DF
1
o cerrado
não mais
dialoga.
os muros
pichados
trazem o
contraste
entre a luz
fraca da
tarde e
a paisagem
dos olhos.
2
ao longo
das pistas
de skate
há as poças
de água que
nos orientam
às luzes
dos postes.
por aqui,
nenhum
adolescente;
só latas de
energéticos
e pardais
escondidos
da noite.
3
a volta
pra casa
é dolorosa.
quando se
retorna,
a vida
urbana gira
oblíqua
estranha.
tudo se esvai
pelos vidros
do ônibus.
e já se pensa
nas chaves
a abrir
o portão.
já se pensa
na varanda
escurecida.
4
nada se
perde,
as coisas
se revelam
em escalas
e jogos de
sombra e luz.
e labirínticos
que são,
os próprios
caminhos se
distorcem.
5
em Brasília,
os ipês
choram pelas
rodovias;
nós choramos
pelas
rodoviárias.
§
Retirada
Não verás mais o lume
da manhã
sobre o cabelo bagunçado.
Não verás mais as plantas
na varanda,
a velejarem o pensamento.
Não ouvirás mais o barulho
dos 14 passos,
nem o destrancar da jornada.
§
Fabiano
Não crê – não crê – não crê.
Ferida inscrita e ainda não vê.
Desgastado, ignora o início.
Pensa apenas no fim.
Pé rachado no solo rachado:
A lenta caminhada sobre a terra.
E o cão marrom ficando pra trás
Com o que resta, ainda, do sertão.
§
Lapso de razão
Aquele pardal escapou
de minhas pálpebras,
deslizou
sobre meus ombros.
Levou consigo
o brilho forte
do amanhecer.
Não rememoro bem
a delicadeza do ser.
Houve, tão somente,
uma pausa na visão,
e o pensamento
em pura abstração.
Inalcançável destreza
do voo: viver apesar de.
§
Nas brechas do tempo
Sei que muito há
de mim
nas fendas desse muro.
Há o silêncio
instalado
e desintegrado.
Onde o sutil grão
do concreto
e a formiga que caminha
pesam no meu peito
como o tempo
que adensa a dor.
Sei que há solidão.
E mil olhos me fitando
por entre
as brechas.
Dali, a luz que escapa
é ínfima,
mas me acompanha,
cinzenta e áspera,
a um futuro
inteiramente
incerto.
§
questões
a)
perceber
e não crer
b)
notar o
inotável
c)
ver [além
de ser]
d)
decifrar o
indecifrável
e)
ouvir, e
não só ir…
f)
carregar
este sim
g)
querer
o pleno fim.
Gustavo Adriano é poeta e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É goiano e tem 23 anos. Embora tenha passado maior tempo de sua vida no Distrito Federal, atualmente vive em Buriti Alegre. Autor de Voo sem direção, publicado pela editora M.inimalismos, explora em sua poesia a essência da palavra como forma de potência, criando zonas de silêncio e reverberação no leitor.
