RASCUNHO (ou ideia de des-escritura)
A solidão do cavalo no sítio me lembra a minha, pensei em começar assim. Apago. O cavalo já não está no meu campo de visão e mesmo assim sinto sua indefectível ausência como a presença absurda do vazio — não sei se fui clara: apago.
Reescrevo. Por que eu quero escrever sobre cavalos? Não, não sobre cavalos, mas sobre este cavalo em particular, este cavalo solitário que se alimenta e nunca, nem se me visse, pensaria em mim ou na minha solidão.
Não está bom. Apago. Escrever sobre um cavalo parecia fácil, agora não mais. Penso na forma. Um cavalo combina mais com poesia ou prosa? Mas não basta pensar no animal, também há que se pensar na solidão. Reescrevo: Apago.
Mais uma vez. Penso nos cavalos dos mitos, em Pegasus, nos bíblicos atrelados às carruagens da Rainha de Sabá, naqueles de Guimarães Rosa, assassinados, naquela de Vronski, morta na corrida. Nenhum deles se parece meu cavalo – já o chamo de meu porque, sem nunca ter me visto, ele se tornou indubitavelmente parte da minha coleção de curtíssimas obsessões.
Isso não me ajuda, então apago. E se eu inventar um conto, ficção mesmo, começo meio e fim, cliffhanger, flashbacks, a infância do cavalo, seu gosto por um certo tipo de quintal e de capim, sua aspereza e doçura sobrepostas. Nada disso.
Então entendo: é que o cavalo me pertence. Não poderá nunca ser parte de um conto, poema, crônica, canção. A impressão do bicho ficará apenas em meus olhos e, embora pense em histórias para ele, esqueço e apago. Deliberadamente.
Mas reescrevo. E começaria assim:
“Ela viu o cavalo sozinho no quintal e, por um instante, contemplou no bicho a sua própria solidão.”
Apago.
§
DETALHE
Você disse que gostou dos meus detalhes
e eu queria que ficasse
até notar
[silenciosamente]
que eu sempre pinto as unhas começando
pelo dedo anelar
da mão esquerda.
Sem dizer uma palavra eu queria
que você catalogasse
na aba correspondente à letra do meu nome
este hábito
como mais um detalhe
e gostasse
[silenciosamente]
e ficasse mais um pouco.
§
CIGANA (ou endereço para correspondência)
Meus cabelos espalhados pelo chão
sorteados na mobília
esquecidos nos lençois
[e como se fosse possível tua voz a lamber o meu ouvido dizendo que meus cabelos estão espalhados pelo chão sorteados na mobília esquecidos nos lençois].
Pulseiras batons ligas de cabelo que se partem
[e te escuto dizer com a voz de ós fechados que minhas pulseiras batons e ligas de cabelo que se partem estão entre teus sapatos tuas cortinas tuas louças teus perfumes
sobretudo entre os perfumes].
Prendo a liga de cabelo no meu braço mas já sei que vou deixá-la
nos cantos dos bancos no sofá nas tuas pernas que enrodilham minha cintura
e que depois os meus cabelos
estarão em tuas mãos e na bancada da cozinha.
Minha pele vai ficando em tua casa
porque ora me queimo ora congelo
e minha vista de cigana intui de largo
que teu corpo encontra os restos
que espalho pelos cantos: tantos feitiços jogados – tantos pães e maçãs.
E um dia assim calculadamente
[mas sem sequer me dar conta]
deixei mais de mim e te avisei:
esqueci aí um livro – e era isso que faltava.
e desde então meus cabelos minhas ligas de cabelo minhas unhas minha pele e tudo mais
repousam [desconfiadamente
no escandaloso musgo da tua retina e entre os teus perfumes
sobretudo em teus perfumes.
§
DESORDEM
É dia.
Espelho os retratos na infinita parede de mármore e unhas
de fios de cabelo e azulejos quebrados
a galeria inexplicável do teu afeto.
Recentemente descobri que em sua etimologia afeto tem a ver com manejar e isso me
recorda as tuas mãos.
Vejo tudo ao contrário – como o nome que consigo adivinhar daqui.
No muro de pedra que teu olho levanta entre nós
não canso de procurar o restante do perfume que deve ter ficado
entre as minhas articulações
agora desabitadas.
Há um caminho de tijolos sobre teu peito
e eu digo teu nome como quem precisa de um mapa que está fora de alcance:
Os muros e as pedras — teu peito a me prender e afastar.
Volto aos quadros e às paredes
porque quero reencontrar o vítreo que te mantém acesa: as dobraduras de papel entre
meus dedos.
É noite.
Meu coração emborcado e tuas mãos
como a modelar as canções (se fosse possível modelar canções)
que ouço no Tempo inexistente entre o Já e a Fábula – o Tempo que não existe além de
nós.
Há alguns dias soube que a palavra Tempo corresponde exatamente ao que significa –
a divisão da duração em partes – e me ocorre que deveríamos inventar outro nome
para isso: o estar da tua presença reunida à minha.
Há quanto tempo te procuro nesse Tempo sem nome, nesse existir inventado?
Os retratos espelhados – mármore, unhas, azulejos, cabelos, tijolos
meu silêncio e o respirar que coabitam
nas delicadas amarrações do teu corpo
nos muros que tão imponentes
me prendem e afastam
nas impossíveis ventanias do teu olhar
como se olhos pudessem ser de vento.
Rute Ferreira é maranhense, de São Luís. Tem formação em artes e é autora dos romances Terra Batida e Bordado em Ponto Corrente, além de livros de contos.
