POESIA, TRADUÇÃO

Seis poemas de Olga Orozco

Imagem: Plan B.

Traduzido por Thomaz Albornoz Neves

Com esta boca, neste mundo

Não te pronunciarei jamais, verbo sagrado
ainda que tinja minhas gengivas de azul
ainda que leve debaixo da língua uma pepita de ouro
ainda que derrame no coração um caldeirão de estrelas
e por meu rosto passe a correnteza secreta dos grandes rios

Talvez tenhas fugido para o lado da noite da alma
ao que não se alcança com lâmpada alguma
e não há sombra que guie meu voo pela entrada
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
onde apenas se inscrevem o roce de um galho e a lamúria do vento

E nem um só tremor que assuste as mudas pedras
Já falamos demais do silêncio
o condecoramos como uma sentinela no arco final
como se nele repousasse o esplendor depois da queda
o triunfo da palavra com a língua cortada

Não se trata da canção nem do soluço
Já disse o amado e o perdido
travei com cada sílaba os bens que mais temi perder
Ao longo do corredor soa, ressoa a tenaz melodia
retumbam e se propagam como o trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão
Nossa longa luta também foi uma luta até a morte com a morte, poesia

Ganhamos. Perdemos
pois como nomear com esta boca
como nomear neste mundo com esta única boca neste mundo
com esta única boca?

§

Con esta boca, en este mundo

No te pronunciaré jamás, verbo sagrado,
aunque me tiña las encías de color azul,
aunque ponga debajo de mi lengua una pepita de oro,
aunque derrame sobre mi corazón un caldero de estrellas
y pase por mi frente la corriente secreta de los grandes ríos.

Tal vez hayas huido hacia el costado de la noche del alma,
ese al que no es posible llegar desde ninguna lámpara,
y no hay sombra que guíe mi vuelo en el umbral,
ni memoria que venga de otro cielo para encarnar en esta dura nieve
donde sólo se inscribe el roce de la rama y el quejido del viento.

Y ni un solo temblor que haga sobresaltar las mudas piedras.
Hemos hablado demasiado del silencio,
lo hemos condecorado lo mismo que a un vigía en el arco final,
como si en él yaciera el esplendor después de la caída,
el triunfo del vocablo con la lengua cortada.

¡Ah, no se trata de la canción, tampoco del sollozo!
He dicho ya lo amado y lo perdido,
trabé con cada sílaba los bienes que más temí perder.
A lo largo del corredor suena, resuena la tenaz melodía,
retumban, se propagan como el trueno
unas pocas monedas caídas de visiones o arrebatadas a la oscuridad.
Nuestro largo combate fue también un combate a muerte con la muerte, poesía.
Hemos ganado. Hemos perdido,
porque ¿cómo nombrar con esa boca,
cómo nombrar en este mundo con esta sola boca en este mundo
con esta sola boca?

§

Não comeste o lótus do esquecimento

VI
Não comeste o lótus do esquecimento
– o homérico privilégio dos deuses –
porque já sabias que quem se esquece vira objeto inanimado
– nada mais que ressaca ou restos à deriva –
à vontade do caprichoso mar de outras memórias
E assim cavaste um dia em teu depósito de sombras
e restauraste com ternos ligamentos ossinhos dispersos
tecidos encantados pelo sabor da chuva
vísceras doces como colmeias sobrenaturais para a abelha rainha
dentes que foram lobos nas estepes da lua
garras que foram tigres na profunda selva embalsamada
E guardaste tudo nessa bolsa de carvão constelado
que atiraste para cá como em um trem em movimento
e que deixou em algum lugar um buraco por onde te aspiram
e ao qual deves voltar

§

No comiste del loto del olvido…

VI
No comiste del loto del olvido
– el homérico privilegio de los dioses –,
porque sabías ya que quien olvida se convierte en objeto inanimado
– nada más que en resaca o en resto a la deriva –
al antojo del caprichoso mar de otras memorias.
Y así escarbaste un día en tu depósito de sombras
y volviste a anudar con tiernos ligamentos huesecitos dispersos,
tejidos enamorados del sabor de la lluvia,
vísceras dulces como colmenas sobrenaturales para la abeja reina,
dientes que fueron lobos en las estepas de la luna,
garras que fueron tigres en la profunda selva embalsamada.
Y lo envolviste todo en ese saco de carbón constelado
que arrojaste hacia aquí, como hacia un tren en marcha,
y que en algún lugar dejó un agujero por el que te aspiran
y al que debes volver.

§

Um rosto no outono

A mulher do outono chegava à minha janela
mergulhando seus rostos entre as vinhas
inclinando seus ombros, seus ombros vegetais, na névoa
buscando em vão seu peito resignado a nascer e morrer entre dois sonhos

A esperavam as chuvas desde um céu longínquo
as que batiam com dureza a suavidade da sua pele lavrada pelo luto
de uma velha estação
seus olhos nasciam do pranto
ou sua pálida boca perdida para sempre, como em uma oração
calada por deuses inabaláveis

Então estavam os ventos adormecendo o mundo com as mãos
repetindo em seu seco cabelo entrançado
a inacabável canção das folhas que caem
e lá, sob as frias coroas do inverno
o cálido refúgio da terra para sua solidão, semelhante a um presságio
voltou ao seu rastro como uma asa

Vocês, anjos implacáveis do tempo
os que ainda habitam a distância
– esse esquecimento rebelde –
vocês, que levam à sombra
aos seus ídolos desolados, eternos ainda
meu coração hostil, abandonado:
não podeis tirar essa pequena vida de mim entre dois sonhos
este corpo de cipós e de folhas que cai suavemente
que morre para dentro, como morrem as ervas

§

Un rostro en el otoño

La mujer del otoño llegaba a mi ventana
sumergiendo su rostro entre las vides,
reclinando sus hombros, sus vegetales hombros, en las nieblas,
buscando inútilmente su pecho resignado a nacer y morir entre dos sueños.

Desde un lejano cielo la aguardaban las lluvias,
aquellas que golpeaban duramente su dulce piel labrada por el duelo
de una vieja estación,
sus ojos que nacían desde el llanto
o su pálida boca perdida para siempre, como en una plegaria que inconmovibles dioses acallaran.

Luego estaban los vientos adormeciendo el mundo entre sus manos,
repitiendo en sus mustios cabellos enlazados
la inacabable endecha de las hojas que caen;
y allá, bajo las frías coronas del invierno,
el cálido refugio de la tierra para su soledad, semejante a un presagio,
retornada a su estela como un ala.

Oh, vosotros, los inclementes ángeles del tiempo,
los que habitáis aún la lejanía
– ese olvido demasiado rebelde –
vosotros, que lleváis a la sombra,
a sus marchitos ídolos, eternos todavía,
mi corazón hostil, abandonado:
no me podréis quitar esta pequeña vida entre dos sueños,
este cuerpo de lianas y de hojas que cae blandamente,
que se muere hacia adentro, como mueren las hierbas.

§

Para destruir a inimiga

Olha a que avança desde o fundo da água apagando o dia com as mãos
esvaziando em pedra gris o que destinavas à memória de fogo
cobrindo de cinzas as mais belas figuras prometidas pelas duas faces
dos sonhos
Leva sobre seu rosto o sinal:
essa cor de inverno deslumbrante que nasce onde morres
essas sombras parecidas as grandes asas que varrem desde sempre todos os juramentos do amor

Cada noite, ao longe, nessa distância em que o amante
dorme com os olhos abertos ao outro mundo onde nunca chegas
ela muda teu nome pelo ruído mais triste da areia
tua voz, por um soluço sepultado no fundo da canção que ninguém já recorda
teu amor, por uma estéril cerimônia onde se imola o crime e o perdão.
Cada noite, no desabitado lugar onde voltas,
ela põe para secar a cifra da tua idade enquanto a maré baixa
ou costura com o fio dos teus dias a noite do adeus
ou prepara com o sabor do tempo mais belo essa turva poção
que saboreias na solidão
esse ardente veneno que outros chamam nostalgia
e que tão lentamente transforma o coração em um punhado de
sementes amargas

Não permitas que passe
Apaga seu caminho com a fogueira da árvore derrubada pelo raio
Atira seu reflexo onde corram as águas para que nunca volte
Sepulta a forma da sua sombra debaixo da tua casa para que
por sua boca a terra a reclame
Que a batizes com o nome do desabitado
Com o frio e o ardor
com a cera fundida como uma neve suja onde cai a forma da sua vida

com as tesouras e o punhal
com o rastro do predador ferido sobre a pedra negra
com a fumaça da brasa
com o fosso do amor impossível aberto em vermelho vivo ao seu lado
com a palavra de poder
batizada e sacrificada
E não esqueças de enterrar a moeda
Acima a noite sob a pesada pálpebra do inverno mais longo
Abaixo a efígie e a inscrição:
“Rainha das espadas
Dama das desgraças
Senhora das lágrimas:
onde quer que estejas com dois olhos te contemplo
com três nós te ato
bebo teu sangue
e esmago o teu coração”

Se olhas outra vez no fundo do copo
só verás agora uma desbotada cicatriz cujas bordas se fecham
onde as águas se encontram
mas podem abrir outra ferida, ninguém sabe onde

Porque ela foi anunciada no sétimo dia
– No primeiro dia da tua culpa –
e assumiste seu nome com o teu
com os nomes vazios, com o amor e com o número
com o mesmo colar de sal amargo que ata o castigo na tua garganta

§

Para destruir a la enemiga

Mira a la que avanza desde el fondo del agua borrando el día con sus manos
vaciando en piedra gris lo que tú destinabas a memoria de fuego,
cubriendo de cenizas las más bella estampas prometidas por las dos
caras de los sueños.
Lleva sobre su rostro la señal:
ese color de invierno deslumbrante que nace donde mueres,
esas sombras como de grandes alas que barren desde siempre todos
los juramentos del amor.

Cada noche, a lo lejos, en esa lejanía donde el amante duerme con los ojos abiertos a otro mundo adonde nunca llegas,
ella cambia tu nombre por el ruido más triste de la arena;
tu voz, por un sollozo sepultado en el fondo de la canción que nadie ya recuerda;
tu amor, por una estéril ceremonia donde se inmola el crimen y el perdón.
Cada noche, en el deshabitado lugar adonde vuelves,
ella pone a secar la cifra de tu edad al bajar la marea,
o cose con el hilo de tus días la noche del adiós,
o prepara con el sabor del tiempo más hermoso ese turbio brebaje
que paladeas en la soledad,
ese ardiente veneno que otros llaman nostalgia
y que tan lentamente transforma el corazón en un puñado
de semillas amargas.

No la dejes pasar.
Apaga su camino con la hoguera del árbol partido por el rayo.
Arroja su reflejo donde corran las aguas para que nunca vuelva.
Sepulta la medida de su sombra debajo de tu casa para que por su boca la tierra la reclame.
Nómbrala con el nombre de lo deshabitado.
Nómbrala con el frío y el ardor,
con la cera fundida como una nieve sucia donde cae la forma de su vida,

con las tijeras y el puñal,
con el rastro de la alimaña herida sobre la piedra negra,
con el humo del ascua,
con la fosa del imposible amor abierta al rojo vivo en su costado,
con la palabra de poder
nómbrala y mátala.
Y no olvides sepultar la moneda.
Hacia arriba la noche bajo el pesado párpado del invierno más largo.
Hacia abajo la efigie y la inscripción:
“Reina de las espadas,
Dama de las desdichas,
Señora de las lágrimas:
en el sitio en que estés con dos ojos te miro,
con tres nudos te ato,
la sangre te bebo
y el corazón te parto”.

Si miras otra vez en el fondo del vaso,
sólo verás ahora una descolorida cicatriz cuyos bordes se cierran donde se unen las aguas,
pero pueden abrirse en otra herida, adonde nadie sabe.

Porque ella te fue anunciada en el séptimo día,
– en el día primero de tu culpa –,
y asumiste su nombre con el tuyo,
con los nombres vacíos, con el amor y con el número,
con el mismo collar de sal amarga que anuda la condena a tu garganta.

Olga Orozco (Toay, La Pampa, 1920 – Buenos Aires, 1999) foi uma poeta argentina. Passou sua infância em Bahía Blanca até que mudou-se para Buenos Aires aos dezesseis anos com seus pais, onde começou sua carreira como escritora. Seus trabalhos poéticos foram influenciados por Rimbaud, Nerval, Baudelaire, Milosz ou Rilke.

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