POESIA

As incontáveis passagens

Imagem: Acervo pessoal.

Marco de Menezes
Caxias do Sul – RS

Odegar Junior Petry (1963—2014) era uma grande figura; morador do bairro Rio Branco, em Caxias do Sul, vizinho de um mosteiro, de um quartel, de uma dúzia de bares e lancherias, vizinho de um outro poeta (sua nêmesis especular, inimigo desde a infância), mistura de frade menor capuchinho e garçom jacobino, monge e arqueiro, trazia dentro de si o barulho do punk e o silêncio do pós-punk, a ironia e a leveza, a brabeza e a alegria, o zine e o zen. Tive, ao longo de 2010 e 2011, a grande felicidade de editar um dos seus raros livros, uma breve antologia chamada Rol dos insensatos, publicada pela Modelo de Nuvem em 2011, de onde escolhi os poemas desta seleção para a Especiaria. Ao final, seguem ainda uma crônica minha de jornal sobre uma história que ele me contou por e-mail, de madrugada, e um poema que fiz após sua súbita morte, e que publiquei em um dos meus livros.

família

a chave abre a porta
a porta abre a casa
a casa guarda
dramas de família
a família guarda segredos
os segredos revelam tudo

§

sem deus

cada dia que passa
vejo mais anjos
cada vez mais

converso com árvores
mensagens siderais
nas incontáveis passagens

que abrem mundos
que dilatam e encolhem
sem deus

§

O3

unhas no isopor
torpor sem sol
dentes trincados
como giz
no quadro negro
o áspero
o estriado
o trem e o trilho
atrito
faísca
chão de cascalho
sapatos de alpinista
chuva de pedra
teto de zinco
frágua
um verão de estufa
camisa colada ao corpo
vento bafo de forno
artérias derretidas
niilismo fatal

§

neve de granizo
 
dia revolto
derrubando edifícios
a pedra chove
querendo ser neve
 
pequeno
admiro grande tempestade
 
pensamento agudo
a vidraça bate
acorda o tremor da terra
 
ventania 
faço voltas
pela casa
agarrado no livro
que escolhi para ler

§

mulher e árvore

lá estava a árvore
quieta sem compromisso
só ser árvore
 
os assassinos da árvore
são os assassinos da mulher
ser mulher
que morava em frente
árvore inocente  agora cúmplice
 
que deixassem a árvore!
hoje a dona da casa estaria viva
e a árvore também
 
morreu a árvore
morreu a mulher

§

pena de moraes

íamos à escola
quebrar os vidros
da vinícola em frente
jogar bola no terrão
pular o muro
que era baixo
pra gazear

íamos à aula
da professora de português
muito gostosa
aprender literatura e sexo
e masturbação com carlos zéfiro
comer a merenda que a ditadura amassou
boas e más lembranças

crianças brincavam
brincadeiras muito sérias
que erguem e destroem
pessoas

divisão de classes
racismo
castigo
generosidade
solidariedade

tinha de tudo
muito ou pouco
no pena de moraes

§

subtropicália

noites frias
relógio azul e vermelho

balas nos corpos mecânicos
botas que brotam nas flores das ruas

regulam a hora
dois anjos nus
fitando a virgem maria

§

barroco
 
carlos roberto
a tragédia é bruta
e lento é o processo
como um piano solo barroco
 
carlos frederico
encontraremo-nos
tomando caipira
no oceano atlântico
 
esse poema é para você
carlos
ecce homo
irmão
 
minha camerata
perdida
em obras
pouco conhecidas
jamais esquecerei de você

§

avenida

ela passa
a tarde cai
sobre mim

lá vai ela
leve com seu caminhar
esguia e longilínea
se distancia na avenida
e que avenida!

como ela é bonita
esguia e longilínea
leve como o dia
que se vai

§

algo meu e teu

andar andar
em cada bar
ter algo meu e teu
parece impossível

estou deslocado
talvez o espírito livre
um caos

ali além um bêbado
além um brilho
além ali o louco

olho pelos olhos mágicos
e sinto um arrepio na alma
chega de heróis e vítimas chega
quebro o limite de ser algo uniforme
uma batalha atrás da outra

minha voz rouca
diz palavras escondidas na boca

§

filha

o nome da minha filha é marina
em homenagem ao mar
ando em cima de um burro
não tenho pressa
isso quer dizer
que gosto de amar

um pinheiro
um coqueiro
na frente de casa
um dá o tom da prosperidade
o outro da felicidade
o sol brilha
e começo a cantar
uma canção alegre
de mata úmida
cor verde de sombra
com cheiro de flor
e onde moro com minha filha
que tem o nome
que vem lá do mar

§

áspero

flor nervosa
espinhosa e tensa

pele rasgada
em frangalhos

mãos trêmulas
na barra

as têmporas comprimidas
tempo nublado

pavio curto
a bomba explode

acidez no estômago
contração dos músculos

a textura da nervura
a aspereza do texto

§

futebol

todo domingo
como frango de
vitrine de cachorro

todo domingo
roo o osso
até o pescoço

domingo é dia
de caipira e cerveja
e baseado na sobremesa

domingo é dia de futebol
bola curta e muita porrada
no campo e na arquibancada

domingo é o fim

pior só um fim de domingo

§

bens

a galáxia
a terra
os olhos da morena
um grande coração
meu amor
a rua noturna
cheia de estrelas
a mais bela aurora
o ser que habita em ti
lá no fim da chuva o arco-íris
o orvalho é um choro triste
a tempestade um choro desesperado
me abraça
antes que seja
é preciso fazer algo

§

poema velho

velha orelha de dionisos
ouvindo
velhas
lamúrias
humanas


PLAC!

Jornal Pioneiro, 29.11.2012

Meu mano Odegar passou uma situação danada, quase deu com a cola na cerca. Mano Odegar é poeta e, seguindo sua autoironia implacável, já fez de tudo nessa vida e há alguns anos trabalha no ramo da alimentação, o que é um eufemismo odegariano para garçom. Garçom e poeta que são atividades amigas, o leva-e-traz e o falar-escutar, presença-ausência imitando o ritmo do cosmo que é o ritmo do poema e o caracol que tem dentro o som do universo. Mas divago. Dizia que meu amigo quase foi. Sério. Me enviou email, recém saído da protocatástrofe: meu, mudei de emprego, estava tabalhando em ana rech numa hamburgueria, fui levar o lixo pro contêiner e um cara me calçou com 38 e me levou pra dentro da hamburgueria, queria que batesse na porta pra abrirem (já tava fechada a merda da hamburgueria, estávamos fazendo a limpeza), os caras da hamburgueria viram a situação e não abriram a porta, fiquei eu e o assaltante. ele disse: vais morrer já que não abriram a porta, me deu um tiro, falhou, virou as costas e voltou, deu outro tiro e falhou também. estou vivo, tu poderia hoje estar chorando no meu buraco. abraço. a vida é bela.”

Terrível, teve de ficar no corredor do prédio (o ladrão levou as chaves) até que alguém chegasse (no caso, Dona Sueli) pra que ele pudesse esticar então o corpo, e não numa cova. No mais, ele vem aqui em casa e, apesar da gravidade dos fatos, a gente ri bastante, principalmente da parte em que o assaltante atira (PLAC!), falha o tiro, não é agora, tô salvo, ele sai correndo, então volta e atira de novo (PLAC!), de novo), à queima-roupa, pronto, morri, mas não, tô vivo, que coisa. Imaginamos o desenho animado em que, em vez de balas, saltam bandeirolas do 38, e o que estaria escrito nelas: algo mais ridículo que um PLAC!, que falasse do fracasso do assalto, da inércia da noite, do acaso do erro, da inevitabilidade do espanto. Felizmente temos o espanto, para o bem ou para o nem-tão-bem assim, temos Deleuze e Delusion, Bolaño e Marula, eu e o mano Odegar do Rio Branco, que está aqui comigo, inventando piadas e palavras-valise e rindo à toa da ingratidão alheia.


frágua

de Pequena madrugada antes da meia-noite, 2016

Em 2010, Odegar me falou de um poema que queria ver publicado, num volume de nome Frágua, que seria pra sempre e do qual não existiria nenhum. No poema, o poeta ferreiro, Vulcano para os capuchinhos, com a cabeça no trilho (perto da casa dele passavam trilhos que já não levavam a lugar nenhum) ouvia o desgraçado coração da cidade e, doente com seu ritmo, punha-se a martelar com as próprias mãos os dormentes (isso foi o que ele me contou sobre o tal pequeno poema). Mas o poema não tinha mesmo nem trilho nem menção a cabeça, a cidade, a coração. No poema sequer havia um ferreiro ou uma casa próxima aos trilhos nem sequer trilho ou dormente.

era um poema sobre uma chuva muito chata
batendo sobre a telha de lata
de uma latrina vazia
que era duas da tarde
já era três e já quatro
e a chuva seguia
batendo
batendo
no fundo daquele dia
lá onde a casinha dos fundos
colada num muro bem áspero
figurava ao fundo do pátio
lá onde ninguém mais ia
já era quatro e já cinco
e nada mais ocorria
nem antes nem bem mais tarde
e a chuva só redizia
umas tristes velhas sílabas
sobre a telha luzidia
no fundo daquele pátio
na beira daquele muro
e ninguém dali viria

Passavam das dezenove, Odegar vinha flotando dos lados do Áz de Ouro, no coração do Rio Branco, após uns copos de vinho branco amarelo de colônia. Vinha ele e nos pechamos e ele me disse o poema que queria chamar de Frágua, mesmo título do volume que jamais viria à luz e nem seria sobre a telha de lata no bairro mais pra oeste, onde Odegar achava-se alguns minutos do dia, lendo e sonhando a morena da praia de Curumim ou o nada.

Marco de Menezes (Uruguaiana/RS, 1968) é poeta e médico. Publicou os seguintes livros de poesia: As horas dragas (1999), Pés de aragem (2007), Fim das coisas velhas (2009 – vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura nas categorias ‘Poesia’ e ‘Livro do Ano’, em 2010), Ode paranoide (2010), Pequena madrugada antes da meia-noite (2016) e Como se constrói uma melancolia de domingo (2018). Em 2025 lançou pela Urutau o livro Como estou dirigindo.


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