POESIA

Poemas de Raíssa Abreu

Imagem: Acervo pessoal.

outro espelho

em fragmentos
pelo pedaço da capa
do abajur agigantado
pela porta semiaberta
de um armário pelos
livros invertidos duplicados
o cotidiano se abre

pedaços de uma vida
palpável emoldurada em
armação instável volatizam no
portal de madeira para a
dimensão dos seres lácteos que
se explodem
se escapam
se espalham

e espreitam

§

inúteis

miriã
precisamos conversar
sobre a nossa situação

nós do jeito que tá
é daqui pra pior

você não abre mais o cartório
eu não tô mais conseguindo ser
útil

de modo que não tô sabendo
o que ainda estamos fazendo
aqui

mas não há de ser
nada

daqui a pouco eu lembro
o que eu queria
te falar

te contei que
o papai morreu?
morreu moço coitado
quarenta anos
começou a tossir
foi a primeira vez
que ela apareceu na casa
aquela moça que voltou

depois pra buscar a mamãe
não quis conversar
não podia esperar
quarenta anos coitada
mamãe viúva adoentada

você não abre mais o cartório
mas destá
daqui a pouco eu lembro

lembra miriã
quando eu fugi da escola com a nilza
e fui pra roça a pé
lembra quando a professora saiu
e foi você que deu aula
quando a gente represou o rio
e virou aquele piscinão

papai ficava satisfeito
mamãe dizia minha nossa
senhora

uma vez eu fugi da escola com a nilza
e fui pra roça a pé
lembra miriã
papai ficava satisfeito

coitado do papai
morreu moço

foi a primeira vez
que ela veio

lembra

miriã
pega lá aquela caixa
onde guardam os nossos
objetos e vê lá pra mim
aquele terço pesado que eu levei
na cintura até meu corpo encurvar

pra você traz lá algum objeto
pontiagudo uma agulha de crochê
alguma caneta tinteiro
pra você assinar bem desenhado
uma certidão de casamento
pra nós vai miriã até que
a morte as separe né
miriã atestar que a gente
existiu

miriã
você não consegue mais
segurar a caneta
nem eu
carregar o terço

não estamos mais conseguindo ser
úteis

de modo que não tô sabendo
o que ainda estamos fazendo
aqui

mas não há de ser nada
destá

§

no que ela pensa quando reza

enquanto a medusa de hélène ri
maria eunice reza
por ela

maria eunice acha
que o riso da medusa
é exagerado como uma noiva pintada demais

lhe ensinaram que alegria tem que ter medida
como o bolo na forma
como a letra de forma
como os dias
nas páginas do diário

por isso ela reza
pelo isso ela escreve

pais e marias se repetem
no terço
no texto
e nos dias de maria eunice

ela precisa cuidar dos seus
lavar a roupa
fazer o café
registrar

sem perder a medida

e nunca deixar de agradecer ao isso
a direção
o porquê de maria eunice

ela
o livro aberto
a mulher sem segredo

mas sempre se pode descobrir uma ave-maria
esquecida no terço
de maria eunice

mas sempre se pode
descobrir uma ave-maria
esquecida
no terço

queria que a gente fizesse um bolo
juntas na sua cozinha na granja
a gente ouvia a rádio do padre

zezinho você depenava a
galinha eu te contaria vó meus
ovos não vingam
mais trouxe aqui um bolo
de papel costurado que
eu fiz pra você
se esconder
nele
se
quiser

§

ave mãe

nossos
pés estrelados secos
grãos escapam do bico
apressado arregalados olhos
de lado à espreita a panela
o pescoço quebrado cisca-cisca
conta o grão um dois pó-pó pede
à tarde à grande galinha graças pelo
grão nosso ovo pintinho nosso poupe
nosso pescoço de cada dia
ó grande mãe galinha
amém

Raíssa Abreu é autora de “Objeto estranho” (Patuá, 2024). Os poemas “Inúteis” e “O que ela pensa quando reza” fazem parte desse livro. Mineira de Pedralva, vive em Brasília, onde é jornalista e estudante de Letras. Faz parte do coletivo de poetas Nexo Grupal.

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