Traduzido por Lucio Carvalho
Michel Houellebecq, nascido Michel Thomas (1956 – ), é mais reconhecido por romancista do que por poeta, mas foi a poesia sua porta de entrada na literatura. Ainda nos anos 80, publicou em revistas como Karamazov, Digraphe, Présages e Nouvelle Revue de Paris. Em 1991, publicou seu primeiro livro de poemas, La poursuite du bonheur. Mais conhecido pelos internacionalmente polêmicos Extensão do domínio da luta e Partículas elementares, Houellebecq continuou escrevendo poesia ao tempo da publicação de seus romances. Influenciado por Baudelaire e por HP Lovecraft, seus poemas em sua maioria seguem esquemas metrificados e rimas concatenadas, e refratam intencionalmente o leitor numa postura depressiva e até certo ponto misantrópica, mas que em vários momentos permite antever outros temperamentos. As traduções a seguir basearam-se na edição bilíngue Unreconciled: Poems 1991-2013, traduzidos ao inglês por Gavin Bowd, de 2017.
Não tenho mais um interior,
nem paixão, nem calor;
portanto estou reduzido
ao meu próprio volume.
Sempre há um momento em que se racionaliza,
sempre há uma manhã em que o futuro é abolido,
o caminho é reduzido a uma extensão cinzenta
sem sabor e sem alegria, pouco a pouca arrasada.
§
Je n’ai plus d’intérieur,
De passion, de chaleur;
Bientét je me résume
A mon propre volume.
Vient toujours un moment ou I’on rationalise,
Vient toujours un matin au futur aboli
Le chemin se résume a une étendue grise
Sans saveur et sans joie, calmement démolie.
§
Um campo de intensidade constante
varrido de partículas humanas.
A noite se instala, indiferente;
a tristeza invadiu a planície.
Onde redescobrir a brincadeira ingênua?
Onde e como? O que se deve viver?
E qual o sentido de escrever livros
no deserto desatento?
Serpentes rastejam sob a areia
(sempre em direção ao norte).
Nada na vida é reparável,
nada resta após a morte.
Cada inverno traz suas exigências
e, cada noite, sua redenção.
Cada era do mundo, cada uma tem seu sofrimento
inscrito em cada geração.
Assim, gerações sofredoras,
amontoadas como pulgas d’água
procuram contar até zero
os sensores da vida ausente
e todos falham, sem muito drama.
A noite cobrirá tudo
e o esgotamento monogâmico
a um corpo afundado na lama.
§
Un champ d’intensité constante
Balaie les particules humaines
La nuit s’installe, indifférente;
La tristesse envahit la plaine.
Ou retrouver le jeu naif?
Ot et comment? Que faut-il vivre?
Et a quoi bon écrire des livres
Dans le désert inattentif?
Les serpents rampent sous le sable
(Toujours en direction du Nord)
Rien dans la vie nest réparable,
Rien ne subsiste aprés la mort.
Chaque hiver a son exigence
Et chaque nuit, sa rédemption
Et chaque age du monde, chaque age a sa souffrance,
Sinscrit dans la génération.
Ainsi, générations souffrantes,
Tassées comme des puces d’eau
Essaient de compter pour zéro
Les capteurs de la vie absente
Et toutes échouent, sans trop de drame,
La nuit va bien recouvrir tout
Et l’épuisement monogame
Dun corps enfoncé dans la boue.
§
VOCAÇÃO RELIGIOSA
Estou num túnel de rocha compactada;
dois passos à esquerda, um homem sem pálpebras
me aglutina; ele diz que é livre e orgulhoso.
Ainda mais ao longe, uma catarata estoura.
Esta é a descida das montanhas, e a parada final;
o outro homem desapareceu. Eu continuarei sozinho;
as paredes do túnel parecem basalto
e está frio. Lembro do campo de palmas.
Na manhã seguinte, o ar tinha um toque de sal;
e então senti uma dupla presença. No chão cinzento,
uma linha profunda e densa serpenteia,
como o arco abolido de um antigo ritual.
§
VOCATION RELIGIEUSE
Je suis dans un tunnel fait de roches compactes;
Sur ma gauche a4 deux pas un homme sans paupiéres
M’enveloppe des yeux; il se dit libre et fier.
Trés loin, plus loin que tout, gronde une cataracte.
Crest le déclin des monts et la derniére halte;
Lautre homme a disparu. Je continuerai seul;
Les parois du tunnel me semblent de basalte,
Il fait froid. Je repense au pays des glaieuls.
Le lendemain matin l’air avait gott de sel;
Alors je ressentis une double présence.
Sur le sol gris serpente un trait profond et dense,
Comme l’arc aboli d’un ancien rituel.
§
Há um país, mais como uma fronteira,
no qual a luz é suave e praticamente sólida.
Seres humanos trocam fragmentos de luz,
mas não têm a qualquer percepção do vazio.
A parábola do desejo
encheu nossas mãos de silêncio
e cada um se sentiu morrendo,
os corpos vibrando com sua ausência.
Cortamos fronteiras de giz
e na segunda manhã o sol se aproximou.
Havia algo que se movia no céu
e uma batida muito suave fez as rochas vibrarem.
As gotas de luz
iluminaram nossos corpos machucados
como a carícia infinita
de uma divindade — matéria.
§
Il existe un pays, plutdt une frontieére,
Ou la lumiére est douce et pratiquement solide
Les étres humains échangent des fragments de lumiére,
Mais ils n’ont pas la moindre appréhension du vide.
La parabole du désir
Remplissait nos mains de silence
Et chacun se sentait mourir,
Nos corps vibraient de ton absence.
Nous avons traversé des frontiéres de craie
Et le second matin le soleil devint proche
Il y avait dans le ciel quelque chose qui bougeait,
Un battement trés doux faisait vibrer les roches.
Les gouttelettes de lumiére
Se posaient sur nos corps meurtris
Comme la caresse infinie
Dune divinité — matiére.
§
Ausência de Duração Limitada
Se eu escrever algo, isso o torna mais real? Se eu escrever no que parece ser prosa, ainda conta como poesia? Para ser sincero, não tenho a mínima certeza do que estou fazendo aqui. Nenhum de nós tem, na verdade. É tudo uma perda de tempo. Preenchendo as longas lacunas antes de morrermos.
Absence of Limited Duration
If I write something down does it make it more real? If I write in what appears to be prose does it still count as poetry. To be honest, I’m not at all sure what I’m doing here. None of us is really. It’s all a bit of a waste of time. Filling in the long blanks before we die.
Michel Houellebecq, nascido Michel Thomas (Ilha da Reunião, 26 de fevereiro de 1956), é um escritor francês. Ficiconista, poeta, ensaísta, realizador, argumentista, Houellebecq é um dos mais traduzidos autores franceses contemporâneos, e também um dos mais controversos. Michel Houellebecq é o enfant terrible da literatura francesa atual. Odiado e amado, os seus livros abordam sempre temas na moda e são altamente polêmicos, porque ele tem sempre um ponto de vista iconoclasta sobre os problemas (Wikipedia).
