PASSAGEM
eu sou a própria
solidão que brinca
de visitar jardins
um banco caiado
uma fonte uma
árvore plantada
por mãos já esquecidas
ó soleira do mundo
és morada estranha
de janelas tortas
e portas que rangem
desassossegos
§
COLIBRI
nessas horas lentas
quando tudo é antídoto e promessa
derreto-me numa doçura urgente
ardente
melodicamente sentida
algo de inconfessável me paralisa no ar
me ouriça antepassadas mesuras
suplica mais um instante para ouvir
um a um
os pressentidos poros
se acordando
recorro à pena
grito ao infinito
me corrompo
rio de dentro
fluxo que imprime seiva e suor
no mata-borrão do invernoso tempo
e embeleza o adiar do fim
o leito
ais
sais
os pássaros solfejam
replicam a canção inaudita
em inconfundíveis sons
traduzem a convulsão da candura
riem de nós
e de como cultuamos
o imponderável
chegado
o esfumato enigma de tua boca
efusivas russélias no horizonte da espera
e onde me deito
deixo
me quero
§
FOME
a noite é esfaimada
— e ao despetalar o sol,
emudece os pássaros
mas a lua, farta,
logo começa a cantar…
a bicar o céu
§
VERSOS ÉBRIOS
Eu não pedi pra ser, do mundo, um resto, um pária,
vender palavras vis… nos bares, um mascate…
Temer e descobrir que a insônia ronca e late,
que a fome nos corrói, que a rua é solitária.
Eu não pedi pra ser, da noite, o amargo vate
e em todo rosto nu, beber miséria vária…
cantar à multidão alheia à minha ária,
e a sombra ver deitar na esclera já escarlate.
À flor da treva, a luz de um gole; um grito à horda!
O calçadão e o verbo são-me o frio afago!
Selene a tudo vê, e o breu sorri violeta…
Escrevo pra esquecer… e a musa me recorda
que não ganhei do céu além disto o que trago:
silêncio assaz atroz, um sonho na sarjeta.
§
ÁGUAS
Um rio caudaloso: assim me vejo.
Encontro de afluentes gozos, mágoas.
Nascente insinuante, em mim deságuas,
em fúlvidos filetes, teu cortejo.
Escondo, no caudal de turvas águas,
barrancas destruídas sem dó, pejo.
Entre igapós e feras, rumorejo
as líquidas lembranças, ou apago-as.
As garças me acalentam nas auroras;
há lâminas de pedra em toda parte;
partilham meu degredo, as canaranas.
Da margem esquerda, doce, te assenhoras.
Se, paraná, desdobro-me a abraçar-te,
é por sonhar o mar por que tu emanas!
§
MORTE SÚBITA
Não pode haver tormento mais ferino
que o de um poeta ao escandir um verso:
fingir que aparta o dito e seu inverso,
sem dor, feito cisão de alexandrino.
A lâmina mordaz com que converso,
para arrancar de mim um desatino,
descuida de que o fluido cristalino,
é, na verdade, sangue incontroverso.
Se é de silêncio a cura por que anseio,
lá vem, de pedacinho em pedacinho,
sangrar-me a voz já rouca, a arguta espada.
Quando é para cantar, partir-me ao meio,
jorrar do peito a ode onde me aninho,
estanco… e o golpe fundo não diz nada.
Luciana Nobre nasceu em Fortaleza e se mudou para Manaus aos catorze anos. Formou-se em Letras pela UFAM, onde se especializou em Produção Textual e está concluindo mestrado em estudos literários . É membro da Academia Brasileira de Sonetistas-ABRASSO e do coletivo de mulheres Enluaradas. Escreve poemas, crônicas, ensaios, contos. Participou das coletâneas da Abrasso e Off Flip, além de antologias como o Tomo das Bruxas, De mim para ti, A imortalidade amazônica, Escrever é uma alegria. Suas obras individuais estão no prelo.
