com nenhuma editora, com nenhum autor, apesar de ser amiga de alguns editores e autores…

Às vezes escrevo textos que tratam do óbvio, daquilo que todos sabem, mas que poucos ousam debater abertamente. Esses textos encontram às vezes lugar em jornais, revistas de boa circulação…

Vale destacar que discutir uma questão não significa entrar em ataques pessoais ou fazer com que determinado argumento seja a palavra final sobre o tema. Discutir é manter aberto o diálogo, atividade que devemos voltar a exercitar, como, sinto, acontecia em décadas passadas.

Especiaria – Eu, que acompanho as suas “interferências” também nas redes sociais, noto que você se preocupa muito em debater as questões éticas da crítica literária. Essa motivação decorre da observação de uma realidade “adversa” ou tem outra motivação? Você diria que a proporção entre crítica honesta e uma tendência mais mercantil, por assim dizer, anda muito desequilibrada? Ou o campo literário sempre teria sido atravessado por estas (e outras) nuances críticas?

Dirce Waltrick do Amarante – Como disse acima, acho que o papel da crítica é manter o diálogo aberto, é pensar o cenário cultural de forma lúcida, sem perder de vista que nada é estático. O crítico não é marqueteiro, ou não deveria ser, porque o seu papel intelectual, e ético, é intervir no debate cultural armado de valores literários sólidos.

Tenho colecionado blurbs , cujo objetivo é justamente o de fazer a propaganda do objeto (no caso livro). Nessa área de atuação, é óbvio que não se vai criticar a obra, mostrando falhas ou falta de criatividade, mas expressar algumas opiniões despretensiosas, porém, dependendo do entusiasmo ou do interesse de quem toma a palavra, podem soar muito exageradas, beirando o desatino. Essas expressões exageradas e fora de contexto, somadas às platitudes do conteúdo, acabam tendo o efeito contrário, a meu ver, pois acabam sendo anti producentes e lançando certa desconfiança em relação ao produto.  Há críticos sérios que se veem obrigados (acredito) a escrever essas notinhas para livros medíocres. Daí, eles fazem um malabarismo verbal tentando ser elogiosos, mas nem mesmo eles parecem convencidos do que poderiam dizer, se quisessem ser levados a sério. O importante nesse malabarismo é preservar e destacar algumas palavras-chave: fundamental, genial, único, insuperável (no próximo livro, o autor se supera…).

Não sei quem acredita de fato nisso, mas, no frigir dos ovos, talvez o leitor bombardeado por essas peças de propaganda tenha de fingir que acredita em tudo, a fim de não parecer muito crítico e antipático na sua roda de amigos.

Especiaria – Acredito que em alguns vídeos veiculados nas redes sociais já vi você falando a respeito de uma preocupação com a distinção da crítica literária e outra mais autoral, isto é, dirigida aos autores. Isso me parece ocasionar muitos ruídos na crítica, quando as obras se tornam desvinculáveis das pessoas. Numa época em que faz muito sucesso o que se convencionou denominar por “autoficção”, como fica o critico ao lidar com conteúdo nem sempre muito neutro, digamos assim? Você diria que os escritores brasileiros contemporâneos têm uma relação madura com a crítica?

Dirce Waltrick do Amarante – A “autoficção” sempre existiu. O crítico trata da forma como ela foi escrita e não dos fatos narrados. A morte de um ente querido é um fato cuja dor não é mensurável, principalmente,  para quem está do lado de fora. Mas contar essa morte dizendo que X ou Y morreu e que os pássaros seguiram cantando e o sol brilhando é um clichê que não se deveria colocar nem no necrológio do defunto querido.

Todo autor quer ser bem recebido pela crítica e pelos seus leitores. Todo escritor talvez queira acreditar que fez, se não uma obra-prima, pelo um livro “incontornável”, para usar a palavra da moda. O valor incontestável de uma obra, afinal, é o futuro quem dirá aos leitores.

Especiaria – Como você vê a liberdade de avaliação da crítica e a repercussão no que se refere ao universo dos autores? Há mais sinceridade ou costuma-se “pisar em ovos”? Como fica essa questão da reputação, na sua avaliação? É o mais determinante na circulação e na configuração do mercado ou a literatura de boa qualidade prospera em qualquer cenário?

Dirce Waltrick do Amarante – Acho que mais ou menos já tratei dessas questões nas respostas que eu ofereci até aqui. O que vai de fato prosperar nós não saberemos. Mas podemos chamar a atenção para certas conquistas literárias inegáveis, destacando como paradigmáticos e referenciais certos autores vivos…

Especiaria – Talvez pelo pequeno percentual de leitores interessados em leitura literária, muitas pessoas acusam um adensamento crescente entre autores e leitores, editores e mídias, enfim, “neste” universo como você avalia a recepção do trabalho do crítico e o diálogo com a comunidade leitora?

Dirce Waltrick do Amarante – Acho também que já abordei esses temas acima. Quanto à recepção do trabalho crítico, nunca sabemos quem vai nos ouvir e, mais importante, quem vai ter interesse em dialogar conosco. Atualmente, vejo a opinião crítica ser condenada, quando contraria interesses que de literário não têm nada…

Especiaria – E como leitora mesmo, o que você gosta de ler? Gosta de ler crítica, por exemplo? Muitos críticos dizem que evitam ler a opinião dos pares, a fim de não se deixarem influenciar. Você se preocupa com isso? Quais os seus cuidados pessoais, rituais de leitura?

Dirce Waltrick do Amarante – Eu gosto de ler tudo aquilo que me tira de algum modo de uma posição de conforto. Gosto de leituras que me fazem pensar, pensar no que li, por que li… Sinto, lendo esses trabalhos, que a literatura enquanto trabalho com a linguagem está viva e atuante, e essa sensação é valiosa, gratificante.

Como estou chegando à meia idade, não tenho paciência de tentar ler até o final uma obra que, na minha opinião, está mais para autoajuda ou que diz aquilo que eu já sei, sem nenhum trabalho com a forma. Não tenho paciência para lugares comuns (a menos que sejam intencionais no campo artístico, no qual justamente o óbvio deveria estar em crise).

Esclareço que só resenho o que li do começo ao final.

Destaco ainda que eu leio com muita frequência crítica literária também, mas quando os jornalistas e estudiosos começam com muitos adjetivos soltos” ou “gratuitos”, já paro de ler.

Não tenho ritual, mas gosto de ler deitada. Leio muitos livros ao mesmo tempo. Ultimamente estou lendo mais os clássicos, é a minha nova fase de fruição literária.


Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, tradutora e escritora. Professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC e do Curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (UFSC). Tem livros publicados na área de tradução, teoria literária, teatro e literatura infantil e juvenil. Coedita a Revista de Arte e Cultura “Qorpus” (ISSN 2237-0617). Vice-líder do grupo de pesquisa Estudos Joycianos no Brasil. É membro do Núcleo de Pesquisa de Estudos sobre Samuel Beckett (USP). Coorganiza o Bloomsday de Fpolis desde 2002. Colabora em jornais e revistas de circulação nacional.

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