Miguel da Costa Franco
Roca Sales – RS
Por que me pegou de surpresa a atitude do Tomás? Não sei bem dizer. O certo é que o tempo todo eu tentava deixar que minha filha resolvesse a questão por si. Ela me havia pedido isso com todas as letras quando preferiu entrar sozinha na casa para juntar as suas coisas e partirmos, de vez, de volta ao Brasil.
Manuela insistiu que ele nunca tinha batido nela e estaria segura. As violências que a oprimiam eram de outra ordem, como me havia explicado naquele almoço à beira-mar, depois que se recompôs do choro compulsivo que brotou do nada. Ele queria sempre monitorar seus passos. Era muito ciumento. Não a deixava trabalhar sozinha, apenas em dupla com ele. Queria transformá-la na mulher do lar que ela não aspirava a ser, pois eram dele a casa em que moravam e a maior fonte de renda dos dois. Ele retrucava sempre aos berros diante de qualquer tentativa de discussão de algum desses temas delicados. Estressava-se por qualquer coisinha. Tinha expulsado uma amiga que a visitava, por que ela havia discordado de alguma opinião dele.
Ela queria ir embora porque estava infeliz, ainda que gostasse dele, pois má pessoa ele não era. Bastava ver como todos o adoravam, especialmente as crianças, naquela pequena comunidade em que viviam: uma aldeiazinha camponesa a noroeste de Lisboa.
Eu era um homem respeitador e tinha um autocontrole razoável. Fiquei esperando o desfecho da separação do lado de fora, em frente ao jardim da casa, escorado no para-choque de um furgão vermelho. Confesso que estava nervoso como nunca. Havia sido apresentado pessoalmente ao tal Tomás há apenas dois dias, quando tinha chegado de viagem, conhecera a morada do casal e jantara com eles um ótimo caldo verde. Não me pareceu, na ocasião, ser um companheiro tão controlador. Só após o desabafo de Manuela tinha entendido por que razão havia sido tão difícil traçar um plano de viagem a sós com ela para aquelas semanas de férias por Portugal. Era aquele parceiro autoritário e explosivo o grande obstáculo.
Ainda que minha filha me garantisse que tudo se resolveria com diálogo, eu só pensava no taco de beisebol que tinha visto encostado na lareira, nos três punhais dispostos sobre o aparador no hall de entrada, na coleção de facas sobre a bancada da cozinha, na machadinha posta como decoração na parede sobre o vão de acesso à sala e na cicatriz de um soco poderoso na porta do lavabo, afundando a chapa de madeira aglomerada. Tinha notado ainda um saco de pancadas para treinar golpes de punhos e pernas pendurado na garagem. Aquela casa, vista agora com olhos menos complacentes, dava provas de ser a toca de um homem violento. Eu não deixava de pensar que os feminicidas só passam a ser assim chamados após fazerem a sua primeira vítima, quando contrariados. Matam uma vez e são presos. Fim. Para o meu suplício, quem estava lá dentro com aquele tipo destemperado era a minha filha Manuela.
A avó de Tomás, Dona Francisca, que morava no andar superior do mesmo prédio, e parecia ter algum controle sobre o neto, saiu assim que o casal começou a discutir.
De onde eu esperava, quase nada se ouvia da falação no interior da casa. Às vezes, uma breve altercação, onde troava mais forte e alvoroçada sempre a voz de Tomás. Eu desejava que tudo se resolvesse de forma tranquila, pois, em situação de violência, não só Manuela, mas também eu poderia ser uma vítima fácil – o sogro indigesto, velho e frágil –, cuja presença havia trazido à tona a insatisfação feminina, antes sufocada. E que dera à filha, com seu dinheiro e seu carro alugado, uma possibilidade concreta de escape imediato.
Como o tempo se escoava sem solução aparente, e minhas unhas já não resistiam ao ataque voraz dos meus dentes, resolvi pedir ajuda, via chamada por celular, para a avó. Que ela intercedesse junto ao neto para que deixasse Manuela partir. Era o seu desejo expresso e, agora, também dele, o pai amargurado. A demora para o desfecho não era um bom sinal, pois a menina havia entrado em casa com sua decisão já tomada.
A avó atendeu ao meu pedido e apareceu dez minutos depois. Admitiu, candidamente, que preferia sempre estar ausente quando percebia que Tomás se alterava. Ele não era fácil de tratar, mas tudo se resolveria bem. Concordava que partir seria melhor para Manuela, uma pessoa doce, a quem se afeiçoara muito, e que não merecia aquilo tudo. Que eu esperasse tranquilo, enquanto ela entrava para ajudá-la.
A expressão “não merecia aquilo tudo” virou uma bolinha de gude rebatendo nas paredes internas da minha calota craniana. Enxaqueca instantânea. Lembrei que Manuela me havia dito, en passant, que o melhor amigo de Tomás tinha ficado seis anos na cadeia, o que não era pouca coisa. Preparei-me para o combate, que me parecia cada vez mais próximo. Reconhecendo minha inferioridade física, tratei de garantir uma fuga rápida, se necessário: abri o porta-malas do carro, deixei as portas entreabertas, as chaves na ignição.
A avó retornou de sua incursão ao interior da casa trazendo uma primeira mala, que encontrou fechada no centro do living. Fiz menção de ajudá-la a pegar o restante da bagagem de Manuela, mas a avó me freou:
– É melhor o senhor ficar por aqui. Não o provoque.
Respirei fundo e acomodei a mala no bagageiro, ocupando-o quase todo.
A segunda valise que Dona Francisca resgatou da casa, também gigante como a primeira, eu tive de depositar sobre o banco traseiro do carrinho minúsculo que eu tinha alugado. Faltavam agora só duas mochilas de mão, segundo a avó.
Fechei o porta-malas e voltei a me apoiar, ansioso, no para-choque do furgão vermelho. Um vizinho cruzou por mim – talvez tivesse ouvido mais coisas do que eu pelos lados da casa – e soltou um comentário pouco animador:
– O rapaz não é fácil. É preciso ter paciência.
Ouvi a voz aguda da avó, interpelando o neto, agora desde o hall de entrada.
– Deixa ela sair, Tomás!
Ergui-me e preparei os músculos para o combate. A porta se escancarou com violência e dela brotou o casal, meio entrelaçado num desconfortável abraço de ursos. Os dois deram-se um beijo sufocante, ele a estreitando contra si. Depois, Tomás saiu porta afora, alucinado, gritando que ela iria se arrepender. Ele era o amor da vida dela. Embarcou em seu Renault branco e saiu, rua acima, fazendo gritar os pneus.
Manuela, desde a porta, despediu-se da Dona Francisca, com um abraço carinhoso e agradecido. Senti a tensão arrefecer um pouco. Ela tinha conseguido desfazer a relação a seu modo, sem a minha intervenção, como havia me pedido. Não queria sair do jugo de um companheiro mandão pelas mãos de outro homem, a quem já devera obediência no passado. Grande garota!
Mas por que me pegou de surpresa a atitude do sujeito? Como já disse antes, ainda não sei bem o que dizer. Às vezes, não enxergamos o óbvio. Estamos tão fixados em valorizar algum aspecto mais simpático da realidade que desdenhamos do que é mais provável de acontecer.
Tomás fez o retorno na rótula logo acima de sua casa, com o automóvel derrapando e cantando pneus, e voltou pela ladeira abaixo, em direção a nós, a toda velocidade. Manuela e Dona Francisca permaneciam, às despedidas, na escadinha de acesso à residência, protegidas pelo jardim e pelo muro. Eu fiquei estático no leito da rua, vendo o Renault branco se aproximar como se disputasse um rally. Olhamo-nos, pai e filha, ainda aflitos pelo andamento das coisas. Não me movi de onde estava, contra a traseira do furgão estacionado. De algum modo, achava importante Manuela saber que eu confiava em sua visão de que Tomás não teria uma reação violenta. Ainda que eu corresse o risco de virar guisado.
Antes era eu quem cuidava dela. Agora é ela quem cuida de mim.
Manuela sempre soube que eu odeio flores murchas e pétalas com bordas amarronzadas. Repõe com frequência flores frescas nos dois vasinhos laterais que decoram minha nova morada. Passa um pano na campa de mármore, limpa a foto estampada na lápide e dá uma polida caprichada na frase em metal prateado que fixou sobre ela, logo abaixo do meu nome: “Amava sua filha e morreu por amor”.
Miguel da Costa Franco é engenheiro agrônomo e bancário aposentado. Como escritor, participou de cinco coletâneas de contos ou crônicas e é autor dos romances “Imóveis Paredes” e “A filha do Dilúvio” (Ed. Libretos), da coletânea de contos “Não Romance” (Ed. Metamorfose) e da novela “Os Heróis do Parque Borowski” (Boaventura Editora). Roteirista do curta-metragem “O último desejo do Dr. Genarinho” (RBS/Casa de Cinema); corroteirista do telefilme e da série de tevê “Doce de mãe” (Globo/Casa de Cinema) e do longa-metragem “A filha do Dilúvio” (Prana Filmes), em captação de recursos. Colaborador no roteiro do longa-metragem “Aos olhos de Ernesto” (Casa de Cinema). O conto integra a coletânea de contos “Mentiras, Verdades e Outras Falsidades“.
