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quase não ouvíamos a voz do pai
o que quer que tivesse de dizer, comunicava
à mãe, que transmitia a nós
o mesmo caminho torto fazíamos de volta ─
convencidas de que, se tentássemos responder diretamente
também ele não ouviria
se ouvisse não compreenderia
se compreendesse não saberia como carregar
tornava-se longe, cada vez mais
o pai ─ desbotava
(como memória passada)
seguíamos mudas, nós ─
a mudez que ele próprio viu instalar-se na casa quando
chegaram ao mundo natimortas suas
irmãzinhas gêmeas
quando lhe disseram que elas tinham desaparecido
como anjos
e a língua dos anjos os homens
não falam
mínima memorabilia, um trabalho em feitura
Mar Becker nasceu em Passo Fundo (RS) e mora em São Paulo (SP). Autora de “Cova profunda é a boca das mulheres estranhas” (Círculo de Poemas/2024), “Canção derruída” (Assírio Alvim/2023) e outros.