Julia Raiz
Curitiba – PR
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A mulher está sentada à mesa com o pai, ele conta uma história de infância. O cachorro da casa contraiu raiva e tentou morder o avô. A família decidiu trancar o animal em um quartinho no fundo. O cachorro chorava dia e noite e arranhava a porta sem parar. Só destrancaram o quarto quando o animal morreu de fome. Antes de conhecer essa história, a mulher já sonhava com animais trancados que a devorariam se ela abrisse a porta de casa.
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Ela foi apaixonada por um homem durante vinte e cinco anos. Ela, quinze anos mais velha. Depois que os filhos cresceram, os dois puderam ficar juntos, mesmo ele sendo casado. Se encontraram por meses até o homem ser hospitalizado. Em agosto, fez um ano que ele morreu, jovem, aos quarenta e cinco. Teve uma infecção generalizada e não voltou mais. Ela chora por ele.
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Didi-Hubermann diz que a emoção contada em terceira pessoa impacta mais. “Ela chora” é mais forte do que “eu choro”.
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No museu, existe uma máscara-choro. Foi capturada nos anos 1930, trazida da bacia do Rio Uaupés no Amazonas. O povo wanano foi quem a fez com entrecasca de árvore pintada e madeira de matamatá para as franjas. É uma máscara que cobre o corpo todo. O ser inteiro chora. Está do lado das máscaras onça, cabá, andorinha e papagaio. Com mangas compridas, penas na fronte e uma longa trança, a máscara-choro continua exalando cheiro de mato mesmo depois de tanto tempo. Quem toca suas franjas, sente o frenesi da presença. Ela permanece altiva, indisponível e chorando, certa de que já esteve em outros lugares e que estará em outros lugares no futuro.
5
No vídeo, uma criança palestina é morta por um atirador israelense. A câmera está atrás dele. Do atirador só se vê sua arma. A professora explica que isso é uma metonímia. Um rapaz entra no quadro e tenta recuperar o corpo da criança morta, a arrasta pelo pé. A parte pelo todo, isso é uma metonímia. O rapaz também é alvejado. Não se sabe se existe parentesco entre o rapaz e a criança. A professora está traduzindo Antígona, a história de uma moça da nobreza que desobedeceu ao rei para sepultar o cadáver apodrecido do irmão, protegê-los dos cães e pássaros famintos. O guarda do rei Creonte fica triste de pegar Antígona no flagra, mas antes ela do que eu, e quem pode dizer o contrário? Os laços familiares são fracos, os laços consanguíneos são fracos, os políticos, os filosóficos, os de espécie, todo os laços, fracos demais, pensa a professora. Chorar pelos outros. Há algo além dos laços que sustenta a solidariedade. Algo amplo e sem nome.
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Conivência vem de connivere que quer dizer piscar, fechar os olhos por um momento quando a cena é insuportável.
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Chorar tem a ver com apaixonar-se: os olhos embaçam. O mundo está ofuscado pelo brilho da água nos olhos. Ele não pode pagar alguém nem para chorar no seu lugar nem para apaixonar-se por ele.
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Ela sonhou com uma fatia de presunto enrolada em forma de charuto. Toda vez que ela sonha com carne alguém morre. Quanto mais sangrenta a carne, mais próxima a pessoa que vai morrer. Ela conta o sonho pelo telefone para uma amiga e começa a chorar. Será que ela sonhou com carne vermelha antes do homem que ela amava morrer?

Julia Raiz é uma escritora, tradutora e pesquisadora brasileira ligada à cena literária de Curitiba, cuja obra reúne ficção, poesia, ensaio e performance com forte caráter experimental. Doutora em estudos literários pela UFPR, ela aborda temas como corpo, maternidade, linguagem, religiosidade e relações humanas em livros como Diário: a mulher e o cavalo e Metamorfoses do Sr. Ovídio. Além da produção literária, atua em oficinas, podcasts e projetos de incentivo à leitura, defendendo a escrita como prática artística, cotidiana e política, em diálogo com feminismo, tradução e experiências íntimas.

Julia Raiz escreve como quem chora a dor inevitável da vida.