PASSEIOS AO AR
Para o meu Francisco José
Aérea me torno quando ele me toca. E alcanço
mais um grau nesse ascenso
quando seus olhos entram nos meus.
O silêncio faz parte desse elemento mútuo.
Nada se diz: tudo se faz sem mementos, de cor –
apenas pela sapiência das mãos que se elevam
e riscam o ar com promessa de nuvens
acalanto de pássaros, azul e branco se enfrentando
a criar um sinal. Que ainda não se lê com clareza
mas que já se degusta por clarividência.
Usina gozosa de proezas.
Pena o verso não acompanhar a leveza
com que esse ar me bafeja –
e penso então num sopro que lance um jato de clarão
sobre as palavras e as encha de asas.
Ninho alto de adjetivos
amenos de painas ou de páginas arremessadas
no furor da nave que parte – destino desconhecido
rumo a um país estremecido de amor. Lá das alturas
(planetas, estrelas, astros) somos só um satélite
a povoar o céu que compõe Sagitário:
apenas dois amantes atingidos por seu certeiro arco.
Vênus que (de vez em quando) passa por lá
nos desvelará à Terra:
um pela alvorada (Estrela Dalva)
outro pelo crepúsculo (Estrela Vésper)
ambos envolvidos no éter da luz eterna.
Nenhuma nebulosa nos impedirá de sermos um.
§
O MITO
LEDA E O CISNE
I
Escrevo com a mão doente, a que me escapa
a que não pôde impedir Zeus de me possuir.
A que sombreia, desde então, a minha escrita –
gatafunhos que sequer sei nominar. Só faço silabá-los na mudez
das entranhas visitadas, com grunhidos de gansa fugida –
avatar em que (oh meus cuidados!) me tornei.
Com ou sem consentimento
(por acaso indagam os deuses?)
fui fecundada. Ovos não me faltaram
(tanto os gêmeos quanto os demais)
— nem catástrofes. E mesmo sedução.
II
Como resistir àquele emplumado resplendor,
àquela urgência branca sobre mim imbricada?
O majestoso bico (delicadas e miúdas lamelas)
a valer-se do longo, flexível e erótico pescoço
a emprenhar-me com beijos, toques,
sábias carícias na nuca e nos seios
cafunés nos cabelos, e em outras partes que
(por puro pudor)
declino mencionar?
As acolchoadas penas contornando-me em doce prisão
(braço a braço, o corpo inteiro) — albergando-me
ao imolar-me com deleites de berço ou de sudário.
A mim, que (desprecavida) apenas me banhava, serena
em mansas águas, sem pressentir a inominável
presença do inefável instinto —
menos ainda da ampla insistência das asas.
III
As horrendas patas negras não vi.
Tão-só o aéreo branco imaterial do tirano
o assomo de penas algodoadas dando colo
a meu desfalecimento, que ainda de novo experimento:
basta pensar.
Bem vaticinou Keats
(sobre aquele bruto tremor de pélvis)
que já ali se geravam a guerra, a beleza, a traição.
Homero se ocupou das filhas do meu infortúnio,
cada qual ainda mais linda
— rainha, viúva ou assassina —
cada qual no seu próprio estilo. Culpa do pai bastardo que
(senhor de tantos engodos)
as distinguiu com litígios e saques, sequestros e ciladas
diante de uma Tróia dez anos sitiada.
IV
Há tempos, desde o princípio
(do Olimpo)
distraia-se ele (oh lúdica aposta!) com brinquedos da onipotência:
pomos de ouro ou de discórdia, augurando
o instante certo de soprar – (magnânimo!)
ao inimigo (no ouvido) o cavalo a ofertar.
Vez por outra, se humilhava em desculpar-se com Hera:
justo ele – monogâmica ave que
a nenhuma amante foi constante.
Deuses são deste naipe: se entretêm em criar mitos.
Eu sei, porque – mísera princesa! –
fui nascida para municiar tal empresa.
Maria Lúcia Dal Farra nasceu em 1944 em Botucatu, interior de São Paulo, Brasil. Autora de diversos artigos, ensaios e livros dedicados a Florbela Espanca (aí incluído o Caleidoscópio Florbela, inventário da fortuna crítica da poeta, 2023), possui um livro de ficção, Inquilina do intervalo (2005), e cinco títulos de poesia: Livro de Auras (1994), Livro de Possuídos (2002), Alumbramentos (2011, Prêmio Jabuti de Poesia 2012), Terceto para o fim dos tempos (2017) e Livro de erros (2024). Com mestrado na obra de Vergílio Ferreira e doutorado em Herberto Helder, foi professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Universidade de São Paulo (USP), Unicamp e Berkeley (Califórnia, EUA). Também pertenceu à equipe pioneira de Antonio Candido na fundação do Departamento de Teoria Literária e do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Maria Lúcia Dal Farra dispensa comentários. Para mim, a exímia poeta é amiga, irmã, consórcia no ofício da linguagem e simplesmente Musa na nada fácil tarefa de recriar a realidade no (des)caminho das palavras. Tenho dito.