FICÇÃO

Haraquiri

Imagem: Tsukioka Yoshitoshi, 1882.

Vitória Gabriela
São Paulo – SP

“Sei agora qualquer coisa sobre os que procuram sentir para se saberem vivos. Caminhei também nessa viagem perigosa, tão pobre para nossa terrível ansiedade. E quase sempre decepcionante. Aprendi a fazer minha alma vibrar e sei que, enquanto isso, no mais profundo do próprio ser, pode-se permanecer vigilante e frio, apenas observando o espetáculo que a si mesmo se proporcionou.” – Clarice L. “Obsessão”

Defendi o perímetro dessa história como se a raiz da minha vida e a raiz desse amor fossem a mesma. Mas mesmo na abnegação há limites. Ele encontrará em meus pertences uma xícara decorada com rosas cor-de-rosa que eu ganhei aos dez anos. Xícara essa que quem me deu muito provavelmente não se lembra da existência, mas eu nunca a deixei cair. Entretanto, há em suas bordas um pedaço faltante que eu não me recordo de como perdi. Um minúsculo pedaço de porcelana que a deixa diferente de quando a ganhei, de quando a toquei pela primeira vez. A estampa, também, já não é mais a mesma e hoje está esbranquiçada. Ademais, eu tenho uma ligeira impressão de que ela diminuiu sempre que a toco e sua temperatura contrasta com a do meu corpo, tornando-o real quando aquecido. Também achará frascos não finalizados de coisas que declaro acabadas sem terem acabado e que não jogo fora por algum motivo que desconheço, talvez porque ainda, algo dentro deles, resta.

Voltemos ao início, quando entre lágrimas e um frio que só em maio é possível, desliguei o telefone após uma discussão com meu pai e bradei:

– O quão justa tenho sido?!

– O possível, reconhecer isso também é justiça. – Ele disse, dando partida ao que chamaríamos de ‘encaixe’ ao invés de relacionamento. Quero dizer, para mim foi ali que começou. Quando em um momento em que eu havia percorrido todas as curvas do cérebro, chegado as fronteiras da limitante experiência de só conseguir se ver por dentro, fui surpreendida com, do lado de fora, um suspiro de alívio (por tê-lo feito) entre faces reprovativas. Eu quis dizer que o amava apenas por ter tirado o grandessíssimo saco do meu peito, mas não era um amor pessoal, era um amor pela humanidade. O amei por ter sido humano, por ter utilizado da capacidade inerente de complementar a visão periférica do próximo de maneira positiva. Um amor quase hipotético, pessoalmente falando, mas o mais intenso, honestamente falando.

Para ele, o início provavelmente foi no décimo quinto beijo. E então, jigsaw falling into place.

A lógica era a tinta de demarcação viária do acaso quando abraçamos nossas semelhanças. Tudo, junto, dançava. Mas da banda que ele me apresentou, do álbum que genuinamente amei, já selecionei uma nova música para nós dois que jamais direi. Como nunca disse – nem mesmo na minha carta de despedida, que só com ele percebi que era verdade e estudei o fator da falta de apetite que aparece junto com a paixão. Níveis elevados de norepinefrina deixavam a fome para depois, o irônico é que esse é o componente-chave para a resposta de fuga ou luta do corpo. Não obstante, parte de minha vida provia de sua atenção e era terrível porque seus olhos atravessavam meu espírito e enxergavam meu chagas, minha crônica e silenciosa insatisfação que causava pequenas, mas constantes lesões. Sem notar, eu seguia uma espécie de ritual contra mim mesma. Mesmo sem o fervor comum dos crentes, eu me sacrificava enquanto sabia que era fraca para me auto-recompensar por subir de joelhos ao encontro comigo. Ele percebia. Ele sabia exatamente onde eu havia sido queimada e que meu calcanhar de Aquiles não era uma pessoa ou uma época da minha vida, mas a cor do meu sangue quando vista. Ele negava que soubesse, mas sabia. Esbarrava no meu cotovelo só para colar no local um band-aid e nunca mais dizer nada sobre isso. Espero que perceba que falo figurativamente. Eu jamais deixei que fossem gentis comigo como pagamento por algum erro cometido, a gentileza, para mim, nunca foi moeda de troca.

Admito que a maneira resoluta com a qual ele via as esquinas como sendo, ao mesmo tempo, o início de uma coisa e fim de outra e também a ondulação do que é permanente, me fascinava. Dizia que a existência delas lembrava-o de que nada é sem retorno, logo que captei a perspectiva comecei a sentir um desassossego em viagens pelas BR’s que são recheadas com a sensação de infinidade, onde aquilo que fica pra trás só poderá ser visto novamente com muito custo. Um detalhe que meus amigos e familiares acham miserável, ou no mínimo sentem pena de mim por ser verídico é que eu sempre ia atrás dele quando brigávamos. Não importava se eu estava triste ou brava, o momento passava e eu retornava a busca pelo conforto que só havia no ombro de um estranho há muito conhecido. Acontece que não era por saudade, mas porque eu precisava de um motivo, um sol entre as montanhas no horizonte. Ou então só haveriam subidas. Eu sempre achei que Adèle Hugo não perseguia o amor, mas a liberdade que há em dizer ter uma razão para continuar vagueando. Nunca é o destino, sempre o caminho.

Avistei o rastilho quando, em um jantar com amigos, ele mentiu sobre o vinho. Disse que era um bom vinho que estava guardado por anos e que havíamos decidido abri-lo naquela ocasião, quando ele tinha sido comprado na semana anterior e nem sabíamos qual seria seu gosto, nunca o havíamos provado. É um bom vinho. Todos concordaram. E assinou a carta que deixei. Não sozinho, obviamente, ninguém vai embora por uma pequena mentira com um vinho (embora para mentiras não existam medidas), mas pelo simbolismo dessa ocasião e por ter sido o dominó derradeiro. Enquanto vivíamos debaixo do mesmo ritmo cardíaco, reiteradamente mantive meu foco no fato de que a imperfeição é real e que nós, seres humanos, estamos adulterados por ela. Fiz de minhas convicções um escudo que também servia de arma, mas que flexionava no toque de sua espada. É que antes disso, antes dele, eu pensava que o amor podia ser aprendido. Eu sabia que podia, eu sei que pode quando não acontece de forma facciosa pois mesmo quando as mesmas orações são proferidas de lábios diferentes, mas a queda da voz acontece em uma palavra em um e em outra, noutro… há um ruído estático, não estão na mesma rádio. Demorei, como sempre demoro, a perceber o que era essa agulha penetrando meu mindinho. Essa inquietação posta pela má interpretação, falta de compreensão, esse incomodo que se ganha por pisar fora do trilho.

Sempre que posso, barro o desejo de retornar aos momentos passados porque aceitá-lo é uma forma de suplício, uma comutação em fênix, mas não à ave e sim ao denso buraco negro. Contudo, se eu pudesse dizer a aquela que fui quando o vi pela primeira vez o que aconteceria, o faria. Isso aqui não é nenhum tipo de depoimento de vítima, na verdade, é pela culpa que carrego que almejo essa possibilidade. Não fui quem desejava ter sido. Não disse o que deveria ter dito. Até que chegou o ponto onde continuar a viver como se nada tivesse acontecido era tudo o que me restava a fazer. O que me resta a fazer. Ontem mesmo sonhei com um futuro onde nos acertávamos, mas não é o que vai acontecer, não faz sentido algum remendar um trabalho de crochê que não foi arrematado.

Pensei que escrever essas coisas revelariam o tamanho do meu ressentimento e que não soariam tão inofensivas quanto são, encarei cada letra aterrada aqui antes de soltá-las, mas a necessidade de nunca mais sentir meu cabelo ter o peso do mundo enquanto encaro minhas pernas me perguntando porquê é tão difícil simplesmente dizer, é muito maior. Além disso, nenhuma palavra é inofensiva e crer que as minhas seriam além de ilusório, beira um vitimismo nojento que eu mesma já desmenti. Abramović conhece bem as paredes labirínticas que habitamos, ou melhor, construímos quando amamos, então para o prólogo dessa peça seleciono Relation in time e para o epílogo Rest energy. O segundo, sozinho, explica porque no princípio do fim senti-me onça abatida, adormecida no meu próprio sangue seco. Você, querida, está debaixo da certeza de que a mesma pessoa não ama do mesmo jeito duas vezes e por reconhecer as subtilidades das relações sabe também que fugir dos meus erros não farão os seus mais autênticos. Ambas já pisamos na mesma lama, agora mesmo estamos nela e defitivamente não é pelo mesmo homem, mas pelo mesmo destino. Sem misticismo, só realismo. Anulemos os dias em que você o conheceu e o dia em que eu o vi e ainda assim estaríamos aqui: com passados parecidos sustentando futuros semelhantes, como muitas antes de nós. Renata, eu sei que depois de mim qualquer coisa que você for, me superará. Falo isso não com desdém, mas com paz: seja você completa e inteiramente e será melhor do que eu nessa matéria de amar, mas ‘as mulheres são todas iguais’, já disse Mar Becker. Por isso, não deixe que minha voz enterrada renasça no seu timbre. Ou deixe.

No mesmo sonho onde encontrávamos um ponto de encontro, ele me questionava onde havíamos errado. Curioso e em negação, queria saber se eu achava que era possível amar, respeitar, admirar alguém e, de alguma forma, uma gritante insuficiência esmagar a mutualidade do combo. Não importa o que eu penso quando vivemos o fato e, pelo visto, é mais que possível. Eu dizia que a resposta provavelmente não estava nos ingredientes, mas na quantidade e ele respondia “quem ousa medir um sentir? não basta que ele exista?”

“Bastava, para mim, que você mirasse nas minhas mãos e então elas tornavam-se pedras. Fixas e mudas, mas ávidas pelo seu olhar lacrimoso para que pudessem ser moldadas, tornadas suas. Exigente de tempo e constância, porém completamente viável é o furo nas pedras causados pelas quedas d’águas, todavia, ser água não era o que você queria. Você desejava ser o inquestionável norte e que não só meus pensamentos, mas todos os meus órgãos fossem bússolas feitas com o imã pontuado até onde fixavam-se seus pés. Imóvel e perfeito você. Por um lado, talvez o amor seja sobre aceitação e não devoção e talvez eu estivesse errada em querer ser outra – manchada pelo seu hedonismo; para que pudesse ser sua, mas por outro lado…ser sua significava não ser a mesma. Nunca. Então tornar-me um tipo de extensão do que você é me fazia mais e não menos e era uma adição favorável pois vendo a si na minha íris, inconscientemente, você me amava mais. Além disso, eu queria ser algo digno de alcançá-lo ou de ser alcançada para além das convenções humanas, eu queria mais do que a pele. Eu, que nunca havia sido inteira, senti a necessidade de ser amada inteiramente. Mesmo antes de terminar de formar essa frase, eu sabia que iria me arrepender de tê-la expelido. Nenhuma resposta é a certa quando as perguntas não deviam sequer ter existido, quando aquilo natimorto precedente a tais questões não devia ter sido gerado. Eu não sei nadar e você não sabe andar de bicicleta. Para você é sobre submersão e para mim é sobre equilíbrio. Essas e outras coisas que não soubemos ensinar um para o outro. Quando hesitei ao transitar entre sonhos e realismo, você disse não entender onde habitava meu medo. Porém quando deixei de ser mulher e tornei-me silêncio, abstive-me de você, espero que tenha entendido: na vulnerabilidade. Se esse não é o mundo em que quero viver, não há conforto em gastar minha preciosa vida nele. Jogar meus dias pelas janelas de edifícios em que piso. Em que retorno. Porém, o amor nunca é um desperdício, eu acredito nisso. Ainda assim, não deixa de ser uma zona de perigo. Há tubarões e eu estou sempre sangrando, chamando-os.”

Vitória Gabriela (2002) é uma poeta, contista e cronista paulistana. Autora de Por Osmose (Ed.Fomento Literário, 2022) possui trabalhos publicados em diversas revistas & cias. (linktr.ee/vitoriawho)

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