POESIA

Poemas de Fabrício Marques

Imagem: Reprodução.

Os poemas da seleção fazem parte de Fora do alcance da memória (martelo editorial), que será lançado no dia 29 de novembro, na livraria Quixote, em Belo Horizonte. É e não é uma antologia: é uma quase-antologia. Isso porque reúne poemas dos quatro livros lançados pelo poeta: Samplers (2000), Meu pequeno fim (2002), A fera incompletude (2011) e A máquina de existir (2018). Mas, agora, muitos dos poemas selecionados aparecem em novas versões, bem diversas das originais, ao lado de poemas inéditos. 

HAJA O POEMA (2023)

Quando na rua se dispersa
o sopro da criação
entre os que ignoram
o que está acontecendo

Sou aquele que diz
Haja o verbo
Haja paciência
em convocar cada palavra
Haja pedra
Haja dela retirar o leite que nos nutre
Haja chuva sem medida rios de água viva
Haja semente no cânion cactos em flor
Haja o fruto ressequido com método
Pois acabaram-se as sutilezas
Trinca-se o cargueiro na borda do mundo

Haja o farol haja a canção
onde o sol se cansa de cantar
por entre as nuvens
em um modo digno e gentil
de lidar com as perdas

Sou mesmo aquele que diz
Haja o ruído
que deixou de ser ruído
Haja a fúria da luz
que não há

§

LAGOA (2021)

Pampulha. Pampulha. Pampulha.
Voa à deriva a ave sim vermelha
à esquerda de quem tanto olha
pois tanta maravilha é quase falha
Longe, ao que parece, a lua brilha
Na superfície da lagoa mexem-se folhas,
e agora é que no lado oposto mergulha
a ave, distraindo quem não percebe
o discreto gesto de adeus dos solitários
que se atiram em suas velhas águas.

§

TOTEM PARA O HOMO ZAPPING (2018)

Acordo João, vou à feira João, passeio João
mas João até certo ponto:
é só sair para o olho da rua e já me chamo Násser.
Conto histórias, manobro vocábulos
e logo me chamam Heródoto.
Sou Heródoto até me cansar.
Das oito às nove sou Mwaka
e na hora seguinte dou expediente como Zanchi.
Saio à esquerda à caça de frutas – de preferência vermelhas.
Descanso no parque como Chang,
sou Chang de sobreaviso.
Entro no trabalho e meus colegas me cumprimentam:
“Olá, Górki, tchau Górki”.
Na hora do café a atendente me reconhece como Xerxes.
O mercado se inquieta, a Bolsa oscila ao saberem que sou Zeki.
Às seis da tarde, horário de Brasília, me despeço como Ximenes.
Estranho os homens que atravessam a existência carregando o um só nome.
Frequento os bares contando façanhas, agora me chamo Baltazar.
O Corvette sibila no asfalto.
Luzes grátis e alegres piscam à distância,
luzes alegres e grátis acenam pra mim (me chamo Raoni).

De Raoni a Quiroga é um pulo,
num looping rodopio no baile.
Mais um pouco sou Gale,
o que toca acordeom e se basta.
Em casa me recebem como Histeu,
amanhã é domingo, floração de incertezas.
Lá fora, lagartos recolhem hesitações.
Debaixo desse teto me conhecem como Jimmy,
mas também podem me chamar de Abraão.
Até que o sonho comece e eu passe a me chamar Hades.

Não percam a conta:
Sou João Násser Heródoto Mwaka Zanchi Chang Górki Xerxes Zeki Ximenes Baltazar
/Raoni Quiroga Gale Histeu Jimmy Abraão Hades
Sou uns
Sou uns e outros a seu dispor

Alimento boto lenha
na conversa bonita
em torno do fogo da vida
Reparo as chamas
que partem sem rumo
e me chamam pelo nome

§

NÓS, O DESOCIDENTADO (2018)

Saiamos
de aldeia
em aldeia
à procura do desocidentado.

Vocês que nos seguem
peçamos que fiquem conosco.

Alguns ficavam. Alguns ficaram.

A expedição se reinventa a cada passada.
Desviemo-nos dos silvos das balas.
Evitemos o zunir das flechas.

Sigamos o doce chamado que parte
da floresta, misturando os tempos.

Seguíamos seguiremos em direção
à República Musa Paradisíaca.

O sol que nasce ensina.
O sol que se põe ensina.

O corpo da escrita e o corpo da terra
conversam entre si, nos incluem
e se multiplicam.

Soubéssemos saberemos
talvez tateando
reconhecê-lo
quando o encontrarmos.

E dentro de seus olhos
os mais limpos olhos os mais escuros
(tanta coisa se passa no escuro)
veremos a mesma estrela esfaimada
que viaja nos nossos
e por vezes nos aturde.

§

ÊXODOS (2002)

vá para o ardor que te adense
vá para o salto que te sacuda
vá para o passado que te pertence
vá para o ruído que te restaure
vá para o frêmito que te festeje
vá para o vértice que te vasculhe
vá para o crepúsculo que te carregue

§

MAIS-VALIA (2018)

Esses homens de pé,
ao longo de geleiras indestrutíveis,
repetem sem cessar suas certezas
também indestrutíveis.

O carro vale mais que a sinfonia
A faca vale mais que a poesia
As ações na bolsa valem mais que as nuvens
O míssil vale mais que o cacho de uva.

E se o compositor diz que
a coisa mais certa de todas as coisas
não vale um caminho sob o sol,
eles não têm a menor ideia
do que o compositor está falando.

E seguem solenes, solenes sob a luz severa,
escolhendo o carro, a faca, a bolsa e o míssil.

Mas eu escolho ser a chuva
que lentamente dissolve,
fibra por fibra,
as geleiras seculares.

§

ENQUANTO DORMES (2018)

Enquanto dormes, sem que percebas,
reparo teu sono: teu corpo, meu mundo.
A luz da arandela incide sobre a movimentação
rochosa do granito, o quarto mudo,

eu me pergunto: o que se passa? Teus
200 ossos a me convocar em vário ritmo:
a carne é franca. Ossos não mentem,
a carne é franca, a repetir num rito.

Ave, palmas breves; ave, flexor do hálux;
salve, pectínio: tua pelve, minha praia.
E no tumulto do sangue, ave, valva;
salve, átrio; e se joguem na pista, na veia, na raia.

Enquanto dormes, amo teu esplênio,
o escaleno anterior e o posterior, dando voltas

– o que se passa? As articulações estalam,
um involuntário sorriso: teu riso, mil volts.

Muito acontece enquanto dormes:
vértebras e tendões se entendem, sem áporos;
músculos profundos dialogam,
e amo tudo o que se passa sob teus poros,

aqueles mesmos que envolvem, lâminas de tecido,
teu corpo, e respiras, entreaberta fresta,
e me convidas para a algazarra de seres vivos
a que serves de abrigo: teu corpo, uma festa.

O movimento rápido dos olhos. O movimento
rápido das pernas. Pra que tanta pressa,
meu Deus? Se fatalmente te sei por um
és-não-és, digo, por um triz, tão presa

a mim e ao mesmo tempo tão alheia
ao meu lento escrutínio: teu sono, meu garimpo.
E, não só com os olhos, mas com todos
os sentidos, teu corpo desço e grimpo

Súbito, me lembro: hoje, mais cedo,
comeste fruta gogoia. A lembrança brusca
do alimento se aventurando por teu corpo,
a começar do véu palatino, em busca

de sossego, de um final remanso onde se dissipe
(o que se passa?) em breves rusgas
enquanto dormes, e é estranho, mesmo para mim,
o crescimento imperceptível de rugas

e distraio-me por um segundo, mas retorno
a teu corpo, que nunca é o mesmo: meu pódio
acolhendo uma grande família: prócero,
esplênio e ilíaco, amo vocês, sem réstia de ódio.

Teu corpo em repouso, a carne é franca
e fracas são as horas em demasias de relógio.
Aqui, neste quarto, sob o comando de lobos
e hemisférios, enquanto dormes elogio

teu corpo em repouso, uma senha – não
para confundir as leis que regem teu sonho –
mas para salvar a desusada emoção
com que penetrei fundamente no teu sono

pois sei que estás para acordar, e a mim
só resta o arrepio do toque, apenas sobra
o gesto de deitar em teu colo, doce
e úmida província: teu corpo, minha obra,

aquela mesma que com mil chamas
permanece alheia a um mundo em que tudo ruísse
e ainda assim vibrássemos em paz,
até que despertasses, e o teu corpo todo risse.

§

FICANDO TARDE (2000)

Estou ficando tarde. E o tempo
vai carpindo antes do tempo
rugas de cansaço e lucidez.

Com ar de melancolia
(Estou ficando tarde)
percorre o rosto um sorriso.

As horas se gastam, amarelam
como quando a vida arde

– ó albor – na pele, sem aviso.

§

LIFELONG LEARNING (2018)

Aprender
esta manhã
a vida inteira.

Esta ventura
de atravessar
toda a videira.

Esta manhã
não teve ensaio:
chegou irrepetível.

Manhã tão real,
quase de carne e osso
de se pegar com as mãos.

Esta manhã
que gosta de existir
me faz seu cúmplice.

Esta manhã
agora.

Este agora
para sempre.

§

EU-LEITOR ELA-LÍNGUA (2018)

1.
Eu a penetro
e ela arde-se
flórea
e ela entrega-se
em favos
e ela pega
carona
em meu hálito
e juntos saímos
Leme
Leblon
Marina da Glória
Lapa
Arpoador
Pedra da Gávea

Carrego-a comigo: mistérios
Ela se deixa carregar: montanhas

Minha ela, meu elo
com o mundo
e o ardor inflexível das coisas

Alguém arranha
a superfície das letras,
à procura
do sentido oculto
entranhado nas palavras

(Marcamos um encontro
bem onde as palavras se desbotam.
Alguém não foi, e eu não soube.)

2.
Língua: um código comum
para que todos se desentendam
em jogos de amar e aprender
fingir e recompor
traduzir e somar
cantar e dividir
entre outras ocupações

Em um passeio aéreo percorro
Leme
Leblon
Marina da Glória
Lapa
Arpoador
Pedra da Gávea
Mas antes de alcançar esses lugares
chego nas palavras que os nomeiam.

Essas palavras derretem na boca de quem fala
e deslizam para o interior de ouvidos atentos

3.
Não digo sueño
Não digo dream
Não digo traum
Não digo rêve
mas à revelia de mim
Eu digo
(ela me obriga a dizer)
sonho.

E eu sonho que ouvi Rita dizer: desfiambre-me.
E eu digo linde e blenda
e digo borco e gargalo
e digo gládio e enigma
com todo o meu ser

4.
Cobogó
Parangolé
Cobogó
Parangolé
Cobogó
Parangolé

– Que foi isso, maquinista?

– São só trilhos a ranger no entressonho
São vagões metálicos percorrendo a paisagem corrompida
São as primeiras folhas que brotam, depois da chuva
É o ruflar de plumas a erguerem-se em voo
É o murmúrio de mil corações batendo
Uns nos outros

5.
Na ausência de luz, ninguém reconheceu as vozes que chegavam.
E que som aquele refluindo no súbito luar?
Românico? Moçárabe? Tupi? Provençal?
Para quem está no escuro, tanto faz o sotaque da lua.
Língua-oiti, da família das rosáceas.
Língua de lagarta ziguezagueando
que se lança e se recolhe na via oblíqua.
Língua de com ela permitir-se linguagens intocadas.
O que falamos não é a língua, é secreta arquitetura
Istmo a unir terras desoladas,
Iguaria oferecida a todos, mas que poucos recebem.
Língua-pária, cercada pela América espanhola e já toda retorcida.
Três vezes língua ambarina, língua laboriosa:
lusa-me, lusa-me, lusa-me.

6.
(Ela)

Toque teu riff em paz, cara, toque teu pinho,
Imprima teu ritmo no mundo avesso ao teu ritmo
Toque teu banjo, malandro, teu clarim e outros metais
Martele tua tecla, bróder, teu cravo na amplidão
Prefira teu sax teso, meu rei, os pistões de tua trompa
Bata teu bumbo, irmão, e acorde os de lá e os de cá

7.
Parangolé
Cobogó
Parangolé
Cobogó
Parangolé
Cobogó

-Que foi isso astronauta?

-São só planetas se alinhando, ao capricho de vogais e consoantes
É a vertigem insubstante da Terra vista de cima
É a tempestade que desperta os circunstantes
São olhos que se encontram no rumor do abraço pressentido
É o murmúrio de mil corações batendo
Uns nos outros

8.
Língua de organza e crepom, ainda não lânguida,
soltando escamas dissipadas no pó do chão.
Língua em mim tão monstruosa, do tamanho da estrela diminuta.
Língua-guelra, língua afiada em cacto, satori no sertão.
Língua de uma cidade chamada Cristália. Ou Jotuomba.
De um lugar conhecido como Sofotulafai.
Ou Saramenha. Ou Tlon. Ou Sardanapalo.
Língua dos negros de Tabatinga, pé preto no barro branco
(Será a mesma que acompanhava os dinossauros de Peirópolis
até desaguar em palavras como nelore, gir e guzerá?)
Língua em bis, de todas as águas e de todos os fogos,
que me faz companhia na noite mais longa do inverno.
Todos olharam para trás e foram transformados em sol, por erro de revisão.
E saíram todos lançando raios de luz no musgo e na madeira oca.

9.
(Ela)

Toque tua tabla de cor e alteado, tua gaita veloz
Afine o fole, meu velho, as cordas de tua viola
Toque teu bongô, nego, que percute no jardim dos sonhos
Dedilhe tua lira, parceiro, e sem pressa ajuste o pandeiro
Toque teu baixo, leve na flauta o que agora desafina,
batuque teu tambor, camarada, teu límpido tantã

(Na noite alta a música das esferas
impõe tua orquestra à inaudível usura dos dias)

10.
Eu a amo
e de volta ela me ama
com a precisão de um troço doido
que, num esforço último,
afasta o caos
despede o acaso
e se infiltra
entre palavras
que se unem
para fazer um poema: este poema.

§

CANÇÃO PARA A CIDADE QUE SONHA (2021)

Da janela se vê
o mundo que começa
na rua Milton Santos

Há tempo para o periscópio
tempo para a gentileza
na avenida Nise da Silveira

Olha a menina, a menina lá
com fome de vertigem
na ponte Garrincha

No memorial Bispo do Rosário
ninguém sai de fininho
à espera do inesgotável

Há o gol o gonzo o banzo
o engenho trapizonga
na casa de repouso Hélder Câmara

Estamos de passagem
no aeroporto Tom Jobim

Dizem que há alguém feliz
no edifício Sobral Pinto

Há tempo para uma nódoa
Há tempo para incêndio
na rua Dorothy Stang

No entanto, vencemos
todas as causas perdidas.
É porque há uma rua chamada
Carlos Drummond de Andrade
que podemos pensar assim

Agora o mundo começa
da mínima esperança
na avenida Pixinguinha

A janela quer
mais

Fabrício Marques é mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicou, entre outros, A fera incompletude (poesia, 2012), Uma cidade se inventa (reportagem, 2015) e Wander Piroli: uma manada de búfalos dentro do peito (biografia, 2018) e organizou Sebastião Nunes (2008) e Papel Passado, antologia de poemas de Libério Neves (2013).


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