POESIA

Poemas de Marília Floôr Kosby

Imagem: Horse playing a flute and drum, 13th century.

era uma vez, muitas vezes,
uma província deverasmente distante e real
cujo mito demiurgo incrustado nas mais
recônditas e herméticas pregas da cultura local
narra as aventuras de centauros cuja origem
tudo leva a crer
deriva do intercurso sexual entre homens
e éguas

um mundo habitado por guaxos,
machos órfãos de mãe, crias enjeitadas,
orelhanos arrebanhados, capados e assinalados
com valor e constância por uma civilização
que, se perigar, enfileira as estrelas do céu em
ordem unida
e bota o sol a bater ponto

era uma vez hoje de manhã,
um pouco antes de eu acordar
era uma vez quando pegamos no sono ontem
essa relíquia antropológica absolutamente
patriarcal onde – mario de andrade, cadê vc?
homens de paternidade duvidosa
matam constantemente a mãe de duas patas
assim realizando o mito
de sua passagem triunfal à civilização
dos homens
só dos homens

o gentílico da pátria gaucha é taura valente
e pra ser bem taura não se pode ter eira
nem beira, nada cuja perda
transcenda suas façanhas
— as mulheres nos fazem amar a vida,
recomendava-se aos toureiros que
se abstivessem delas

mas a tragédia é anunciada
os mitos são poderosos e vingativos em falhar
sempre que o folclore, a pátria, a família, deus,
a cultura de um povo, alguma antropologia
julgam tê-los traduzido, trazido-os das
profundezas de alguma realidade
mais legítima do que a vivida

assim o é, ainda mais com esses mitos modernos
contados e recontados
pelos aprendizes de feiticeiros
ilustrados faroleiros da divindade domesticadora
que nomeiam de virtude
o poder de assujeitar o selvagem em servil
a ilusão de

o mito falha e ri
com todo respeito e amor às éguas
dos próceres filhos de uma égua
mais toscos do que nunca e sem as quatro patas
que preferiam ter
os mais fanáticos, para se certificarem, matam
também a mãe de seus filhos
os aguerridos, as próprias filhas

a serviço de uma cultura só de homens, um útero
não-humano
a serviço de uma cultura só de homens, uma
boceta equina

eu tendia a ver essas relações sexuais
como uma possibilidade
afetiva
uma tecnologia erótica
desenvolvida em um ambiente onde se finge
que mulheres foram extintas séculos pratrasmente
achava até bonito esse amor além-fronteiras,
transespécies

hoje minha visão enviesou,
tenho andado demais com éguas

não consigo ver isso para além do estupro
da terra, dos territórios, das mulheres indígenas,
das mulheres negras, das galinhas, das esposas,
das porcas
não consigo ver essas aventuras
para além da violação das meninas
e dos meninos


desmontar o centauro:
a quebra dos pactos

desmontar e partilhar
a mesma altura
de jamais o mesmo horizonte

desmontar e pertencer
a mesma poça de sangue

em qual das partes romper os vínculos
em quantas coisas quebrar?

qual dos troços sofrerá
da ferida incurável?

serão os estilhaços quimeras novas?

soldar a metáfora
assumir a opacidade da vida
suportá-la

e os farrapos de gente sempre
com brios demais
fenecerão a coragem dos espertos

sobreviver à quebra dos pactos
cuspir as presas
perder os cascos

cavoucar nos rasgos
no entre-lanhos
a loucura
nela olhar nos olhos
beijá-la liberdade
chamá-la irmã

desmontar o centauro
desmontado
antes que
nos frature ele
a todas


ainda insisto em palavras
depois de tudo ainda
temo estar abandonando

a ridícula chance de mudar
o
s rumos da tradia
e s
uspender o castigo de ocyrhoe

co
mo se égua toda
e não como o pai, as duas partes
ela ainda fosse querer falar


antes fosse plena de barbaridades
eudisse
e
sta linguagem está exausta

o no
me é tupi
mas o mito ainda é grego
e orna poemas para serem lidos
co
m a ajuda de aparelhos
p
ela juventude do culo vinte

insi
sto ainda no caminho indevel
q
ue percorre a língua
aque venha dar entre os dentes

Marília Floôr Kosby é uma poeta gaúcha, nascida na cidade de Arroio Grande, extremíssimo sul do Brasil, em 1984. É autora dos livros de poemas mugido [ou diário de uma doula] (2017), Os baobás do fim do mundo (2011; 2015) e Siete colores e Um pote cheio de acasos (2013), e do ensaio Nós cultuamos todas as doçuras: as religiões de matriz africana e a tradição doceira de Pelotas (2015) — obra contemplada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 e com o Prêmio Boas Práticas de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial IPHAN, 2015. Seus poemas estão em diversas revistas brasileiras de literatura e arte. É doutora em Antropologia Social, com formação complementar em futebol amador. Atua também como compositora, participando de festivais de música popular. Seu mais recente livro, de onde vêm estes poemas, foi publicado pela editora Coragem e chama-se Desmontadas – epopeia sem taura na província dos filhos de uma égua.


Um comentário sobre “Poemas de Marília Floôr Kosby”

  1. Dean disse:

    incrível!

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