POESIA

Mínima memorabilia, de Mar Becker

Imagem: Pierre Bonnard, The Terrasse Family, 1904.

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quase não ouvíamos a voz do pai
o que quer que tivesse de dizer, comunicava
à mãe, que transmitia a nós

o mesmo caminho torto fazíamos de volta ─
convencidas de que, se tentássemos responder diretamente
também ele não ouviria

se ouvisse não compreenderia
se compreendesse não saberia como carregar

tornava-se longe, cada vez mais
o pai ─ desbotava
(como memória passada)

seguíamos mudas, nós ─
a mudez que ele próprio viu instalar-se na casa quando
chegaram ao mundo natimortas suas
irmãzinhas gêmeas

quando lhe disseram que elas tinham desaparecido
como anjos

e a língua dos anjos os homens
não falam


mínima memorabilia, um trabalho em feitura

Mar Becker nasceu em Passo Fundo (RS) e mora em São Paulo (SP). Autora de “Cova profunda é a boca das mulheres estranhas” (Círculo de Poemas/2024), “Canção derruída” (Assírio Alvim/2023) e outros.

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