era uma vez, muitas vezes,
uma província deverasmente distante e real
cujo mito demiurgo incrustado nas mais
recônditas e herméticas pregas da cultura local
narra as aventuras de centauros cuja origem
tudo leva a crer
deriva do intercurso sexual entre homens
e éguas
um mundo habitado por guaxos,
machos órfãos de mãe, crias enjeitadas,
orelhanos arrebanhados, capados e assinalados
com valor e constância por uma civilização
que, se perigar, enfileira as estrelas do céu em
ordem unida
e bota o sol a bater ponto
era uma vez hoje de manhã,
um pouco antes de eu acordar
era uma vez quando pegamos no sono ontem
essa relíquia antropológica absolutamente
patriarcal onde – mario de andrade, cadê vc?
homens de paternidade duvidosa
matam constantemente a mãe de duas patas
assim realizando o mito
de sua passagem triunfal à civilização
dos homens
só dos homens
o gentílico da pátria gaucha é taura valente
e pra ser bem taura não se pode ter eira
nem beira, nada cuja perda
transcenda suas façanhas
— as mulheres nos fazem amar a vida,
recomendava-se aos toureiros que
se abstivessem delas
mas a tragédia é anunciada
os mitos são poderosos e vingativos em falhar
sempre que o folclore, a pátria, a família, deus,
a cultura de um povo, alguma antropologia
julgam tê-los traduzido, trazido-os das
profundezas de alguma realidade
mais legítima do que a vivida
assim o é, ainda mais com esses mitos modernos
contados e recontados
pelos aprendizes de feiticeiros
ilustrados faroleiros da divindade domesticadora
que nomeiam de virtude
o poder de assujeitar o selvagem em servil
a ilusão de
o mito falha e ri
com todo respeito e amor às éguas
dos próceres filhos de uma égua
mais toscos do que nunca e sem as quatro patas
que preferiam ter
os mais fanáticos, para se certificarem, matam
também a mãe de seus filhos
os aguerridos, as próprias filhas
a serviço de uma cultura só de homens, um útero
não-humano
a serviço de uma cultura só de homens, uma
boceta equina
eu tendia a ver essas relações sexuais
como uma possibilidade
afetiva
uma tecnologia erótica
desenvolvida em um ambiente onde se finge
que mulheres foram extintas séculos pratrasmente
achava até bonito esse amor além-fronteiras,
transespécies
hoje minha visão enviesou,
tenho andado demais com éguas
não consigo ver isso para além do estupro
da terra, dos territórios, das mulheres indígenas,
das mulheres negras, das galinhas, das esposas,
das porcas
não consigo ver essas aventuras
para além da violação das meninas
e dos meninos
desmontar o centauro:
a quebra dos pactos
desmontar e partilhar
a mesma altura
de jamais o mesmo horizonte
desmontar e pertencer
a mesma poça de sangue
em qual das partes romper os vínculos
em quantas coisas quebrar?
qual dos troços sofrerá
da ferida incurável?
serão os estilhaços quimeras novas?
soldar a metáfora
assumir a opacidade da vida
suportá-la
e os farrapos de gente sempre
com brios demais
fenecerão a coragem dos espertos
sobreviver à quebra dos pactos
cuspir as presas
perder os cascos
cavoucar nos rasgos
no entre-lanhos
a loucura
nela olhar nos olhos
beijá-la liberdade
chamá-la irmã
desmontar o centauro
desmontado
antes que
nos frature ele
a todas
ainda insisto em palavras
depois de
tudo ainda
temo estar abandonando
a ridícula
chance de mudar
os rumos da tragédia
e suspender o castigo de ocyrhoe
como se égua toda
e não como o pai, as duas partes
ela ainda fosse querer falar
antes fosse plena de
barbaridades
eu já disse
esta linguagem está exausta
o nome é tupi
mas o mito ainda é grego
e orna poemas para serem lidos
com a ajuda de aparelhos
pela juventude do século vinte
insisto ainda no caminho
indelével
que percorre a língua
até que venha dar entre os dentes
Marília Floôr Kosby é uma poeta gaúcha, nascida na cidade de Arroio Grande, extremíssimo sul do Brasil, em 1984. É autora dos livros de poemas mugido [ou diário de uma doula] (2017), Os baobás do fim do mundo (2011; 2015) e Siete colores e Um pote cheio de acasos (2013), e do ensaio Nós cultuamos todas as doçuras: as religiões de matriz africana e a tradição doceira de Pelotas (2015) — obra contemplada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 e com o Prêmio Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial IPHAN, 2015. Seus poemas estão em diversas revistas brasileiras de literatura e arte. É doutora em Antropologia Social, com formação complementar em futebol amador. Atua também como compositora, participando de festivais de música popular. Seu mais recente livro, de onde vêm estes poemas, foi publicado pela editora Coragem e chama-se Desmontadas – epopeia sem taura na província dos filhos de uma égua.

incrível!