POESIA

Antes da era dos diagnósticos

Imagem: Roanoke Farms, John Vachon, 1938.

antes da era dos diagnósticos
tio Nelo chegava cantando trovas
lá em casa meio tarde da noite
chorava magoado com tanta tanta gente

antes da era dos diagnósticos
Tim Maia e Tchunay coreografavam Pina y afins
à base de loló sob o imenso ficus da igreja Betel

antes da era dos diagnósticos
rimos tanto de um colega que chegou
trajando o antigo uniforme marrom da Escola Adventista
(e certo mau cheiro)
que ele saiu chorando porta afora da sala
e nunca mais voltou

antes da era dos diagnósticos
voltamos a pé de Canoas depois de empurrar o Passat
até o estacionamento da Eletro Shop na BR-116
debaixo de chuva torrencial e bebedeira do meu velho
eu, a Dani, o Rafa e a mãe tomamos um táxi
na altura da Petrobrás
e passamos pelo pai caminhando sem camisa
naquele trecho sempre escuro do trevo na entrada do Esteio
“pode ir” foi a resposta ao taxista
que estranhou a opção de deixar o patriarca pra trás
mais ou menos uns quarenta minutos depois
pai chegou na sala de casa todo molhado
passou pelo sofá e fez um carinho doloroso nos meus cabelos
foi tão bom sentir o toque de sua mão
era raro na infância

antes da era dos diagnósticos
não consideravam ócio doença
e vagabundeávamos livres

antes da era dos diagnósticos
fomos a um jogo do Colorado com o tio Ivo
em vários, num Fiat Uno
comemos de tudo e o tio bebeu cervejas em copos da Brahma
se não me engano perdemos
e foi mais divertido que recreio

antes da era dos diagnósticos
Jonas
filho da Zélia que trabalhava lá em casa e fumava
sobre as panelas enquanto cozinhava
e do Joãozinho, que através do bigode amarelado de fumo
falava tão rápido até “tontear” (como dizia meu avô)
chegou trajando bombachas e uma serenidade de sidarta
entre os alfarrábios, o livro de sua autoria, com poesias gaudérias
ilustrado por um mateador em contraluz na capa preto e branco
foi a primeira vez que vi um poeta e seu livro
e escutei algumas declamações tão empoladas quanto convictas
sua tia Lourdes, comadre da mãe
nos contou que ele tinha recém-saído da cadeia em São Borja
depois de passar um índio na adaga até a morte
bom poeta

antes da era dos diagnósticos
jogamos escova, bisca, três sete
no quartinho da cama suspensa
na casa da tia Bête, em São João da Urtiga
depois de caçarmos, à lanterna e pauladas
algumas rãs naquele lindo açude
mas foi na era pós diagnóstico
que recebi a notícia do meu primo morto
enforcado ali perto
recém-pai e casado
finalmente próspero e tranquilo
como se fosse viável

antes da era dos diagnósticos
um estudante de psicologia sonhou com Freud
vestia calça larga de sarja preta
camiseta comprida Drop Dead e Vans old school
em pé, na parada de ônibus, roendo as unhas, não subia em nenhum
dia e noite, Freud ali, gotículas de sangue nos lábios
das unhas e dedos comidos

antes da era dos diagnósticos
o diabo saiu do corpo de um fiel
da igreja pentecostal do reino de deus
após exorcismo do pastor executado a partir
de elixir com marca registrada
cruzou a avenida Clarett lá no Jardim Planalto
para encarnar num cão pulguento de rua
o bicho ainda vive e chafurda os lixos
em frente à casa onde viveu dona Diva
minha babá dos primeiros anos

antes da era dos diagnósticos
na praça da Bíblia, noite mais fria do ano
encontramos um homem sentado, tremendo de frio
assustado e mudo, literalmente
não conseguimos convencê-lo a se abrigar
devido ao abismo de linguagem
de manhã, exatamente em seu lugar
ali na ponta do triângulo (segundo nome da praça)
encontramos uma gamela com milho e charutos
uma galinha brazina e uma Sete Campos
indicando algum tipo de troca noturna
desconhecida

antes da era dos diagnósticos
na mesma praça
crianças pequenas espancaram um homem
vestido de mascote da Pavioli
e riram com tanta satisfação que foi inevitável não rir junto
apesar do sangue escorrer pela boca de pano do boneco deitado
fresta por onde o autor tentou vislumbrar
de quem eram as mãos que o agrediam com tanta fúria

antes da era dos diagnósticos
eu não escrevia tanto, nem tentava agradar tantos idiotas
buscava explicações na astrologia, no marxismo, no I Ching
(interpretado pelo Victor, amigo do meu irmão)
até frequentar o divã de um psiquiatra
e me apaixonar pela decoração do consultório
trocar com ele haxixe pela coleção de Winnicott
e receber alta
levar o laudo pra minha mãe e convencê-la a me matricular na autoescola
dirigir até Imbé no Escort conversível roubado do irmão do Dudu
e atropelar um boto tentando cruzar o canal do rio Tramandaí
sem cinto

§

anúncio de um novo livro

a poesia já foi meu álibi
meu vício
início da adolescência
toda ciência possível
crível, concreta, de carne
meu cerne, desejo, distância
ânsia de verdade
fuga, fuga simplesmente
até o dia em que abandonei um poema
na estação Luiz Pasteur
transcrito numa filipeta do Costela vereador

enquanto voava sobre os trilhos
ainda li um trecho
genial, genial demais!
Rimbaud parnasiano
com Drummond y Fernández Porta
carcomido pela graxa dos trilhos

anos depois, o vi publicado em livro
pelo renomadíssimo poeta ex da minha ex
cuja esposa também namorei
ainda nos tempos de Bambu’s
aquele único verso que lembro da leitura aérea
antes da locomotiva trucidar a folha
me pareceu ajustado, levemente
não consegui identificar onde nem no quê
mas soou excelente, transcendendo o ciúme, inclusive

desde então
considero a poesia meu câncer
toda espera numa estação ou num bar
quando dedos e narinas pulsam
puxo um bloco, negocio algumas folhas avulsas
e escrevo, compulsivamente
frases ou associações vazias
na esperança de que
ex ex ex exes
prosperem com base no que não fui
e nunca poderia ter sido
amanhã lanço meu livro:
estética esquerdomacha
volume II

§

anistia 3.0

recebi o aviso de férias
já vislumbro o verão desde setembro
trabalho pelo álibi
terei um mês
há doze anos um mês é tudo que tenho
outro álibi
para suportar o grande nada
da existência produtiva

prestes a convulsionar
entro em férias
parece até que algum gerente
dividiu o ano em 12 meses
e não Deus, em suas peripécias
no sexto dia
quando teorizou o capitalismo
num mármore de Carrara

de férias
entre uma caipirinha e um fernet
esqueço todas as senhas de acesso
as sacanagens de um colega de repartição
os anglicismos do reitor

frente ao mar
distante das telas
sorvendo a profundidade de campo oceânica
e a luz natural de um dia nublado
recupero 0,5 graus de miopia
anunciada há seis anos
resiliente feito um vergalhão dos Gerdau
donos, aqui, da Praia Vermelha

Praia Vermelha
que sugere uma paisagem vietcongue
um posto avançado de resistência comunista
onde sangraram mariners yankees em 1976
mas é só uma baía chocha
vendida ao preço de alguns vestidos
e outros artigos urbanos pelos pescadores açorianos
(parece que o Gerdalão
quer vender essa praia ao Elon Musk
cabo canaveral do arouche)

não pensei isso lá

férias são férias
por isso toda revolução morre
num pudim de sogra
no sono desapegado do primogênito
na inteligência irrestrita da juventude
herdeiro de merreca também se acredita abençoado
e faz pacto metafísico com o conforto imaginado pela mãe

como herdeiro de uns trocos
estudo legislações
projeto possíveis litígios familiares
assumo a personalidade de um porco
apesar dos porcos serem mais fiéis
do que qualquer personagem de inventário
e mais suculentos
inclusive porque malditos
entre judeus e cristãos do velho testamento
(sem falar dos veganos)
(adoro ser iconoclasta)

só a renúncia absoluta
de todas essas benesses nulas
nos levaria a um novo
estágio civilizatório
mas do que vale Cuba
quando temos o Capitólio?

música para contrabaixo

sonho devagar
sonho passa sem parar
um tecido
a pele rasgada
de homens nobres
e seu computador
como anti-mutantes que são
fazem parte da conspiração
homens robôs astronautas do norte

amor bacana a Madona tem
os bacantes
fantasmas delirantes
do modelo feliz de estar bem

bem-estar

vendo casa mobiliada
com casamento feliz
pela bagatela de viver por um triz
consumindo a carne
que só quer consumir
as carnes a rodar por aí

sensações refrigeradas
prazo de validade a definir

Felipe Gue Martini é professor e pesquisador da Comunicação, com interesse nas áreas de linguagem audiovisual e escutas musicais. Realizador audiovisual, diretor do documentário “A rua e a casa” (2025). Poesia e cordas (contrabaixo, guitarra e violão) na banda SOL, desde 1999.

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