Por Lucio Carvalho,
para a Especiaria.
Entrevistamos Luís Augusto Fischer, professor, historiador e jornalista que pesquisa há diversos anos (entre muitos temas de interesse) a literatura produzida no Rio Grande do Sul. Desse interesse histórico, constituiu-se um trabalho frutífero em torno do seu nome, publicado de forma acadêmica, didática e informativa, ou seja, sabe-se que ao ser mencionada uma autoridade a respeito da literatura rio-grandense em suas nuances e interfaces, o seu nome não pode faltar. E realmente não falta. Seja por meio da produção em livro, acadêmica ou jornalística, Fischer está diuturnamente envolvido com as questões culturais que dizem respeito a Porto Alegre e todo o Rio Grande do Sul. Não bastasse, atua jornalisticamente na revista Parêntese e como professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da graduação até a pós, e pode-se dizer que ajudou a formar algumas centenas (milhares?) de outros professores, escritores e pesquisadores. É ainda autor de um best-seller, o Dicionário de Porto-Alegrês (L&PM), que já vai em sua 14ª edição. A entrevista foi concedida por email e whatsapp e seu foco é o lançamento da História da Literatura do Rio Grande do Sul, obra que tomou longos anos de trabalho e foi publicada com grande sucesso em 2024, pela Editora Coragem, de Porto Alegre.
Especiaria – Antes de começar a pensar nas questões que prepararia, busquei aqui uma edição de 2007, da editora Leitura XXI, de “Literatura gaúcha: história, formação e atualidade”, de tua autoria. Por muito tempo, junto aos livros de Regina Zilberman, Guilhermino Cesar e João Pinto da Silva, foi um guia muito utilizado no estudo da literatura produzida no Rio Grande do Sul. Naquele momento tu imaginavas que duas décadas mais tarde estaria publicando e divulgando uma obra tão panorâmica como esta “História da Literatura do Rio Grande do Sul”? Sabemos que não é o teu único foco e motivo de pesquisa, mas quando te foi “inoculado” esse interesse ou surgiu a vocação em torno da historiografia literária?
Luís Augusto Fischer – De certa forma sim, já pensava em algo maior. Antes de mais nada, porque eu cursei Letras e História, embora não tenha me formado nesta. Mas estudei História, especialmente do Brasil e do RS, com mestras de alta qualidade, Helga Piccolo e Sandra Pesavento, de quem fui, aliás, monitor por dois anos. Desde aquele momento, virada dos anos 70 para os 80, já pensava em estudar História para entender melhor a literatura. Então posso dizer que foi mesmo uma vocação de jovem, mesmo. Depois, tive aulas de Literatura com figuras que, em graus variados, tinham a dimensão histórica como central em suas visões: Guilhermino César, Flávio Loureiro Chaves, Sergius Gonzaga e, mais que todos para mim, José Hildebrando Dacanal. Também acompanhava a produção da Regina Zilberman e de outros, como o Flávio Aguiar e o Flávio Kothe, para falar apenas de gente saída do RS. Mas aqueles quatro de quem fui aluno não compartilham quase nada entre si no que tange à perspectiva de compreensão da história, e isso foi muito motivador para mim, para entender por que é que um achava isso e outro aquilo sobre Erico ou Machado de Assis. Depois tive leituras decisivas na minha formação, de Antonio Candido e Roberto Schwarz, mais do que qualquer outro brasileiro, assim como de Arnold Hauser, Erich Auerbach e outros.
Em 1999, aliás já no fim de 98, quando se preparava o novo governo estadual eleito, eu propus ao Instituto Estadual do Livro — IEL (que mudava de gestão naquele ano, entrando a Elisa Henkin, minha colega de graduação e amiga) produzir uma nova história da literatura no estado, a ser feita em grupo. Chegamos a reunir umas pessoas, basicamente gente da minha geração (eu mal tinha chegado aos 40 anos) e gente mais nova ainda, alunos e orientandos. Agora, quando saiu essa História, em 6 volumes, eu recuperei até as correspondências que fiz naquele momento. Seriam 3 volumes (um até 1930, outro até os anos 1960, e o terceiro dali por diante, chegando à nova geração então, com Luiz Sérgio Metz, Paulo Ribeiro, Lélia Almeida). Logo depois pensamos num quarto volume, contendo ensaios autorais. Os envolvidos diretamente nas primeiras reuniões: Elisa Henkin, Homero Araújo, Jaime Ginzburg, Márcia Ivana de Lima e Silva e Leandro Sarmatz, além de mim, é claro.
Essa proposta foi minguando, por vários motivos, em 2000, até se extinguir em 2001. Por que ocorreu essa desistência? Primeiro porque meu entusiasmo era muito maior do que o dos demais; segundo porque desse grupo eu era acho que o único a ter já uma posição acadêmica satisfatória, enquanto os demais ainda não; terceiro porque trabalho em grupo tem isso, né? Minha ideia era, já naquele momento, a de produzir uma história que sintetizasse o que já se produzira nas pesquisas de pós-graduação, desde meados dos anos 70, quando começaram a funcionar dois cursos de pós-graduação na área em Porto Alegre, na PUC e na UFRGS. Já tinha uma convicção, que continuou viva, de que o trabalho universitário, que é feito em condições boas e até ótimas, considerada a realidade geral do ensino no Brasil, deveria retornar para a sociedade; escrever uma história eu acho que tem esse sentido.
Gorada essa forma de atuação, eu segui com as mesmas ideias e acabei escrevendo essa síntese que tu mencionas na pergunta, um livro breve dando uma visada panorâmica da formação e da história da literatura no estado. O livro circulou pouco, menos do que eu acho que ele merecia, em parte porque a editora teve muitas fragilidades, em parte — aqui a segunda parte da tua pergunta — porque o assunto não é dos mais atraentes, no universo acadêmico em Porto Alegre.
Depois eu retomei a proposta, na altura de 2005, quando estive no Conselho Editorial da História geral do Rio Grande do Sul, liderada pelo Tau Golin, excelente pesquisador que lecionava em Passo Fundo, na UPF, e com participação de vários pesquisadores do campo. Ali me reacendeu o gosto, e então tentei voltar ao ponto, agora com mais maturidade. Andou pouco a coisa. E em 2014, finalmente, ou seja uns 15 anos depois de ter pensado pela primeira vez, de fato consegui uma articulação mais sólida. Convidei para o Conselho Editorial um colega de cada um dos cursos de mestrado e/ou doutorado em Literatura que estava funcionando no Estado (Caxias, Santa Maria, Pelotas, São Leopoldo, Santa Cruz, Passo Fundo, etc.), e com isso deflagramos um processo mais sólido, que mesmo assim demorou mais dez anos para ser concluído. E teve o apoio decisivo de um semestre que tive a chance de passar em Princeton, nos Estados Unidos, entre agosto e dezembro de 2023, onde obtive um aporte financeiro para dar início à parte objetiva de financiar a publicação.
Parte dessas dificuldades eu credito à nossa precariedade profissional, nossa de pesquisadores de literatura. Por um lado, nossa especialidade meio que é herdeira de uma ideia (tola) de que crítico literário é meio um juiz divino, e portanto não se rebaixa a falar de coisas comuns; por outro, nós somos uma gente muito próxima socialmente do professor comum, de escola, coisa, aliás, que muitos de nós fomos ou ainda somos, e creio que uma parte da nossa baixa autoestima vem dessa condição “barnabé”, de sermos ao mesmo tempo admirados genericamente e maltratados objetivamente, o que se demonstra sem dificuldade ao constatar o estado das nossas escolas públicas estaduais; por um terceiro e mais sutil lado, a literatura é um campo estranho de especialidade: nossa matéria, a literatura, os livros, é claramente uma maravilha, porque condensa a experiência humana de modo muito profundo e acessível, mas estudar literatura é o quê mesmo? Conhecer os livros, ler os livros? Mas isso basta? Não basta, quando se trata de virar professor e mais ainda pesquisador: para isso, será fatalmente necessário a gente conhecer ao menos parte de alguma das ciências sociais com métodos estáveis, digamos História, ou Sociologia, ou Filosofia, ou Psicanálise, ou Geografia, Antropologia, sei lá, para daí extrair modelos, conceitos, perspectivas que nos permitam olhar para a literatura em si – os livros, as gerações, as invenções, etc. – e falar sobre ela.
Nunca esqueci um comentário de Northrop Frye, no clássico Anatomia da crítica. Ele diz que nós, professores de literatura, cometemos um erro ao dizer que ensinamos literatura. Literatura, diz ele, é coisa de experiência direta — ler os livros. Um físico não vai para a sala de aula dizer que vai ensinar a natureza; ele vai e ensina um certo jeito de entender alguns fenômenos naturais. Assim deveria ser, diz Frye, o professor de literatura: ele deve incentivar a leitura direta dos textos e, sobre essa leitura individual, ele deve entender que ensina não a literatura mas um jeito de olhar para a literatura – ele ensina, então, crítica literária, história da literatura, etc. É uma ideia incompleta do fenômeno, mas é muito interessante como uma visão sobre o nosso metiê.
Na verdade, todo o campo da história da literatura anda em baixa forte nas duas últimas gerações, por motivos variados. Um tem a ver diretamente com os ventos da chamada globalização, que foi um furacão nos anos 90 e destruiu, para o bem e para o mal, não apenas mercados nacionais fechados, empresas, empregos, como também conceitos e convicções. Hoje talvez seja claro o tanto de ilusão que havia naquelas promessas que tudo seria franqueado a todos, que a globalização tinha acabado com as fronteiras nacionais… Essa foi a versão comprada por muitos colegas que, se a gente quiser apor um rótulo, são liberais, ou antiesquerda, ou meramente elitistas. Mas já naquele momento, começo dos anos 1990, pós-Gorbatchov e Queda do Muro de Berlim, começava a ficar claro que não era bem assim — quem ia ter liberdade mesmo era o lado do capital, que não precisaria mais nem se instalar na forma de plantas industriais na periferia, bastava ser capital especulativo, do jogo das finanças, ao passo que o lado do trabalho ia enfrentar as mesmas restrições, como se pode ver agora, cristalinamente, na atuação da polícia anti-imigração do Trump.
(Acrescentemos, não sem ironia da minha parte, que muitos desses colegas “liberais”, que renegavam o processo histórico real, ultimamente se converteram, entre aspas, e passaram a militar em novas causas, feministas, indigenistas, pretas, etc. Passaram a adoradores da Carolina Maria de Jesus, que antes nem sabiam da existência.)
De todo modo, quando essa onda tomou conta do debate acadêmico, era comum ouvir que a história nacional tinha perdido o sentido, porque tudo agora devia ser visto pelo prisma comparatista. Como disse uma vez, com certeira ironia, o Roberto Schwarz, essa gente havia sonhado ser habitante não de um país real, mas do cânone: eles viveriam e escreveriam como se não precisassem mais falar de literatura precária, de criança passando fome, de corrupção, de esgoto a céu aberto. Tudo isso tinha virado poeira, para esses colegas.
Estavam errados, claro. Mas os que estavam do mesmo lado que eu sabiam que a realidade nacional ainda tem força, e que é melhor para nós que essa força, com suas virtudes e suas precariedades, seja bem conhecida e discutida criticamente — e uma das melhores maneiras de conhecer uma história é ler sua literatura. Em poucas palavras, esse é o meu horizonte maior para pensar uma história da literatura. Posso ilustrar lembrando a frase-mote de Walter Benjamin: é preciso arrancar a tradição das garras do conformismo.
E há outro motivo, que pode-se chamar de uma síndrome da superespecialização precoce dos alunos na universidade. O camarada já no primeiro ou segundo ano começa a ser bolsista de iniciação científica de um professor (o que é ótimo, claro) e termina estudando apenas o que esse professor estuda (o que é péssimo). Vai chegar um dia em que nós, das Letras, vamos precisar criar uma graduação em Quero Ser Professor de Colégio, meio como se formam os médicos generalistas, capazes de dar conta de um nível mais geral e menos detalhado de interesses, para público amplo. O que temos hoje em dia, seguindo na comparação, é que só formamos, nas Letras, o equivalente a cardiologistas, dermatologistas, etc., e nenhum médico de família ou pediatra.
Especiaria – E te parece que este é um campo que continua a atrair estudantes e pesquisadores em Letras por aqui? Quer dizer: temos garantia de que estudos amplos como o deste projeto terão continuidade e desdobramentos?
Luís Augusto Fischer – Preciso dizer que não, não é comum haver jovens interessados em história da literatura como um campo de pesquisa e estudos. Um dos motivos é a presença ostensiva, em primeiro plano da crítica (que quase nem existe mais como existia, em publicações abertas) e da sala de aula, de uma visão setorializada, de nicho ou como se queira chamar — aquilo que a direita acusa de ser “woke”, quer dizer, os temas identitários, de gênero, de etnia, etc. Claro que essas pautas e esses filtros têm muito sentido de existir, como emergência de antigas reivindicações justas; mas, para mim, esses filtros não impugnam o sentido de leituras de conjunto, seja ele a nação, seja uma região, seja um continente.
Mas eu creio que também este momento presente é um momento: a trajetória dos debates acadêmicos não terminou, nem vai terminar. Quem quer estudar história da literatura tem que ter gosto pela dúvida, tem que ter paciência para recompor processos macro, decifrar tendências sutis ali onde a moda parece obscurecer tudo em seu favor.
Especiaria – Quando lemos a “Introdução Geral” dos seis volumes da “História da Literatura do Rio Grande do Sul”, é impossível deixar de notar uma advertência aos leitores quanto ao ânimo do projeto. A ressalva de que não há no projeto qualquer viés separatista é retomada muitas vezes nos diferentes princípios que elencaste no sentido de esclarecer o método historiográfico da obra. Eu fico pensando que talvez fosse impossível prescindir dessa advertência e, ao mesmo tempo, que ela denuncia uma necessidade política acessória à apresentação. Como é isso, Fischer, é como se o organizador erguesse uma bandeira branca em relação à literatura brasileira? Ou, parafraseando outra iniciativa editorial tua (a revista Parêntese), a literatura rio-grandense cria uma espécie de parênteses na história da literatura brasileira? Minha pergunta é, sem mais rodeios, organizadores e o conselho temeram em algum momento reforçar o estigma localista? Como foi para os envolvidos enfrentar essa questão que se decalca logo no início do livro como espécie de “carta de intenções”?
Luís Augusto Fischer – Começando a resposta pelo meio, devo dizer que o Conselho não atuou como se poderia esperar, ou ao menos como eu imaginava que atuaria. Mais uma vez, é ou ficou claro que o maior entusiasta da ideia era eu mesmo…
Acho que é justo pensar que sim, havia esse sentido de bandeira branca, de pedido de habeas corpus preventivo para os não-gaúchos eventualmente leitores da História. Meio que estou ali pedindo desculpas por afrontar a visão nacional integrista, digamos, aquela que só concebe uma história da literatura se for (ou imaginar ser) da totalidade do país. É uma ilusão, claro, mas não é ilusão o que os alunos de escola e os alunos de Letras e futuros professores leem nas histórias que se apresentam sob o título de “história da literatura brasileira”: eles todos leem a verdade nacional. Isso porque o Brasil tem uma fortíssima história concentracionista, que concebe tudo como válido desde que esteja ligado à (ideia de totalidade) nacional. Essa visão unitarista é fortíssima e se vê em toda parte, em todas as especialidades, no Brasil. Herança portuguesa, talvez até mesmo latina, de imaginar que o todo (as partes variadíssimas do país) só faz sentido quando tomado como oriundo à cabeça, ao centro, ou determinado pela cabeça e pelo centro. Esses centros, no Brasil, já mudaram de lugar: foi Salvador no período colonial, depois foi o Rio de Janeiro, e no século 20, desde os anos 1920, São Paulo lutou para se consolidar nessa posição de liderança e farol.
Mas também se pode ler em outro sentido as minhas ideias sobre o livro. Ao produzirmos uma história coletiva e divergente, em certa medida uma história insurgente, nosso trabalho funciona como uma pergunta meio muda: você, prezado leitor, depois de ver essa nossa história, com seus fundamentos e processos, ainda vai insistir que história de literatura não tem sentido? Ou vai pensar que só uma história nacional tem cabimento? Aliás, nossa história da literatura no RS não lhe desperta outras curiosidades, como por exemplo entender outras histórias, outros processos históricos no campo da literatura, em divisões não-nacionais, mas infranacionais (regiões, estados) ou supranacionais (como Ángel Rama sugeria, com a ideia das comarcas literárias segundo as quais a literatura nas Américas seria mais bem descrita, como a Comarca Andina, ou a Comarca Antilhana, etc.)?
E há outro destinatário da apologia que fiz nesses textos: pensando no leitor provinciano e ufanista, quem sabe até chauvinista — o Rio Grande do Sul tem produzido arte e pensamento assim, por exemplo nos separatistas —, eu fiz questão de dizer a ele que uma história de objeto circunscrito a um estado não é uma história nem separatista, nem essencialista, que busque supostas origens puras de um ser absoluto, como a idealização do “gaúcho” tantas vezes sugere existir. Para este leitor, a bandeira não é bem branca, mas é uma bandeira também.
Enfim: foi sim um alvo dos textos essa ideia de confrontar o estigma localista. No fundo, deveria ter dito uma coisa mais simples: qualquer história merece ser contada, e nós aqui estamos nos esforçando para contar uma delas, que é interessante e cheia de detalhes, embora no seu todo carregue uma linda complexidade. Como ensinou Borges no famoso prefácio ao Evaristo Carriego, a história se dá a ver não apenas no confronto de espadas ocorrido em Paris no século 18, mas em qualquer esquina, no assobio vadio de um camarada que passa, no jeito de cumprimentar os outros.
Especiaria – Num opúsculo de 1931, intitulado “História da literatura e ciência da literatura”, publicado no Brasil em 2006, pela 7Letras, Walter Benjamin discute o parâmetro moderno da História da Literatura ao mesmo tempo que critica o cronologismo de muitos autores alemães. Diz ele que não se trata de uma disciplina, mas um momento da história geral. Eu gostaria de saber se a literatura produzida no Rio Grande do Sul seria ou não, na tua opinião, uma boa forma dos gaúchos conhecerem a sua história. O republicanismo rio-grandense de alguma maneira consagrou os autores daqui a uma literatura mais “particular” que nacional? Melhor: ainda hoje esse desafio se apresenta ou a globalização e a internet taparam de vez essa fissura?
Luís Augusto Fischer – Sim, historiar a literatura é como escrever qualquer ramo da história, num primeiro e decisivo sentido. Mas atenção: literatura é formadora, porque incide na linguagem, que é suporte e forma do pensamento, que é ensinada na escola, que foi central na definição da nacionalidade ao longo do tempo, e muito mais. Então historiar a literatura, se pode-se comparar com historiar Exército, ou a fabricação de comida, ou qualquer outra coisa, ao mesmo tempo deve atentar a dimensões muito sutis e poderosas — hoje se publica uma história da literatura, amanhã ela vai ser lida por estudantes que depois de amanhã vão ensinar crianças e jovens.
Embora esse processo não seja linear nem imediato, ele ocorre. Escritores entraram e saíram dos currículos escolares, ao longo dos tempos, por terem entrado e saído de antologias e histórias da literatura. Nenhum historiador da literatura talvez tenha desejado ser um papa a canonizar este ou aquele, mas é certo que assim ocorreu.
Tu tens total razão em evocar essa ideia, aqui formulada pelo Benjamin mas com ampla circulação por outros meios, de que a literatura dá a conhecer a história humana em qualquer parte do mundo. Nem sempre de maneira imediata, como ocorre em parte nos épicos ou no romance em sentido amplo, mas sempre: a literatura historia a sensibilidade de uma época e de um contexto. E mesmo os épicos e romances históricos, que num sentido imediato dão a ver processos históricos na política, na sociedade, na economia, etc., também escondem, porque o autor, em seu momento, captou e expressou uma fatia da experiência. Pegue-se o caso superior de O tempo e o vento: embora o livro seja realmente um monumento, que deve ser lido por todo mundo, ele carrega visões, estigmas, conceitos, preconceitos de sua formação e história, motivo pelo qual o grande livro de Erico Verissimo tem sido arguido hoje como muito patriarcal, ou muito machista, ou como tendo dado pouca atenção aos subalternos, etc. Todo mundo e cada um só enxerga o que consegue enxergar.
A outra parte da pergunta já requer outra resposta: não foi o republicanismo gaúcho, nem qualquer outro fenômeno específico, que por assim dizer confinou os autores a serem lidos mais aqui do que noutras partes. O que está por trás desse confinamento relativo tem a ver com um processo amplo e nem sempre visível, que começa por temas que nós conhecemos bem, mas fora daqui pouca gente considera.
Pensa no caso das fronteiras vivas que foram aqui conhecidas desde que os impérios português e espanhol estavam lutando para definir seus limites aqui nesta parte do mundo. Foi um processo que veio pelo menos do século 18 para cá, em particular no Tratado de Madri, de 1750, até os momentos atuais, em que ainda há pendengas de limites, apesar de tudo. Essa experiência, entre todas as regiões do Brasil, só o Rio Grande do Sul conheceu. E isso não é pouco.
Pensa ainda na economia que se desenvolveu com o gado e o charque. Um contraste bem simples ajuda a ver a diferença: enquanto na generalidade das regiões exportadoras do Brasil havia aquele modelo de latifúndio escravagista monocultor e totalmente focada no mercado externo, as quatro coisas coexistindo necessariamente (foi assim no açúcar e no café), no Rio Grande do Sul quem era latifundiário não era necessariamente escravagista, ou não tinha no escravo a única realidade do trabalho (como ocorreu nas estâncias, que usavam a mão de obra cabocla, do gaúcho mestiço de branco com mulher indígena); e quem era escravagista não era necessariamente latifundiário (como os charqueadores, que compravam gado de quem o produzia). Isso deu origem a fenômenos como caudilhos republicanos, como o General Neto, que era a favor da abolição, e de industriais escravagistas, como os charqueadores pelotenses em sua maioria. Se trata então de uma elite mais variada, mais matizada, que é matriz de visões de mundo igualmente mais variadas.
Isso para nem falar de outro aspecto: quem produzia açúcar e café (e quem extraía o ouro, embora este tenha outra configuração, que de resto garante singularidade a Minas Gerais) não tinha preocupação com mercado interno, grosso modo; mas quem produzia gado ou charque, que vendia para o mercado interno (desde o século 17, e depois intensamente a partir da produção do ouro) tinha que ter uma visão mais acurada para os processos nacionais, internos. Essa é, a meu juízo, a razão de fundo para um camarada como o Getúlio ter não apenas liderado uma revolução mas uma verdadeira mudança de patamar do estado e da sociedade brasileiras: ele vinha de uma elite que olhava para o Brasil desde sempre, ao contrário das elites paulistas, que tinham como foco fazer os filhos viverem em Paris e não errarem na pronúncia – coisa que teve força até mesmo na dita Semana de 22, que “descobriu” o Brasil que já estava descoberto, ou, como diz o Ruy Castro, arrombou uma porta aberta.
E tudo isso, para não deixar de avançar no tempo, resultando num fundo cultural, emocional, político, social com grande força, que rendeu uma literatura de rara intensidade e penetração – até que, na altura da Segunda Guerra Mundial, a coisa virou, com a industrialização, a urbanização, a modernização daquele momento, momento em que as lideranças foram trocadas: saiu de cena a elite estancieira (simbolicamente o Jango encarna isso, com o Brizola pela esquerda) e entrou em cena uma elite derivada da imigração alemã, primeiro as elites urbanas – os Gerdau, os Neugebauer, os que criaram a Varig e tantas outras indústrias e empresas de alto poder de fogo. Essa elite não produziu políticos de maior relevo, talvez por ser muito germanizada e cosmopolita (mas olha o Museu Iberê Camargo, essa maravilha criada pelo Jorge Gerdau Johannpeter, talvez para valorizar seu acervo de quadros do Iberê, ok, mas também para dar um retorno à cidade e ao estado).
Depois dessa elite, nos anos 1970 em diante entrou em cena outra elite, de descendentes de italianos talvez mais do que de germânicos. Os gringos de Caxias, de Passo Fundo e por aí afora, com indústrias e com o agro, gerando desde ações grotescas que nem ouso mencionar aqui até ações elevadas, como a da compra da tradicional escola metodista de Passo Fundo pelo moderníssimo e atilado empresário Erasmo Batisttella, que lida com biodiesel. Mas vamos perguntar: em que é que contribuem megaempresários como os Zaffari, os Random, os donos de indústrias imensas como a Fruki, entre muitas outras, em que é que contribuem para a sociedade e a cultura em sentido amplo? Qual seu apreço concreto pela inteligência, pela vida intelectual e artística? Em que ações depositam seus lucros imensos? Prezam a cultura ocidental, os livros, a música, o teatro, o cinema? Ou terão sido todos engolfados por esse espetáculo lamentável de baixaria cultural (e não só cultural) do bolsonarismo?
De todo modo, essa longa sucessão política e cultural, estancieiros & charqueadores sendo sucedidos por industrialistas modernos & agro, em parte foi homogeneizada: por baixo, nas classes populares, pelo cetegismo, mas por cima, nas classes superiores, dá pra dizer que as elites da segunda parte, salvo escassas exceções, não produziram um jeito de ser, sentir e pensar que tenha chegado a resultados artísticos superiores.
E agora, últimos anos, repontou no horizonte uma saudável e bem-vinda voga de valorização da experiência das pessoas negras e dos indígenas. Foram duas amplas e decisivas dimensões da experiência social local concreta sempre massacradas, sempre escanteadas, mas que mesmo assim deram origem a formas artísticas relevantes (e artistas de alto valor), que agora começam a ganhar voz e espaço, como é o caso do excelente cronista Paulino Azurenha, filho de mulher escravizada, ele alforriado na pia batismal pelo dono de sua mãe e muito possivelmente seu pai biológico, que se converteu num jornalista de alta relevância na virada do século 19, cuja obra estava simplesmente esquecida e foi reeditada agora, de dois anos para cá. Sujeito de primeira linha, que deveria estar no cânone de leitura há muito tempo.
Bem, esse raciocínio que sumarizei acima é uma simplificação, é claro, mas dá uma ideia da organicidade que a “civilização da estância” — vamos enobrecer a coisa — produziu, contra a ausência dessa qualidade em nossos dias. Eu sempre penso, quando vejo nossos deputados estaduais ou federais: esse cara leu algum livro na vida? Que livro ele terá lido? Ele foi a alguma peça de teatro depois que saiu do colégio? Ele viu os filmes relevantes dos últimos dez anos?
E tem a outra parte da pergunta, ainda: a internet sim modificou o panorama da produção literária e da circulação de literatura aqui no estado. A internet e a digitalização, em geral. Muitos escritores brotados na mais recente geração — digamos, de 2000 para cá —, se oriundos de classe confortável, tiveram experiência direta de viver no exterior, o que dá a eles um cosmopolitismo novo, nem sempre inteligente, mas enfim vivo. Para eles, não tem mistério lidar com o mundo “lá fora” do estado, sejas as duas capitais culturais brasileiras, Rio e São Paulo, sejam outras metrópoles mundo afora. Ao contrário do que acontecia até digamos os anos 1980 e mesmo 1990, quando um Caio Fernando Abreu precisou ir morar em São Paulo para escrever o que queria, ser editado e ser lido, os mais novos muitíssimas vezes já começam publicando em editoras grandes do centro.
Claro que isso também é efeito da homogeneização do mercado brasileiro: as editoras maiores percebem que vale a pena buscar valores onde eles estiverem, e o Rio Grande do Sul prova, em 150 anos de história literária contínua, que dá esse fruto.
Especiaria – Algo que me chamou a atenção quando comentas a questão da formação de um sistema literário por aqui, nos moldes propostos por Antonio Candido, e da fixação em torno da Editora Globo nos anos 30 do séc. XX, é a superação do analfabetismo na primeira República. Um país com 80% de analfabetos consistiria, nesse modelo, um sistema embrionário. Hoje, quando as pesquisas de leitura nos indicam que um percentual ainda menor de pessoas tem o hábito da leitura literária, a situação não parece muito melhor. Noutro momento da introdução, afirmas que o futuro também exige atenção, o leitor em formação: “Não podemos decepcionar nem o passado, nosso objeto, nem o futuro.” Na tua opinião de pesquisador e sobretudo professor, que espécie de esforço seria necessário e de que iniciativas o meio acadêmico e escolar poderia lançar mão para melhorar esta realidade? Como entendes a introdução da literatura rio-grandense nos currículos e na vida cultural dos gaúchos de um modo geral? Os gaúchos ainda leem aos gaúchos ou esse processo vai assumindo outro curso, outro aspecto?
Luís Augusto Fischer – Outra questão ampla, de grande interesse, que poderia gerar todo um ensaio. Para dar uma impressão, sem dados objetivos, te digo que não tenho certeza que tenha diminuído a leitura literária. Minha impressão tem a ver com o volume dos lançamentos, de editoras grandes mas também de muitas editoras pequenas, no Brasil em geral e no Rio Grande do Sul em especial. Não é nada desprezível esse volume. O que sim me parece que tem acontecido é uma dupla novidade: muito mais gente publicando, em tiragens menores, de um lado, e de outro a emergência de vozes e leitores antes ou não existentes, ou muito fracas no mercado, de pessoas negras, homens e mulheres, algumas delas identificadas como socialmente periféricas, de mulheres em geral e de autores do mundo LGBT.
Quer dizer: se a gente conseguisse somar isso tudo, será que teríamos mesmo dados de baixa na leitura literária? Quantos leitores do José Falero são leitores iniciantes que se interessaram na obra dele por identificação social, étnica, ideológica? E os círculos amadores de leitura, hoje uma (saudável) febre nas classes médias? Esses universos talvez sejam inacessíveis aos levantamentos em curso. Eu manteria ao menos essa suspeita ao lidar com o diagnóstico.
Sobre o que fazer, tua pergunta se volta para o ensino, para a sala de aula, indagando sobre a presença de autores gaúchos nos currículos. Eu também aqui manteria minhas suspeitas de pé: o que sabemos sobre leitura de autores locais em escolas de cada cidade, em feiras de livro, em atividades extracurriculares como as visitas de escritores etc.? E a leitura em meios digitais, que não passa pelo impresso? E os saraus e slams pelo mundo afora? Pode bem ser que estejamos — meu otimismo me indica — vivendo uma mudança lenta, tectônica, em que a literatura está menos dependente do currículo escolar e talvez até de sala de aula, e com mais leitores autônomos.
Um problema conexo que valeria a pena especular: como são escolhidos esses textos de leitura que passa por fora da escola? Quais os filtros? Elas funcionariam como os posts das redes sociais, a partir de bolhas isoladas, controladas pelos algoritmos inacessíveis? Certamente não passa nada pela antiga crítica literária em jornais e revistas, e passa (ou passava até há pouco) muito mais pelas listas de leitura obrigatória em exames vestibulares e pela divulgação de influencers.
Mas há leitores para a literatura local. Viste a pesquisa que a gente publicou na Parêntese 300, que saiu em outubro de 2025? Foi uma pesquisa nas redes, com 300 respondentes, sobre os livros de autores gaúchos lançados no século 21, resultando nessa lista:
1. Os supridores, de José Falero (2020), e O avesso da pele, Jeferson Tenório (2020), com 48 indicações cada.
3. Barba ensopada de sangue, Daniel Galera (2012), 19.
4. Amora, Natália Borges Polesso (2015), 18.
5. A casa das sete mulheres, Letícia Wierzchowski (2002), 14.
6. Louças de família, Eliane Marques (2023), 12.
7. Mas em que mundo tu vive?, de José Falero (2021), 11.
8. Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas (2012), 9.
9. Ela se chama Rodolfo, de Julia Dantas (2022), 8.
10. O diário da queda, de Michel Laub (2011), 7.
E depois perguntamos quais os maiores livros gaúchos de todos os tempos. O resultado foi este:
1. O tempo e o vento, Erico Verissimo (1949) – 135 votos
2. Incidente em Antares, Erico Verissimo (1971) – 32
3. Contos gauchescos, João Simões Lopes Neto (1912) – 26
4. Os ratos, Dyonelio Machado (1935) – 25
5. Morangos mofados, Caio Fernando Abreu (1982) – 19
6 O centauro no jardim, Moacyr Scliar (1980) e O continente, Erico Verissimo (1949) – 16
8. O avesso da pele, Jeferson Tenório (2020) – 15
9. Os supridores, José Falero (2020) e A casa das sete mulheres, Letícia Wierzchowski (2002) – 11 menções
Meu otimismo incorrigível sugere que temos um momento muito bom, muito vivo, em que a literatura, em sentido amplo, tem tido muita força, até mesmo em setores sociais antes fora do circuito da leitura. Isso não quer dizer que não devamos pensar no sistema de ensino no campo da literatura especificamente. Com o virtual fim do vestibular unificado, com a hegemonia do ENEM, perdeu-se, para o bem e o mal, um paradigma de ensino de literatura, ou de história da literatura, que vinha mais ou menos estável desde os anos 1970, quando o vestibular unificado foi criado. Todos os professores em atividade foram ainda formados nesse modelo. O que tem ocorrido de novo, quando não há mais esse critério disciplinador, nem sempre inteligente, no horizonte da escola média brasileira?
Seja como for, a nossa História da literatura no Rio Grande do Sul pretende entrar nessa conversa oferecendo panoramas, roteiros, modos de compreender a produção e a circulação de literatura entre nós, sem xenofobia nem essencialismo, tentando manter os sentidos conectados com os tempos que correm.

Por inciativa dos editores e como forma de retornar aos leitores o
financiamento público obtido, a coleção está disponível
para download neste link, em formato epub.
Luís Augusto Fischer é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de, entre outros, o Dicionário de Porto-Alegrês (L&PM, 2007) e Duas formações, uma história (Arquipélago, 2023).

Que maravilhosa entrevista, com perguntas muito bem elaboradas e respostas ainda mais completas (e complexas). Fischer é realmente um professor e pesquisador incrível do nosso país. Parabéns!