ESPELHO
Meu deus como é triste
Olhar a noite nos olhos
O som da treva ecoa
no brejo mais fundo
Lembrar a montanha
a tarde cheia de sinos
a menina – névoa no azul
o menino
Uma luz
que afastasse este breu
para além da estrela remota
Olho e vejo um furo
no escuro – um lago?
Aviões partem
Para que deserto?
§
MENTE
Quase além da sensação
do estar vivo
pura luminosidade dentro
de retina inexistente –
a que tudo enxerga
tudo sente
(o tudo que é vida
e será morte) –
a palavra (palavra?) amor
amor
§
ELEFANTE
O ar de tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro de teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora – rui por dentro.
Reverbera no escudo o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.
Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios,
femininos.
A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.
§
VENTURA [a Fernando Reis]
Corro. No deserto
líquidos longes e pertos
Palavra do pó, limalha
ranhura do olhar cego
O sol com brilho de lua
apaga-se em desmemória
Pedra sedenta o poente
da luz que tudo sente
Rasga o ar sua túnica
de seda e romã – este sangue
Aventura humana e dura:
a nenhuma aventura
§
CANTO
Ária branca – aderência
em muro branco
neste dia tão solar –
dia dos mortos
dia do antes
É como se o olhar tornado
inumano
por força do branco
soasse
livre do longe e do perto
de si mesmo referro
na desmesura do ar
Longe ficaram as montanhas
Perto o lago não está
Francisco Soares Alvim Neto, ou simplesmente Chico Alvim (Araxá, 1938) é poeta e diplomata brasileiro. Estreou na literatura com o livro de poemas O sol dos cegos, de 1968. Dentre suas publicações, destacam-se o livro Passatempo, de 1974, marco da “poesia marginal”, Lago, montanha, de 1981, e O metro nenhum, de 2011. Alvim venceu o Prêmio Jabuti por duas coletâneas: Passatempo e outros poemas e Poesia reunida (1968-1988).
